Crítica | As Irmãzinhas de Eluria, de Stephen King [A Torre Negra]

estrelas 3

Todo mundo conhece Stephen King por duas características principais: sua fama por escrever obras de horror e a velocidade vertiginosa com que consegue lançar imaginativos livros que não estão presos a apenas esse gênero. No entanto, os fãs do épico A Torre Negra sofreram na mão do Mestre do Horror para descobrir como a jornada de Roland Deschain terminaria.

Afinal, a saga do último pistoleiro do Mundo Médio começou ainda em 1978, quando a primeira parte do que em 1982 viria a ser o primeiro capítulo da série, foi publicado na The Magazine of Fantasy and Science Fiction. É importante lembrar que, até esse ano, King só havia escrito cinco livros, Carrie, A Estranha sendo o primeiro, em 1974, pelo que ele não havia ainda firmado sua reputação. O segundo volume, então, só viu a luz do dia em 1987, com o terceiro sendo lançado quatro anos depois, em 1991. A essa altura, King já era o Mestre do Horror como o conhecemos hoje, com uma produção efervescente de obras das mais diversas naturezas. A saga d’A Torre Negra, então, que tem a ambição de ser uma espécie de núcleo de um universo compartilhado, com referências cruzadas a um sem-número de obras do autor, começou a gradativamente demorar mais ainda a sair, com o quarto volume só vindo em 1997, quase vinte anos depois que tudo começou.

Em seguida, veio o silêncio. Ou quase.

Muito semelhante ao tipo de tortura que, hoje, G.R.R. Martin impõe aos leitores de suas Crônicas de Gelo e Fogo, King, por diversas razões, demorou muito a produzir os três livros finais, que vieram apenas em 2003 e 2004, encerrando a história de décadas, com fãs que começaram a ler as aventuras do Pistoleiro ainda adolescentes e só acabando na meia idade. O único momento em que o autor voltou ao Mundo Médio antes desse prolongado período de seca foi na novela As Irmãzinhas de Eluria, publicada originalmente em 1998 como parte da compilação Legends, de diversos autores diferentes e, depois, em 2002, como parte de Tudo é Eventual, uma compilação de contos e novelas exclusivos de King.

Apesar do autor esforçar-se, no prólogo da história, em mostrar que é perfeitamente possível ler a novela sem conhecimento prévio dos livros até então publicados (os quatro primeiros), a grande verdade é que não é bem assim. Mergulhar direto em As Irmãzinhas de Eluria sem saber exatamente quem é Roland Deschain, o que ele perdeu na vida e o que ele busca, muito provavelmente tornaria a apreciação da obra bem mais vazia de significados e potencialmente confundiria leitores com menções quase aleatórias à Torre Negra, Vagos Mutantes e a locais e personagens do passado do protagonista. Até mesmo o que significa ser um pistoleiro nesse mundo que “seguiu adiante” perde a força e transforma a novela em uma “historinha” de um cowboy que encontra estranhíssimas enfermeiras/freiras em Eluria, uma cidade deserta no meio do nada com coisa nenhuma. Cronologicamente, porém, ela se passa antes de O Pistoleiro, ainda que, claro, depois dos eventos em flashback do quarto livro, Mago e Vidro, sendo considerado normalmente com A Torre Negra Vol. 0.5.

Por incrível que pareça, porém, apesar deste crítico ter lido todos os livros da série, é possível compreender como um leitor “virgem” poderia entrar na história apesar das limitações. Afinal, algo como 85% da “ação” se passa com Roland Deschain imóvel em uma “cama suspensa” convalescendo depois que é atacado por uma horda de mutantes na cidade do título. Ele é tratado por cinco “irmãs” à base de sopa com drogas para mantê-lo sob controle no que parece ser uma enorme ala de um hospital muito branco, com dezenas de camas, mas apenas três ocupadas, uma delas pelo irmão do jovem que Roland vira morto na cidade e cujo amuleto havia recolhido para possivelmente entregar à sua família, se a encontrasse.

Aos poucos, a cada despertar de Roland, ele vai aprendendo mais sobre a natureza sinistra das freiras/enfermeiras, ao mesmo tempo que vai afeiçoando-se de Jenna, a mais jovem e bela delas e a única que o trata com verdadeiro carinho. O mistério, então, vai aprofundando-se e é possível sim passar por cima dos paralelismos com o passado de Rolando e apreciar a superfície do conto, mas somente se o leitor souber quem foi o único amor da vida de Roland é que ele entenderá o que Jenna efetivamente passa a significar para ele, com comentários do protagonista que fazem essa melancólica ponte narrativa.

King é bem sucedido em criar um senso de crescente claustrofobia no leitor, algo que é obviamente ampliado pela imobilidade do protagonista. No entanto, a história parece ser mais longa do que efetivamente é, com uma narrativa que anda muito mais de lado do que para frente e um clímax que independe quase que completamente do próprio Roland, ainda que tenha um arco satisfatoriamente circular se levarmos em consideração o que ele vê e faz (ou, mais precisamente, deixa de fazer) quando põe os pés em Eluria, antes de ser atacado.

Mesmo com pouco a dizer, a irmãzinha Jenna ganha uma construção fantasmagórica e trágica que se encaixa bem com o fluxo da história, ainda que ela seja deixada de lado ao longo de todo o miolo da novela, focado muito mais no entra e sai das demais irmãzinhas no hospital e os cada vez mais terríveis horrores que Roland testemunha sem nada poder fazer. De certa forma, esse pouco desenvolvimento de personagens impede uma identificação maior do leitor não conhecedor do épico com os personagens, tarefa essa apenas um pouco mais fácil para quem já leu os livros, já que Jenna é a única personagem com algum semblante de profundidade e, mesmo assim, não mais do o equivalente a uma poça d’água.

Como uma obra inserida no contexto de A Torre Negra, As Irmãzinhas de Eluria funciona bem, ainda que sem influenciar o futuro de Roland (sim, Jenna é mencionada uma vez em livro posterior, mas sem qualquer tipo de reflexo prático), o que nem era a proposta para começo de conversa. Como uma novela separada, seu valor de face é limitado, pois não carrega nas cores do horror e falha em criar empatia dramática com seus personagens.

As Irmãzinhas de Eluria (The Little Sisters of Eluria, EUA – 1998)
Autor: Stephen King
Editora original: Voyager Books (Legends), Scribner (Everything’s Eventual), Grant (The Gunslinger)
Datas originais de publicação: 1998 (Voyager), 2002 (Scribner), 2009 (Grant)
Editora no Brasil: Editora Objetiva (Suma de Letras)
Data de publicação no Brasil: 2003
Tradução: Myrian Campello
Páginas: 71

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.