Crítica | As Crônicas de Conan, o Bárbaro: A Torre do Elefante e Outras Histórias

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Criado por Robert E. Howard na revista Weird Tales em dezembro de 1932, no conto A Fênix na Espada, Conan, o Bárbaro ganhou a sua primeira quadrinização em 1952, no México. Em uma história chamada La Reina de la Costa Negra (adaptação do conto Queen of the Black Coast), a revista Cuentos de Abuelito (pois é) trazia para a Nona Arte um personagem que ficara bastante famoso na literatura.

Em 1970, na busca de heróis de aventuras épicas após inúmeros pedidos dos leitores, Roy Thomas acabou chegando em Conan, o Bárbaro e junto ao um novato (por isso mesmo, mais barato) artista britânico chamado Barry Windsor-Smith, iniciou a produção da revista Conan the Barbarian. A presente crítica aborda as revistas #1 a 8 do título e mostra o por quê desde o início Conan nos quadrinhos estava destinado a ser um dos maiores clássicos da Marvel.

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O Advento de Conan!

The Coming of Conan!

Venha conosco à Era Hiboriana! Retornemos juntos aos séculos obscuros entre a submersão da Atlântida e a aurora da História conhecida! Aos dias em que a hoje esquecida Aquilônia foi a mais poderosa das nações! Uma era na qual a vida de um homem não valia mais do que a força de seu braço armado! Junte-se a nós nesta fabulosa incursão no brutal e indômito mundo de… Conan, o Bárbaro!

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É com esta descrição que Roy Thomas começa o roteiro da primeira história de Conan para os quadrinhos. Nela temos a apresentação de diversos lugares e personagens como a terra de Vanaheim, dos ruivos vanires, onde uma batalha acontece contra os loiros aesires, sendo Asgard aqui, uma terra fronteiriça. Nesta ocasião o jovem Conan da Ciméria (provavelmente aos 20 anos), recém saído de seu batismo de fogo na Batalha de Venarium, com seus cabelos negros, músculos e sede de lutar, está no front ao lado dos asgardianos, que depois sabemos terem pago mais ouro para Conan que os vanires, por isto ele estava daquele lado da batalha.

A história passa rapidamente de um cenário de luta onde Conan se destaca ao lado de Olav e encontra o seu elemento de magia logo a seguir. A essência do gênero “espada e feitiçaria” pode ser vista aqui nos dois atos nos quais a história se divide. Os diálogos são bastante coerentes dentro de cada bloco e há um senso de grandeza admirável no texto de Thomas e na arte de Barry Windsor-Smith ao retratar os momentos futuros, durante a visão do xamã Sharkosh. Grande parte da personalidade de Conan vem à tona aqui, tanto o seu medo de magia quando a coragem de enfrentar esse mundo, quando necessário.

Da visão da História da humanidade que a Pedra Estelar traz, destaca-se o Rei Kull, o Conquistador, personagem também criado por Robert E. Howard e que aparece brevemente em uma visão do passado. O início das aventuras de Conan tem de tudo o que se espera nesse gênero de histórias. Infelizmente a ligação entre o bloco da batalha e o bloco da feitiçaria não é plenamente fluída nesse enredo, assim como a finalização da trama, com Lara transformando-se em um dos Demônios Alados. A ação é rápida e o texto — muito por conta da duração da HQ — não tem tempo para tornar esse encontro mais interessante. Porém, a arte de Windsor-Smith consegue milagres, capturando o estágio de desamparo do Cimério nesse momento em um close de um único e belíssimo quadro, com o olhar de Conan perdido entre as montanhas e sua seguinte caminhada rumo à sua terra.
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O Covil dos Homens-Feras

Lair of the Beast-Men!

Saiba, ó Príncipe, que entre os anos em que os oceanos tragaram a Atlântida e as cidades resplandescentes, e o período em que surgiram os filhos de Aryas, houve uma era jamais sonhada. Reinos esplendorosos espalharam-se pelo mundo, tal qual miríades de estrelas sob o firmamento. Nessa época surgiu Conan, o Cimério… de cabelos negros, olhar sombrio e espada em punho… um ladrão, salteador e matador. Dono de gigantesca melancolia e gigantesca jovialidade, ele veio esmagar os tronos adornados da Terra sob as sandálias que lhe calçavam os pés.

As Crônicas Nemédias

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Aparentemente meses se passaram desde a aventura de Conan contra o xamã Sharkosh. Agora ele caminha por entre montanhas e pequenas florestas e se encontra com os Homens-Fera em uma aventura claramente inspirada em Planeta dos Macacos. O roteiro aborda um momento de fraqueza física do protagonista, que não tem se alimentado direito e tem passado bastante frio. Mesmo com todo o espírito guerreiro arraigado a Conan é muito bom vê-lo sofrer um pouco, porque tira do personagem a aura de invencibilidade ou de ser intocável, algo que irrita em qualquer herói ou criação nas HQs, principalmente no início de suas aventuras, como é o caso.

Existe um discurso e um cenário típico da História Antiga sobre o sistema escravista, mantendo algumas relações com o modelo nórdico e os primórdios dos grandes impérios europeus em seu processo de escravidão de povos, colocando de um lado os dominadores fortes, porém confortáveis demais e despreparados para um contra-ataque dos dominados; e os escravos que caminham como ovelhas para o matadouro, durante gerações, conformados com a situação em que vivem e sem forças ou coragem de fazer qualquer tipo de oposição aos captores. O ambiente claustrofóbico representado pela arte aqui é um item a mais para a opressão, pois os escravos não viram jamais a luz do sol. A história de libertação a partir da luta de Conan na arena é muito bonita e tem uma boa mensagem de perseverança juntamente com a criação de um “mito nacional”, após o sacrifício de Kiord, segundo o próprio Conan, “o último dos escravos homúnculos e o primeiro homem do seu povo“.
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O Crepúsculo do Deus Cinzento

The Twilight of the Grim Grey God!

Adaptação de uma história de Robert E. Howard chamada The Grey God Passes, este conto coloca em cena o sempre polêmico — se bem retratado — e filosófico dilema da guerra. A história se passa na jornada de Conan após a luta contra os Homens-Fera, tendo sido capturado por mercadores de escravos hiperbóreos e ido parar na fronteira daquele país com a Britúnia, onde encontra Dunlang, o guerreiro que servirá de companheiro de protagonista nesta saga.

A história é empolgante porque não traz apenas grandes batalhas e mostra sangue e pilhas e pilhas de soldados mortos (o horror de guerra é tratado aqui a partir de um de seus maiores impasses, que é o desperdício de vidas humanas por reis e comandantes que não se colocam na linha de frente e podem muito bem ser traidores, entregando a guerra ou a terra em troca de dinheiro, mulheres ou poder), mas também porque fala da finitude e dos limites do poder humano e do poder de um Deus. A presença do Grey God (Borri) na história e a forma como ele se retira de cena é bastante lírica e coerente com aquilo que o roteiro propõe, tendo também belos momentos de fantasia através da arte. Uma grande história de guerra e reflexão sobre o por quê lutar, o que é bastante curioso vindo de uma saga como a de Conan, um homem de guerra por excelência.

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A Torre do Elefante

The Tower of the Elephant!

Também baseado em um conto de E. Howard, esta história é uma verdadeira pérola no primeiro volume das aventuras do Cimério. Em primeiro lugar, o roteiro não se furta em descrever com precisão os becos, a parte suja e viciosa de uma vila dos tempos de Conan, com seus ladrões, bêbados, sexo, gente sem banho e suja de sangue, suor e vinho. Guardadas as devidas proporções, eu me lembrei de algumas cenas de banquetes ou simples festejos de guerra nos Contos de Asgard (algo também lembrado pela soberba arte de Windsor-Smith nessa aventura, com belas composições da Torre do Elefante, das muitas pedras preciosas e sugestões místicas através da imagem, tudo bem ressaltado pela finalização de Sal Buscema) e também a missão de Conan para roubar uma joia famosa, misteriosa e aparentemente impossível de ser subtraída da Torre poque é protegida por feitiços e por um astuto feiticeiro chamado Yara.

Arenjun, a Cidade dos Ladrões, é o palco para a primeira parte da trama, que quase parece gratuita, tendo suas funções narrativas melhoradas pelo caráter moral e emotivo que virá depois, quando Conan conhecer outro ladrão, Taurus de Nemédia e por fim, chegar à melhor parte de toda a história, em seu encontro com Yag-Kosha. A temática da escravidão que marcou a aventura passada aparece aqui também, mas dentro de um critério diferente, respeitando as indicações do conto original e adicionando mais elementos mágicos e de sentimentos do protagonista do que cobrando de sua astúcia guerreira, muito embora isso não seja em nenhum momento escanteado pelo texto. Um verdadeiro conto mágico cujos pequenos erros são perdoados de bom grado pelo leitor.

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A Filha de Zukula

Zukala’s Daughter

A base para o roteiro desta história é o poema A Hora de Zukala de E. Howard, que conta a chegada de Conan a um povoado Zamoriano e seu encontro com Zephra, A Tigresa. A história envolve uma relação de dominação entre pai e filha (lembra as situações de O Advento de Conan e O Covil dos Homens-Fera), sendo que o velho mago mantinha por pura maldade a sua cobrança exagerada de impostos para o povoado, embora diante da riqueza que ele possuía em seu castelo não fosse necessário mais ouro nenhum. Mas para manter o medo e o jugo sob a população, Zukala usava da transformação da filha para realizar esses atos, fazendo-a matar, se preciso, os aldeões que oferecessem resistência.

A arte de Windsor-Smith tem mais uma vez um papel de extrema importância na recriação do espaço com misturas de diversas culturas (uma junção de diferentes elementos arquitetônicos, culturais e sociais de distintos períodos da Idade Média) e na forma como trata as criaturas mágicas, como o diabo Jaggta-Noga que é invocado por Zukala em dado momento da narrativa. Diferente das histórias anteriores, não há exatamente um final aqui. A promessa de vingança por parte do mago permanece, embora para a população local Conan tenha cumprido o seu dever. Trata-se de uma história sobre desejo de poder, de vida eterna, de amor e de uma missão peculiar. Nada muito diferente do que Conan estava acostumado, mas talvez com uma pitada a mais de romantismo.

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Asas Demoníacas Sobre Shadizar

Devil-Wings Over Shadizar

Shadizar, a Cidade Perversa, fica no país de Zamora, um local que se parece muitíssimo com as cidades dos contos das Mil e Uma Noites ou com cidades antigas da região do Oriente Médio. Palácios e templos típicos da arquitetura islâmica, vestimentas típicas das regiões quentes do planeta, desertos e, como não podia deixar de ser, um culto. Aqui estão os adoradores do Deus Noturno, para quem de tempos em tempos oferecem como sacrifício uma jovem do povoado. Para azar dos sequestradores, a garota é Jenna, alguém que o roteiro sugere que seja uma prostituta mas que tem suas próprias escolhas no meio de trabalho, além de ser a primeira mulher do título de Conan a mostrar verdadeira força e papel indicadamente relevante na história, não apenas por paixão. Ela luta por sua vida e tem a malícia que é esperada das pessoas de sua perversa cidade.

Conan mais uma vez é enganado pela beleza e carícias de uma mulher, mas desta feita por alguém que voltaria a cruzar o seu caminho. Há um simbolismo interessante aqui, na fundição do ouro do bárbaro em formato de coração pelo tio de Jenna, o ferreiro Maldiz, e o desfecho da história, que tem ótimas apresentações de tramas paralelas no roteiro de Roy Thomas, além de ter na arte uma bem escolhida forma de mostrar o local de ação da história, com características particulares tanto para a cidade quanto para as regiões em torno dela, no oásis. Um interessante “conto do deserto”.

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O Deus na Urna

The Lurker Within!

Adaptação livre de uma história homônima escrita por E. Howard, O Deus na Urna se assemelha a muitos dos contos de rixa entre sacerdotes e deuses que temos em inúmeras culturas, tomando principalmente as mitologias como referência e os contos de fantasia e bruxaria que de certa forma bebem desta fonte. Roy Thomas se atrapalha um pouco no começo, ao definir a localização de Conan no meio de suas andanças, mas isso não afeta de maneira tão negativa a história, porque vemos o personagem inserido de modo orgânico em um evento que envolverá o “Deus na urna” do qual o título fala. O homem-serpente (versão da Medusa) que então se faz ver na trama é a representação do Deus Thoth-Amon, enviado do distante reino da Stygia.

Embora o início não seja como esperávamos de uma história de Conan, com a infame Lady Aztrias tomando as rédeas da situação, a maneira como o texto encadeia os fatos é no geral bem interessante, tragando do leitor um senso de urgência e justiça até que venha o clímax da história, com a revelação do monstro, a mortandade geral e a representação belíssima do Deus das trevas na urna. Uma história de horror e de briga entre divindades e sacerdotes que me trouxe à mente o conflito de The Mummy That Time Forgot, uma história do Senhor Destino com a mesma rinha de crenças e abertura para o extermínio vindo de eternos e seus fiéis.

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Os Guardiões da Tumba

The Keepers of the Crypt

Após os eventos de O Deus na Urna, Conan está sendo procurado por soldados Coríntios, em um favor prestado ao rei do país vizinho, a Nemédia. Foi lá que Conan enfrentou uma manifestação do Deus Thoth-Amon e foi naquela batalha final que Lady Aztrias, sobrinha do governador, foi morta, sendo Conan acusado da morte da infame mulher. Em fuga, Conan procura encontrar rapidamente o caminho para um lugar onde possa recobrar as forças, o que o leva até um vilarejo aparentemente abandonado, um lugar que logo seria palco do encontro do bárbaro com um antigo conhecido da Batalha de Venarium, o Capitão Burgun e, na reta final da história, dando um ótimo senso de ciclo e coerência dentro da própria saga, com Jenna, a mulher que havia roubado de Conan o ouro fundido em forma de coração lá em Shadizar.

A história aqui é excitante em todos os sentidos. Thomas consegue criar frentes diferentes de batalha e todas muito interessantes, talvez por trazerem indícios de aventuras anteriores do Cimério, o que é um bônus a mais para qualquer leitor de uma grande jornada ao perceber o reencontro de indivíduos que antes cruzaram caminhos. A arte de Barry Windsor-Smith também não fica atrás, tendo dois finalizadores para momentos diferentes da trama, primeiro Tom Sutton, até a cena do flashback, e depois Tom Palmer, com um excelente e delicado trabalho que caiu como uma luva para a arte de Windsor-Smith. Como bônus, temos ainda Jenna saindo às pressas da cidade em um cavalo guiado por Conan, um bom cliffhanger para as muitas aventuras que os dois teriam juntos dali para frente.

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Chronicles of Conan, Vol. 1: Tower of the Elephant and Other Stories — EUA, 1970 – 1971
Originalmente publicado em: Conan the Barbarian #1 a 8
No Brasil: Mythos Books, 2016
Roteiro: Roy Thomas
Arte: Barry Windsor-Smith
Arte-final: Dan Adkins (#1, 7), Sal Buscema (#2 a 4, 6, 7), Frank Giacoia (#5), Tom Sutton, Tom Palmer (#8)
Cores: Mimi Gold (#1 a 5, 7 e 8), Stan Goldberg (#6)
Letras: Sam Rosen (#1 a 5, 7 e 8), Mike Stevens (#6)
Capas: Barry Windsor-Smith, John Verpoorten, Sam Rosen, John Romita
Editoria: Stan Lee
178 páginas (encadernado da Mythos)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.