Crítica | As Ideias Conservadoras, de João Pereira Coutinho

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estrelas 4,5

Se você estiver em um debate sobre política e quiser atacar o caráter de seu oponente e colocar em dúvida sua capacidade de sentir empatia pelos que sofrem, há um vocabulário pré-definido que certamente lhe será útil. Conservador, reacionário, fascista e outros termos afins serão boas opções. Seja por má-fé ou por pura ignorância, todas essas palavras são usadas comumente como sinônimos, de modo a invalidar o contraditório a priori e cancelar assim o debate. Contra essa depauperação do entendimento do que é conservadorismo, o português João Pereira Coutinho elaborou um interessante ensaio de introdução ao pensamento liberal-conservative (como se fala na tradição britânica). Curto mas contundente, As Ideias Conservadoras chegou às livrarias em 2014, publicado pela editora Três Estrelas.

O subtítulo do ensaio de Coutinho – Explicadas a Revolucionários e Reacionários – define com clareza as margens de três grupos, alocando os conservadores em posição completamente distinta dos outros dois. A dissertação do português, arquitetada em capítulos que cobrem didaticamente os fundamentos do pensamento conservador, é uma ótima oportunidade de corrigir velhas falácias e interpretações viciadas sobre essa corrente do pensamento político. No primeiro capítulo, Coutinho cita a história do antigo rei do Piemonte-Sardenha, que vagava pelas ruas dizendo “ottantott” (“oitenta e oito”). A lamúria do monarca demente aludia ao ano de 1788, imediatamente anterior ao início da Revolução Francesa, que derrubaria os antigos reis absolutistas, galgando ao poder os revolucionários.

O feliz exemplo nos dá a pista do primeiro fundamento do conservadorismo político – a desconfiança das utopias. Coutinho explica que revolucionários e reacionários aproximam-se muito, mesmo que a contragosto, por serem posições calcadas no utopismo. Enquanto os primeiros tomam para si a tarefa de construir um paraíso terreno, que as religiões modestamente só projetaram para o post mortem, os segundos vivem saudosos de um paraíso passado, que lhes foi escamoteado. O ensaísta já desmancha aqui o primeiro ponto de confusão entre conservadores e reacionários. O utopismo do passado do reacionário em nada coaduna com o ceticismo do conservador sobre a formação de quaisquer mundos ideais em qualquer tempo. Eis a primeira pedra angular do pensamento liberal-conservative – o paraíso nos é impossível, pois nossa falibilidade intrínseca impede que o atinjamos. O conservador não nega o bem, mas jamais deixará de levar em conta o mal que habita em todos nós.

Feita essa distinção básica, João Pereira Coutinho segue refletindo sobre o enorme perigo que o utopismo representa. Se um lado reage a qualquer mudança e deseja o imobilismo social, o outro se arroga o direito de determinar os rumos que deverão servir a todos, empreendendo quaisquer meios para atingir o resultado final. Tolera-se a violência contra aqueles que se opõem e solapam-se as instituições. As experiências revolucionárias, prossegue o português em seus apontamentos, confirmam a tese. Da Revolução Francesa, duramente criticada pelo pai do conservadorismo britânico – Edmund Burke, em seu Reflexões sobre a Revolução na França, aos regimes coletivistas do século XX, o que se viu foi um rastro incomensurável de destruição. E das cinzas, não se viu nascer o paraíso entusiasticamente anunciado.

Falando em Burke, é dele a famosa máxima que enuncia o segundo grande fundamento do conservadorismo, de que Coutinho trata em As Ideias Conservadoras: “aquele que é capaz de conservar é também capaz de reformar”. O ensaio é de uma clareza cristalina ao demonstrar que conservadores desejam a mudança do mesmo modo que a conservação, a depender do que se deseja mudar e do que se deseja conservar. Outra frase de Burke é ainda mais clara ao demonstrar a interdependência entre mudança e conservação: “Um Estado incapaz de mudar é também incapaz de se conservar”. Assim sendo, o conservador deseja a mudança, pois ela é salutar quando feita de modo prudente, sem arruinar conquistas passadas em nome de devaneios futuros. Em outras palavras, o conservador faz uma espécie de damage control histórico.

O conservadorismo vê o mundo de uma perspectiva organicista, ou seja, tal como um organismo vivo, composto de um funcionamento prévio e em permanente mudança. Somos, antes de tudo, “inquilinos transitórios em um mundo de inquilinos transitórios”, afirma Coutinho. Portanto, recebemos esse mundo composto de historicidade, participamos de suas mudanças e o entregamos às gerações futuras, sem dominarmos todas as suas fórmulas nem desvelarmos todos os seus segredos. Isso nos conduz ao terceiro pilar do pensamento conservador que o escritor português aborda – o zelo pelas tradições. João Pereira Coutinho adverte os mais incautos de que um conservador não é um antiquário, que considera as tradições por sua natureza inerte, mas sim porque muitas delas demonstraram-se benignas e principalmente úteis ao longo do tempo. Sobreviveram aos “testes do tempo”, nome de seu quinto capítulo. É importante ressaltar aqui que tradições, para o conservadorismo, implicam em benignidade e não se deve confundi-las com preconceitos maléficos à sociedade.

O quarto fundamento de que trata o português é talvez o mais controverso entre os próprios conservadores. A ideia de sociedade de mercado ou de livre mercado, que Coutinho demonstra estar entranhada na concepção original do pensamento conservador, pode ser bem entendida levando-se em conta a célebre anedota de Adam Smith. O padeiro não acorda cedo para fazer seu melhor pão somente por seus impulsos mais altruístas, mas também seguindo seus próprios interesses. Novamente, o conservador surge como aquele que rejeita idealizações de mundo e de humanidade, arredio a apostar todas as suas fichas na bondade universal. Contudo, reflete o ensaio, o mercado (se verdadeiramente livre) contemplará também determinados valores humanos necessários à sua própria vitalidade. Assim, um padeiro preguiçoso ou desonesto não será bem sucedido em uma sociedade de mercado.

As Ideias Conservadoras é um belo preâmbulo para se adentrar em uma floresta tão densa, como é o conservadorismo político. É possível ler a obra de um só fôlego sem maiores dificuldades e, por isso mesmo, o ensaio é tão direto e eficaz na tarefa de desmantelar os erros mais crassos e grosseiros que se cometem ao se falar de uma tradição filosófica tão importante. A escrita limpa e elegante de Coutinho reconstrói a figura do conservador de modo fascinante, para muito longe do espantalho que tanto se ataca. A partir dele, podem-se enfrentar obras mais robustas e desafiadoras, como Conservadorismo, de Michael Oakeshott, As Vantagens do Pessimismo, de Roger Scrutton, ou A Vida na Sarjeta, de Theodore Dalrymple.

O conservadorismo é um exercício de humildade política frente a um mundo muito maior do que todos nós – os de hoje, ontem e amanhã. Entregar aos que ainda virão um mundo melhor do que recebemos, ainda que imperfeito, é a aspiração concreta de um conservador. Mas diferente de utopistas, sua obra será sempre permanente, contínua e inacabada.

As Ideias Conservadoras: Explicadas a Revolucionários e Reacionários – Brasil, 2014
Autor: João Pereira Coutinho
Editora: Três Estrelas
Páginas: 104

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.