Crítica | As Maravilhas

estrelas 4,5

Virgem. Puro. Mel de verdade. O filme vencedor do Grande Prêmio do Júri (Grand Prix) de Cannes do ano passado, foi filmado com película e remete à uma estética saudosa e caseira para contar a história de uma família de apicultores no interior do país. E quais são as maravilhas? Talvez aquilo que o pai tenta responder antes de ser cortado por algo mais interessante. Mas essa é mais uma explicação que não interessa para a diretora e roteirista italiana Alice Rohrwacher, que marcou presença no festival por não entregar explicações ao espectador e construir uma narrativa densa e melada de sentidos e sensações caramelizadas e reconfortantes, mesmo tendo o contraponta das desavenças salgadas, com uma dinâmica crível e cheia de momentos com que o espectador pode se identificar.

Aqui a infância tem um ar adocicado para as filhas mais novas, mas para a primogênita Gelsomina a conversa é outra. Ela age e é reconhecida como a cabeça da família, aquela que coordena e é responsável por todas as tarefas que os pais delegam. A vida no campo não tem nada a ver com férias, como o pai aponta mais de uma vez. O trabalho é árduo e a ajuda é necessária, mas a menina parece sobrecarregada com obrigações e expectativas em cima dela. Muito disso, se deve à figura do pai que fala três línguas diferentes, às vezes em uma mesma sequência. A relação entre pai e filha é muito próxima, e, mesmo com arroubos de gritos e brigas, ele não consegue esconder a predileção que tem por ela com um presente inusitado.

Os detalhes saltam para se destacar em cenas que parecem lupas poéticas. É o que acontece quando Gelsomina tem de tirar os ferrões das costas do pai, por exemplo. São esses respiros pregnantes que evocam as sensações mais fortes no espectador, que em vez de se preocupar com respostas abraça o momento proporcionado pela diretora, que conta com um elenco expressivo. A diretora brinca com as situações de maneira sutil ao balancear a dor e a beleza da vida desta menina, que fica com o rosto inchado por conta de uma picada de abelha e de repente, como mágica, tampa o rosto com as mãos e ao abrir já não tem nenhum traço do acontecimento e desvia o olhar do espectador para a boca dela, de onde uma abelha escapa para caminhar sob as bochechas e começar um desbravamento de território.

Ao escolher focar a lente na jovem Maria Alexandra Lungu, que interpreta Gelsomina, a diretora explora cenas que guardam bastante proximidade com pinturas renascentistas, tal como a Moça com Brinco de Pérola, de Vermeer. Isso condiz com o cenário cheio de afazeres que ela tem e o espaço para certo encantamento encapsulado na presilha de cabelo que ela ganha de uma apresentadora de televisão, que mais parece uma fada e apresenta a possibilidade de um concurso, “Cidade das Maravilhas”, voltado para enaltecer as famílias trabalhadoras da região. Isso abre espaço para citar a participação de Monica Belluci. A atriz renomada imprimi a suavidade e a leveza que possibilitam fazer referência ao Nascimento da Vênus, de Botticelli, completando os quadros do filme.

As Maravilhas (Le Meraviglie, Itália/Suíça/Alemanha – 2014)
Direção:
Alice Rohrwacher
Roteiro: 
Alice Rohrwacher
Elenco: 
Alba Rohrwacher, Maria Alexandra Lungu, Sam Louwick, Sabine Timoteo, Agnese Graziani, Monica Belluci
Duração:
110 min.

 

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.