Crítica | As Irmãs Makioka

estrelas 5

Durante toda a história do cinema, muitos foram os cineastas e muitos foram os filmes que tentaram abordar uma saga familiar dentro de determinadas realidades. No Ocidente, as tentativas são muitíssimo diversas, mas não raro ficam viciadas em seus próprios dramas internos e se esquecem de contextualizar a família em questão, trabalhar cada uma das partes apresentadas e não deixar de lado a proposta inicial, coisas que, mesmo sendo princípios básicos de qualquer bom roteiro, dificilmente aparecem juntas.

Todavia, quando falamos de filmes Orientais, a realidade muda de figura. Em primeiro lugar, porque a família Oriental ainda é o núcleo do funcionamento social, e a despeito do Cristianismo no Ocidente, essa identidade se perdeu há muito por aqui, pelo menos no sentido geral da coisa. Se olharmos obras recentes vindas do Oriente Médio (A Separação, 2011) ou do Extremo Oriente (O Que Eu Mais Desejo, 2011), perceberemos que a família ainda constitui um foco de importantíssima influência, mesmo quando não funciona em sua plenitude, como é o caso dos dois filmes.

Ao focarmos o cinema japonês e pensarmos em obras de abordagem familiar, é impossível não nos lembrarmos de praticamente toda a filmografia de Yasujiro Ozu e alguns ilustres filmes desconhecidos do grande público, dentre os quais esta preciosidade de Kon Ichikawa chamada As Irmãs Makioka (1983).

O filme é a adaptação do romance de Junichiro Tanizaki, importante escritor japonês do século XX, que teve muitas e suas obras levadas para a grande tela, como Alucinação Sensual (também dirigido por Ichikawa), e Paixão e SangueAs Irmãs Makioka é uma obra mais sensível, humana e contemplativa, que narra a história da família Makioka e seus percalços em torno do casamento das duas irmãs caçula.

O filme tem início em 1938 e, conforme avança, percebemos os fantasmas da Segunda Guerra Mundial se mostrarem. De certa forma, a posição geográfica dos Makioka os afasta dos acontecimentos políticos do mundo, alienando-os, de certa forma (algo construído propositalmente por Ichikawa e Hidaka no roteiro, cuja ironia em relação a isso acontece com toda a “novidade” que é a transferência do marido da irmã mais velha para Tóquio). Mas outros fatores sociais aparecem em maior evidência na película, como o papel da mídia e sua criação de polêmicas sobre a vida das pessoas (me lembrou Escândalo de Akira Kurosawa, que traz exatamente esse tema da fofoca sobre “amantes”), o medo do desemprego e o trabalho, as tradições familiares em metamorfose e a pobreza.

Unificando a matéria natural com as personagens (algo que o cinema do continente americano pouco utiliza), Kon Ichikawa realiza uma obra delicada e dura ao mesmo tempo. A realidade da vida se apresenta para a família Makioka em um momento de transição de gerações. Rebeldia, recusa de pretendentes, fugas e independência na juventude são atitudes praticamente incompreensíveis para os mais velhos, e é a esses elementos que todos são forçados a se adaptar.

O cotidiano da família, os pequenos acontecimentos e as muitas indicações da passagem do tempo não possuem o efeito negativo que geralmente se tem em filmes longos. Contando com uma montagem competente, um elenco de tirar o fôlego (é quase inacreditável a qualidade das atuações nesse filme) e uma fotografia pensada em mínimos detalhes dramáticos de iluminação, ângulos e planos, As Irmãs Makioka não é apenas um filme de potente roteiro ou apenas uma perfeita exposição da transformação da sociedade japonesa nesse novo século (mostrada por Ozu sob outro ângulo em Bom Dia), mas um exemplo de obra cinematográfica tocante, e por seu tema de mudanças constantes e permanências, atemporal – os conflitos atuais podem não ser os mesmo, mas seu o modus operandi é exatamente o mesmo dadas as mesmas condições, o que corrobora a fala de uma das irmãs, já na reta final: as coisas acontecem, as estações mudam, mas tudo permanece o mesmo.

As Irmãs Makioka é uma obra prima sensível, um melodrama familiar realizado com grande apuro técnico, quase como pequenos episódios cotidianos e com um final, no mínimo, arrasador. É daqueles filmes para ver periodicamente durante toda a vida.

As Irmãs Makioka (Sasame-yuki) – Japão, 1983
Direção: Kon Ichikawa
Roteiro: Kon Ichikawa, Shin’ya Hidaka (adaptado da obra de Jun’ichirô Tanizaki)
Elenco: Keiko Kishi, Yoshiko Sakuma, Sayuri Yoshinaga, Yûko Kotegawa, Jûzô Itami, Kôji Ishizaka, Toshiyuki Hosokawa, Ittoku Kishibe, Takenori Emoto, Jun HamamuraJun Hashizume
Duração: 140 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.