Crítica | As Peripécias do Ratinho Detetive

Mais um dos filmes que se esconde junto aos menos lembrados dos Estúdios Disney, As Peripécias do Ratinho Detetive é um caso curioso e que merece toda a atenção de qualquer entusiasta pela história das animações. Após o fracasso de bilheteria sem precedentes de O Caldeirão Mágico, as equipes criativas do estúdio tentavam reencontrar seu centro de gravidade a tempo de atestar a possibilidade de uma passagem de bastão entre a velha guarda e a nova geração. O desafio, que já parecia difícil em meio às atribulações internas do início da diretoria de Jeff Katzenberg, confirmou-se de forma inegável como verdadeira crise frente à catástrofe financeira resultante da produção anterior.

Produzida simultaneamente ao arriscado épico fantástico de Caldeirão, a adaptação da série de livros infantis Basil of Baker Street definitivamente tinha ares de produção secundária. Fruto da nova diretiva do estúdio em lançar um filme por ano, o projeto foi concebido desde o início como um belo exercício em jogar seguro, partindo de uma proposta simples e revisitando um território estilístico no qual o estúdio já possuía excelência mais do que confirmada. Com toda a atenção da produção (e o subsequente drama interno do estúdio) focada no pioneiro multimilionário Caldeirão, o projeto de Basil of Baker Street conseguiu se safar da desorganização caótica interna e da interferência corporativa ligada às expectativas em relação ao rendimento do filme, tendo como custo apenas o fato de ter de se virar com menos de um terço do orçamento da produção principal. Excelente negócio para Basil e sua turma, a história viria a nos mostrar.

Claro que não me refiro somente ao fato de que o filme tenha tido o dobro de rendimento de bilheteria de Caldeirão — deixemos isso para os Katzenberg da vida se preocuparem, enquanto nadam nas moedas de ouro de suas caixas-fortes. O bom desempenho é merecido justamente porque As Peripécias do Ratinho Detetive é uma belíssima animação, que quando não está depondo a favor de seu vigor de estilo e consistência interna primorosos, encontra tempo para esboçar, em pequenos ensaios de genialidade, alguns dos pontos fortes que marcariam os grandes sucessos de animação da Disney nos anos 1990.

Em termos visuais, a animação traz estilo e realização que em momentos remontam aos grandes triunfos do estúdio. Longe daqui estão os backgrounds rascunhados de 101 Dálmatas, a animação inconstante de A Espada Era a Lei ou mesmo o minimalismo de O Cão e a Raposa. Os designs de personagem constroem em cima do belo estilo consolidado nas tradicionais animações protagonizadas por animais, em especial e de forma evidente em Bernardo e Bianca, provavelmente liberando recursos para um ótimo acabamento para a animação. O uso da técnica APT continua a se provar muito superior à inconstante xerografia, e a revolucionária computação gráfica se faz presente novamente, bem utilizada na cena climática nas entranhas do Big Ben. Se essa evolução já se encontrava em andamento em Caldeirão, o fato é que a narrativa truncada e pouco coesa do corte final da produção anterior não fez favores no sentido de a tornar tão explícita quanto é aqui. O filme consegue garantir os contornos inegáveis de produção disneyana, em parte ausentes em seus vizinhos de produção, O Caldeirão Mágico e o vindouro Oliver e Sua Turma.

Por sua vez, o roteiro consegue equilibrar bem as contribuições dos mais de dez nomes creditados na função. Se houveram dificuldades na formulação da trama, elas não são aparentes no corte final, que conta com um enredo simples e linear. Mais uma vez os paralelos com Bernardo e Bianca são inevitáveis, o que provavelmente remonta ao fato de que a produção de 1977 andava na mente dos produtores, que ensaiaram diversas sequências antes de finalmente prosseguir com Na Terra dos Cangurus.

Adaptando bem os elementos básicos de Sherlock Holmes para uma versão animada bastante carismática, a história, que se passa na Londres de 1897, é estrelada pelo maior detetive da história, morador da 221B Baker Street. Claro que não falamos de Holmes, mas sim do roedor que habita uma pequena casinha embutida em sua casa, Basil. Diferindo muito pouco de sua contraparte humana, o roedor tem grande proficiência no método dedutivo, é um entusiasta do violino e vive uma rivalidade acirrada com o grande gênio do crime, Professor Ratagão.

Quando o artesão Faversham é sequestrado por um morcego sob as ordens – é claro – de Ratagão, o veterano de guerra Dr. Dawson recorre à ajuda de Basil para ajudar a filha desesperada de Faversham, a ratinha Olivia. No percurso, o detetive acaba descobrindo os planos do vilão para dar o golpe na família real e se autoproclamar Rei da Inglaterra. A idiossincrasia das combinações do mundo roedor com os cenários humanos funciona aqui tão bem quanto em Bernardo e Bianca, trazendo elementos divertidos e explorando a premissa de forma sempre inventiva e bem-humorada. Sim, é claro que a sede da monarquia dos ratos é um Mini-Palácio de Buckingham que fica instalado em sua contraparte humana… Mas é claro!

Apesar de não trazer nada propriamente revolucionário, a trama desenvolve bem essas premissas básicas ao longo de sequências com boas batidas de ação e humor. Direcionada ao público infantil, é de se compreender que a produção não se aprofunde no lado mais cerebral de Holmes, falta que é astutamente compensada pelo lado aventuresco, igualmente presente na obra de Conan Doyle. As diversas sequências de perseguição, ação investigativa e combates são perpassadas por elementos inventivos de ficção científica e embaladas por uma trilha sonora energética que faz com que o filme flua não sofra de nenhuma “barriga” narrativa – mal que é mais comum em animações de pouco mais de uma hora de duração do que se poderia imaginar.

Parte desse sucesso deve ser creditado ao excelente desenvolvimento da versão roedora de Moriarty. O personagem do Professor Ratagão foi planejado com notória colaboração ativa de seu dublador original, a lenda do horror Vincent Price, que declarou ter se preocupado principalmente com a construção cuidadosa de uma figura ameaçadora e, ao mesmo tempo, carismática. Provavelmente bebendo da fonte da genial Cruella De Vil, o Ratagão mostrado aqui pode facilmente ser reconhecido como um precursor aos grandes acertos no quesito que as produções da Renascença Disney trariam. Carismático e engraçado sem deixar de ser ameaçador, nosso antagonista conta até mesmo com um dos marcos dos sucessos dos anos 1990 – a sua própria (e fantástica) canção de vilão! Embora não compartilhe do status icônico de um Jafar ou Scar, Ratagão esboça várias das características por trás do sucesso dessas figuras, fato que é provado pelo papel que tem sua presença no desenvolver da animação.

Voando diante dos olhos do espectador e encantando-o por várias vezes ao longo da jornada, As Peripécias do Ratinho Detetive é uma animação subestimada dentro do catálogo da Disney, merecendo destaque entre os lançamentos do estúdio em seus atribulados anos 1980. Se safando praticamente incólume da descoordenação que permeava o trabalho da produtora na época (embora seu título, originalmente intentado como Basil of Baker Street, possa ser considerado uma baixa dessa guerra — os produtores não fizeram segredo de seu desgosto com o título imposto pelos gurus de publicidade da empresa, que virou motivo de piadas internas a respeito de sua natureza tacanha), a animação mostra inusitadamente o potencial que a equipe criativa do estúdio guardava, e que só necessitava do tempo e alinhamento corretos para resultar nos grandes sucessos futuros. Prova cabal de que nem tudo que é pouco memorado é pouco memorável, as aventuras de Basil é um belo acerto em meio a um momento difícil do estúdio, valendo ser não apenas lembrado pelo significado histórico, mas revisitado como o belo clássico que é.

As Peripécias do Ratinho Detetive (The Great Mouse Detective) – EUA, 1986
Direção: Ron Clements, Burny Mattinson, David Michener, John Musker
Roteiro: Peter Young, Vance Gerry, Steve Hulett, Ron Clements, John Musker, Bruce Morris, Matthew O’Callaghan, Burny Mattinson, David Michener, Mel Shaw, Eve Titus, Paul Galdone
Elenco: Vincent Price, Barrie Ingham, Val Bettin, Susanne Pollatschek, Candy Candido, Diana Chesney, Eve Brenner, Alan Young, Basil Rathbone, Laurie Main, Shani Wallis
Duração: 74 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.