Crítica | As Diabólicas

estrelas 4,5

“Um suspense raro e elegante”. Esta é a definição simples e honesta para um filme como As Diabólicas (1955), obra memorável de Henri-Georges Clouzot, cuja estratégia de marketing em seu lançamento (com aviso na tela para que o espectador não fosse “diabólico” e não revelasse o final do filme) seria copiada por ninguém menos que Alfred Hitchcock em Psicose, cinco anos depois. Há também uma outra relação de Hitchcock com o filme, menos conhecida do grande público. Consta que ele se interessou muitíssimo pelo livro escrito pela dupla Pierre Boileau e Thomas Narcejac e em 1954 (logo depois de filmar Disque M Para Matar e Janela Indiscreta), e procurou adquirir os direitos autorais da obra, porque queria filmá-la. Qual não foi a sua surpresa ao descobrir que Clouzot havia adquirido os direitos apenas algumas horas antes!

A história de As Diabólicas é de um ousado triângulo amoroso baseado em amor e ódio, dominação e inteligência. Um dos grandes lances do roteiro e do trabalho de direção realizado por Clouzot foi criar uma espécie de cascata de eventos importantes, dando a impressão para o público de que o fôlego da trama acabaria cedo mas, logo adiante, “frustrando” essa impressão inicial e ampliando mais e mais o andamento das coisas até o ponto onde o mistério se coloca como ingrediente principal e a genialidade do texto se revela por completo.

Temos três personalidades muito distintas em cena, fator que nos acende a centelha da dúvida sobre as verdadeiras intenções de cada um, um julgamento de caráter que parece nos confirmar que estamos certos mas que o diretor fazer questão de provar o contrário. A mesma coisa vale para a estrutura cíclica dos espaços cênicos, iniciando no internato, indo para a casa de Nicole (Simone Signoret, em uma maravilhosa interpretação, com grande dose de enigma e olhadelas de mal caráter) e voltando para o internato, onde um dos alunos terá um importante papel de ponte que unirá os blocos do roteiro.

Através da bela e simbólica fotografia de Armand Thirard, as sombras e as luzes se unem a este ciclo vicioso de espaços, criando uma atmosfera que adiciona elementos de terror ao suspense. Clouzot, então, faz uso de sua grande elegância de direção na condução de cada charada, de cada espaço onde o sentimento — qualquer sentimento — se apresenta para o público. Pense por um momento nas cenas de dominação psicológica ou exercício de força de Michel (Paul Meurisse, em uma atuação incrivelmente odiosa) em relação a Christina (a sempre delicada Véra Clouzot). Em toda a sequência na comuna de Niort, especialmente o momento em que Michel se serve do whisky e as sequências posteriores. Na noite da grande revelação, ao final do filme (com destaque para a “cena da banheira”, com um incrível toque de Um Cão Andaluz). Todas essas cenas e sequências recebem um grande número de detalhes de todos os objetos, além de uma variedade de planos com diferentes distâncias, ângulos com diferentes finalidades e, surpreendentemente, economia absoluta de música.

O papel do compositor Georges Van Parys em As Diabólicas é bom, mas muito pequeno. Clouzot não quis, em nenhum momento, causar medo ou apreensão no público com empurrões orquestrais. Seu suspense é preciso, cru, poderoso, realizado através de uma direção irreparável (saber onde colocar a câmera e como movimentá-la faz toda a diferença) e, especialmente na parte final, através do excelente trabalho de Madeleine Gug (que já havia feito milagres em O Salário do Medo) na montagem.

As Diabólicas é um filme genuinamente espantoso. Com interpretações conduzidas com mãe forte, um roteiro brilhante (mas não perfeito, vide o trabalho pouco necessário em relação aos outros dois professores do internato) e uma composição técnica e estética belíssimas e cheias de significado, a obra teve o merecido reconhecimento do público e da crítica, servindo de inspiração para muitos diretores que se aventurariam pelo menos tema no futuro. Em 1996, a obra foi refilmada por Jeremiah S. Chechik, com Sharon Stone e Isabelle Adjani no elenco, escolhidas a dedo para destacar a subliminar relação erótica entre as duas mulheres protagonistas. O resultado da obra, porém, não é nada positivo. Mas isso é assunto para uma outra hora.

As Diabólicas (Les diaboliques) — França, 1955
Direção: Henri-Georges Clouzot
Roteiro: Henri-Georges Clouzot, Jérôme Géronimi, René Masson, Frédéric Grendel (baseado na obra de Pierre Boileau e Thomas Narcejac).
Elenco: Simone Signoret, Véra Clouzot, Paul Meurisse, Charles Vanel, Jean Brochard, Thérèse Dorny, Michel Serrault, Georges Chamarat, Robert Dalban, Camille Guérini, Jacques Hilling
Duração: 112 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.