Crítica | As Grandes Aventuras de Pee-wee

O ator e comediante Paul Reubens criou Pee-wee Herman, no início dos anos 80, para parodiar o programa infantil The Pinky Lee Show, enorme sucesso na década de 50. Cá entre nós, alguns programas infantis realmente tornam-se uma verdadeira comédia quando vistos sob olhos adultos. No entanto, o personagem não fez o sucesso esperado. Não que o público não tenha gostado, pelo contrário, Pee-wee passou a ser admirado por adultos e crianças. No fim, Pee-wee tornou-se aquilo que buscava parodiar: um produto infantil.

Devido ao seu sucesso, em 1985, a Warner Bros produziu um filme protagonizado por Paul Reubens e que, consequentemente, promoveu a estreia de um diretor que tornaria-se renomado no futuro: Tim Burton. Assim nasceu As Grandes Aventuras de Pee-wee. A obra conta a jornada de Pee-wee pelo interior dos EUA para encontrar sua bicicleta após ter sido roubada por seu amigo invejoso. No caminho, o personagem conhece motoqueiros, cowboys e uma linda garçonete, construindo várias amizades até que encontre sua amada bicicleta.

Em um primeiro momento, é impressionante constatar como Tim Burton, mesmo em seu primeiro trabalho, mostra sua veia artística. Obviamente, este não é o longa mais autoral do diretor, mas Burton, inteligentemente, sabe os momentos precisos para inserir os elementos góticos, fantasiosos e sombrios que tanto gosta. Mesmo que As Grandes Aventuras de Pee-wee seja uma mistura de feel good movie com road movie, Burton se beneficia das sequências de sonho para expor sua visão no projeto. Nessas cenas, o diretor recorre ao stop-motion, como no sonho com o dinossauro; utiliza uma direção direção de arte exótica, como no sonho no hospital; e uma maquiagem inventiva, como na cena fantasmagórica no caminhão.

Ao assistir As Grandes Aventuras de Pee-wee, fica claro como Burton aproveita as entrelinhas do texto para expor o seu estilo. Aliás, seu amor por monstros, surpreendentemente, também fica evidente aqui, como na cena em que Pee-wee perde sua bicicleta e entra em um beco chuvoso como se fosse um monstro, remetendo aos filmes japoneses, como Godzilla. Outra marca do diretor que fica evidente no longa é a trilha sonora, isso porque o excepcional Danny Elfman protagoniza sua primeira parceria com o diretor aqui. Elfman, outro profissional com uma assinatura marcante, cria uma trilha sonora com notas alternadas, com instrumentos de sopro e bateria, para evocar uma sensação lúdica, divertida e para inserir um ritmo prazeroso no filme.

Portanto, mesmo sendo um longa divertido, para os cinéfilos a maior diversão do filme é acompanhar o jovem Tim Burton apresentando ao cinema a sua visão particular. Além disso, o diretor entrega aquilo que os produtores esperavam dele, uma obra leve e empolgante, assim como o protagonista. Por isso, Burton opta por uma fotografia quente, cheia de cores, principalmente o vermelho, e com planos abertos para destacar a riqueza dos cenários. Veja, por exemplo, a sequência inicial do filme em que acompanhamos Pee-wee acordando e preparando seu café da manhã; nela, através da montagem, Burton intercala planos detalhes das bugigangas de Pee-wee com sua preparação para o dia, permitindo ao público acompanhar o lado infantil do protagonista, sua fascinação por brinquedos e o quão inventiva é sua casa, gerando uma cena encantadora. Ao longo de toda a obra, a sensação maior é essa: diversão e encantamento, uma vez que Pee-wee vê o mundo como uma enorme brincadeira.

Porém, ao analisarmos a narrativa escrita por Phil Hartman e Paul Reubens, algumas falhas se expõe. É evidente a tentativa dos roteiristas em criar um arco para o protagonista em que ele aprende a ser humilde e a ver diversão na interação com outras pessoas, algo dito de maneira expositiva até. No entanto, a construção é mal feita. Não há aqui um momento de virada bem definido e até mesmo a mudança na personalidade de Pee-wee parece forçada. Aliás, algumas interações importantes dentro da narrativa são frágeis, como a relação do protagonista com Simone ou a desavença dele com o vilão Francis.

Em contrapartida, Hartman e Reubens são eficientes em criar cenas cômicas, como na excelente sequência que se passa dentro de um bar com uma gangue de satanistas, gerando a icônica dança ao som de Tequila. Além disso, durante o clímax da obra, há uma perseguição dentro dos estúdios Warner que encanta qualquer fã de cinema, uma vez que os personagens passam por diversos cenários de filmes. Isoladamente, são cenas divertidíssimas, porém, dentro de uma narrativa, falta profundidade para o protagonista e um mínimo desenvolvimento para os coadjuvantes.

Já como ator, Paul Reubens entrega justamente aquilo que o consagrou, um adulto que não cresceu e se diverte como uma criança. Aliás, é impressionante como o Reubens destaca isso não apenas com sua voz infantil, mas também pelo modo de sentar, olhar para os outros e andar. Reubens é, literalmente, uma criança e acompanhar sua construção de personagem é surpreendente. O Pee-wee do ator diverte tanto quanto o filme que protagoniza.

Mesmo com suas falhas narrativas, As Grandes Aventuras de Pee-wee entrega aquilo que promete: um filme divertido tanto para adultos quanto para crianças. Além disso, com o projeto, Paul Reubens pôde notabilizar o personagem que o tornou conhecido pelo público. Mais importante que isso, o filme foi uma estreia com o pé direito para Tim Burton, produzindo um sucesso de bilheteria logo em seu primeiro trabalho, sem abrir mão de mostrar, mesmo que seja em cenas pontuais, o estilo que o consagraria.

As Grandes Aventuras de Pee-wee (Pee-wee’s Big Adventure, EUA – 1985)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Phil Hartman, Paul Reubens
Elenco: Paul Reubens, Elizabeth Daily, Mark Holton, Diane Salinger, Judd Omen, Irving Hellman, Monte Landis, Damon Martin
Duração: 90 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.