Crítica | As Origens de Druuna: Anima

ATENÇÃO: este é um quadrinho +18!
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Paolo Eleuteri Serpieri fez as pazes com a memória. Artista veneziano de estilo incomparável, ele começou sua carreira como pintor em 1966, mas só direcionou seu foco para os quadrinhos (especialmente para os westerns) a partir de 1975. Sua larga exposição mundial veio após criar Druuna, uma saga erótica/pornográfica de ficção científica e fantasia, que estreou em 1985 e seguiu até 2003. Treze anos depois, o artista voltou para o Universo de sua maior criação, entregando uma história chamada Druuna, As Origens: Anima, lançada na França em 2016, através de uma parceria entre as editoras Glénat e Lo Scarabeo.

Quando digo que o autor “fez as pazes com a memória“, é porque nos anos de 2015 e 2016 ele revisitou dois Universos que lhe são muito queridos, remodelando-os, de certa forma. No primeiro, ele “pagou uma dívida e uma promessa antiga para um amigo” (Gianluigi Bonelli), ao escrever e desenhar Tex: O Herói e a Lenda, o volume de estreia da linha Tex Graphic Novel, onde, em uma história metalinguística e muito emocionante, olhava para o passado do Águia da Noite, contando uma história que só ele mesmo poderia ter contado. No ano seguinte foi a vez de olhar para o próprio quintal e pagar uma dívida que tinha consigo mesmo, utilizando, neste volume de origem, outra categoria de elementos metalinguísticos, quebras de quarta parede e profunda interação conceitual que passeia brevemente por todas as obras de Druuna, a saber, Morbus Gravis (1985), Morbus Gravis 2: Druuna (1987), Creatura (1990), Carnivora (1992), Mandragora (1995), Aphrodisia (1997), O Planeta Esquecido (2000) e Clone (2003).

Em Les Origines, Serpieri opta pelo silêncio, este, apenas brevemente cortado por onomatopeias e sinais de exclamação ou interrogação. Sobre a experiência e apontamentos teóricos de quadrinhos sem palavras não vou me estender aqui, pois já abordei essas questões em textos que vocês podem conferir paralelamente, um sobre a graphic novel suíça O Número 73304-23-4153-6-96-8 e outro sobre a sensacional GN australiana A Chegada. Aqui, vale dizer que o silêncio ocorre como um símbolo de cumplicidade diante do leitor, com Serpieri interpretando indiretamente o papel de Deus, o artista-criador-aquele-tudo-vê-e-tudo-pode… para com seus personagens.

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Ao mesmo tempo que funciona como prequel de toda a saga de Druuna, Anima é um olhar diferente para a continuidade da obra, dando-lhe um significado que jamais se havia pensado, flertando de maneira completamente autoral com as Crises e Guerras que “reformulam Universos”, então clichês nas linhas de publicação de super-heróis. É um imenso prazer ter em mãos uma obra que brinca com essa levada convencional, mas sob um ponto de vista e com uma execução que não reinicia, não muda nada do que se viu antes, não cria nada absurdo para justificar esta ou aquela ação do passado, mas, ainda assim, dá um novo significado a tudo isso. Algo acontece e altera a nossa forma de olhar para o corpo da obra de Druuna.

Se tivesse que fazer uma comparação mais precisa com o objeto do flerte, eu diria que Anima é o Você Tão Perto de Serpieri. Uma história onde nosso ponto de vista muda — e é tudo grandioso, imprevisível, aplaudível — mas tudo permanece o mesmo. Em tese, parece um paradoxo de crítico embasbacado (e é mesmo!), mas é um paradoxo que encontra a lógica quando você lê (ou vê) a história. E a base adotada pelo autor para criar este novo olhar foi o da “descoberta do mundo” pelo homem e pela mulher, segundo a mitologia judaico-cristã (oh, ironia!). No lugar onde esta Druuna vive, uma espécie de Paraíso, existe até uma árvore com fruto vermelho e galhos de serpente, e é partindo desse ambiente, em busca de água, que Druuna se transformará. A água aqui é utilizada pelo artista como o ponto de partida para uma “infinidade dos possíveis”, assumindo-a como um elemento simbólico que contém todo o virtual, todo o informal; o germe dos germes; todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção“, para utilizar a definição simbólica de Chevalier.

É em torno da água que fluirá o elemento de traição, fazendo Druuna aprender sobre as mazelas do mundo, com todas as suas doenças, vícios de um ambiente pós-apocalíptico (ou o germe dele?) e até as representações infames constantes na obra de Serpieri (plenamente contextualizadas nesse Universo, vale dizer), como o estupro, ação igualmente encontrada na Bíblia, e que nos quadrinhos foi representada de modo bárbaro pelo grande Robert Crumb em Gênesis. O que o leitor JAMAIS pode deixar de prestar atenção nessa obra é nos dois títulos que ela tem, e como eles são manipulados pelo autor ao longo das páginas — junto com uma larga simbologia religiosa — ambos realmente significando algo para a história e para as mudanças de Druuna: AS ORIGENS e ANIMA, sendo o primeiro, a indicação de nascimento/primeiros passos/primeiros momentos de algo ou alguém; e o segundo, a palavra alma, em latim.

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Existe um conceito dentro do misticismo chamado Tulpa (caso tenha curiosidade de ver isso trabalhado em um grau acima do normal, assista Twin Peaks: The Return) que explica o nascimento de um Ser criado apenas através de poderes mentais/forte imaginação de alguém, que desenvolve essa persona; algo vindo do ideal tibetano de “emanação” e “manifestação”. Todos sabemos que Serpieri passou muito tempo pesquisando culturas indígenas e aborígines (que têm diversos conceitos místicos semelhantes aos da Tulpa) para escrever roteiros e dar veracidade a centenas e centenas de páginas que desenhou em histórias de faroeste ou em tramas sci-fi com linhas secundárias dotadas de algum tipo de mitologia ou corrupção da religião cristã, como é de praxe para o autor. Nesta graphic novel, ele aplica esses conceitos para dar a Druuna uma origem secreta.

Se o leitor entender este conceito — executado de maneira brilhante através de uma arte carnuda e marcada por hachuras (aqui, também há uma surpresa visual em relação a isso, e o público compreenderá a leve mudança no estilo assim que captar a proposta) — estará diante de algo que não aconteceu muitas vezes, em toda a História da Nona Arte, não dentro de uma proposta tão ambiciosa como esta. E acreditem: ver o uso metafórico para do termo Deus Ex Machina nos quadrinhos é capaz de nos deixar com uma alegria boba estampada no rosto, por dias e dias. Dá até vontade de tocar o ar e verificar se não tem uma parede invisível ali, com alguém do outro lado manipulando a gente… Isso é que é respeitar a própria obra, criando algo totalmente novo sem macular o princípio de tudo. Paolo Eleuteri Serpieri fez as pazes com a memória…

Druuna: As Origens (Druuna: Anima —  Tomo 0: Les origines) — França, 2016
Publicação original: Glénat, Lo Scarabeo
Roteiro: Paolo Eleuteri Serpieri
Arte: Paolo Eleuteri Serpieri
Cores: Paolo Eleuteri Serpieri
Letras: Aurore Schmid
96 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.