Crítica | As Falsas Confidências

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estrelas 3

Baseado na peça de Marivaux, de mesmo nome, As Falsas Confidências foi o último trabalho cinematográfico de Luc Bondy, tendo sido lançado um ano após o seu falecimento. Bondy realizou, aqui, um feito bastante corajoso: enquanto a peça, com o mesmo elenco, dirigida por ele próprio, era exibida, de noite, no Odéon-Théâtre de l’Europe em Paris, de dia ele rodou a adaptação para as telinhas, na França e telonas para o resto do mundo. Há de se aplaudir um diretor que sabe tão bem aproveitar os recursos a seu dispor, isso, infelizmente, não é necessariamente traduzido na qualidade do longa-metragem em si, que conta com problemas típicos de adaptações do teatro.

A trama acompanha Dorante (Louis Garrel), um jovem que é contratado para ser o secretário particular da rica viúva Araminte (Isabelle Huppert). Secretamente, o rapaz nutre uma grande paixão pela madame e um dos serviçais da mansão, Dubois (Yves Jacques) planeja, junto do jovem, fazer a dona da casa se apaixonar pelo secretário. O plano dos dois, contudo, passa longe da simplicidade, empregando a decepção de quase todos os presentes no local a fim de criar situações que incentivem o amor de Araminte por Dorante.

Um dos pontos mais interessantes do roteiro de Luc Bondy e Geoffrey Layton é como, em momento algum, é deixado claro se o protagonista está apenas atrás da fortuna da madame ou se realmente é apaixonado por ela. De fato, o foco da obra não é esse e sim ilustrar, com muito humor, as maquinações maquiavélicas de Dorante e Dubois, algumas tão absurdas que começamos a rir somente por sua complexidade. A comédia de As Falsas Confidências, portanto, não precisa se esforçar para cativar o espectador – trata de um tema universal, descontraído, que explora de forma bem-humorada a desigualdade social.

Disse que não era necessário esforço, mas a produção parece não confiar em sua própria obra, em especial a pós-produção, que insere melodias forçadas ao longo de toda a projeção, funcionando como deixas para que o público ria (como as velhas risadas das sitcoms americanas). Infelizmente, esse recurso desnecessário prejudica consideravelmente nossa imersão, quebrando a comédia ao transformá-la, intencionalmente ou não, em algo extremamente over-the-top, exagerada. O esforço de todo o elenco é quase jogado fora em virtude desse recurso.

Digo quase, pois não há como não se encantar com as interpretações de Louis Garrel, Yves Jacques e, é claro,  Isabelle Huppert. Os dois primeiros funcionam como parceiros no crime, através de trocas de olhares compreendemos plenamente o que pensam e sentimos a cumplicidade dos dois personagens. Garrel nos entrega uma figura silenciosamente cínica durante toda a projeção e não há como não ser cativado pela maneira discreta que interpreta o protagonista. Huppert, por sua vez, é tão hipnotizante que, por vezes, chegamos a esquecer de ler as legendas, mesmo não entendendo uma palavra sequer de francês. Há uma incrível naturalidade em seus movimentos e falas e, assim como Dorante, nos vemos apaixonados por Araminte.

É justamente o trabalho de todo o elenco que consegue fazer essa experiência teatral funcionar nas telas. Embora sintamos a estrutura dramática original mais de uma vez, especialmente na troca de cenas e por cada situação ser contida em um cômodo específico, tal fator não prejudica muito o desenrolar da narrativa, pois nos vemos vidrados em cada um dos personagens (mesmo considerando as interrupções da música incidental). Dito isso, a direção de arte magistralmente consegue mascarar que tudo fora filmado dentro do Odéon, isso, é claro, com a fotografia, que muitas vezes utiliza luzes estouradas para esconder determinados elementos, o que chega a incomodar um pouco no início da projeção, mas que, surpreendentemente, acaba se encaixando com os constantes tons de amarelo que simbolizam perfeitamente a riqueza da madame.

Mesmo conduzido pela direção claramente teatral de Luc Bondy, As Falsas Confidências consegue nos cativar em virtude dos esforços do elenco, todos já perfeitamente familiarizados com seus personagens, nos entregando atuações verdadeiramente cativantes. Embora seja prejudicado por algumas questões técnicas, que correspondem ao local onde o filme foi rodado, estamos falando de uma divertida e descontraída comédia, que cumpre seu papel em entreter o espectador de forma descompromissada.

As Falsas Confidências (Les fausses confidences) — França, 2016
Direção:
 Luc Bondy, Marie-Louise Bischofberger
Roteiro: Luc Bondy, Geoffrey Layton (baseado na peça de Pierre Carlet de Chamberlain de Marivaux)
Elenco: Isabelle Huppert, Louis Garrel, Bulle Ogier,  Yves Jacques, Manon Combes, Bernard Verley,  Jean-Pierre Malo, Fred Ulysse,  Sylvain Levitte
Duração: 82 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.