Crítica | As Secretas Guerras Secretas de Deadpool #1 a #4

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estrelas 3

Com o Universo Marvel tomado por mais uma saga intitulada Guerras Secretas que, de certa forma, é o equivalente da editora para Crise nas Infinitas Terras da DC Comics, todos os títulos mensais foram cancelados e a linha editorial inteira transformou-se em um vasto tie-in em uma ambiciosa mexida na Casa das Ideias. E, é claro, Deadpool não poderia ficar fora da brincadeira e Cullen Bunn, o roteirista que trouxe a trilogia Killogy, material que quase fez com que nosso crítico Luiz Santiago desistisse de ler quadrinhos e se entregasse de corpo e alma para a Liga de Assassinos, ficou encarregado desta minissérie em quatro números.

Mas calma, pois não se trata de um tie-in.

Ou melhor, é um tie-in sim, mas não da saga Guerras Secretas que o leitor imagina e sim da primeira, aquela coisa tenebrosa publicada entre 1984 e 1985, que abriu caminho oficialmente para as sagas em quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC.

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Mas como? É isso mesmo, caros leitores: a minissérie de Deadpool se passa na época dessa primeiríssima saga e, quando escrevo “na época” quero dizer “dentro” mesmo, mais especificamente durante os acontecimentos que colocaram heróis e vilões em uma rinha de galo patrocinada pelo Beyonder, o ser onipresente e onipotente com ombreiras que pode fazer tudo o que quiser só com o pensamento. Portanto, esse tie-in parece uma “pegadinha do Malandro” em quadrinhos e não consegui não me divertir com o que li, apesar de toda minha rabugice e minha absoluta falta de paciência para Deadpool que, para mim, é um dos mais insuportáveis personagens já criados pela Marvel, quase ganhando do Cíclope. Ha, ha, ha, ele quebra a quarta parede. Ha, ha, ha, ele faz piadinha com tudo. Ha, ha, ha, ele é engraçado. Sorry guys, mas Deadpool é uma mala sem alça e sem rodinha…

No entanto, como disse (depois de desopilar meu fígado – estava precisando) a pegadinha… digo, As Secretas Guerras Secretas de Deadpool diverte, mas somente quem já tiver lido a primeira Guerras Secretas. Se você não leu, pode até ler a minissérie, mas creio que não entenderá patavinas do que está acontecendo e sairá frustrado da experiência. Se não leu, bem, definitivamente não recomendo a leitura, mas siga em frente, ninguém está te segurando…

Vamos à história: Deadpool, que nem mesmo havia sido ainda desenhado em 1984 pelo brilhante artista Rob Liefeld, o deus do corpo proporcional, obviamente não participou dessa primeira Guerras Secretas, mas Cullen Bunn prova que sim, ele estava lá o tempo todo ajudando os heróis a derrotar o Doutor Destino e sua mania de grandeza. Com isso, ao longo de quatro números, o roteirista nos leva a um passeio por momentos-chave de Guerras Secretas sem se preocupar muito em contar uma história particularmente fluida ou mesmo em recontar os eventos da saga (o que é um alívio!). Usando essa estratégia, Bunn acaba exigindo de verdade que a saga seja conhecida mais do que perfunctoriamente pelos leitores, mas foge da armadilha de simplesmente repassar acontecimentos. Apesar de cada número parecer “solto” em relação aos demais, há uma história maior por trás e ela tem relação direta com a trágica personagem Zsaji, criada para a saga original e que ajuda os heróis pagando o mais alto preço. Deadpool acaba se envolvendo com ela (dentre outras…) e os acontecimentos passam a focar nesse lado mais, digamos, sentimental do anti-herói.

Por incrível que possa parecer, mesmo respeito a estrutura geral de Guerras Secretas (ou seja, Deadpool não pode simplesmente sair matando quem bem entender), Bunn não trai o personagem e ele continua o tagarela de sempre, com sua presença sendo sistematicamente costurada nos eventos principais da saga, valendo especial destaque para o episódio do uniforme negro que seria depois usado pelo Homem-Aranha e que um dia originaria o Venom e todos os seus “filhotes”. O leitor de Deadpool, então, não se sentirá completamente um peixe fora d’água aqui, ou que caiu em algum tipo de armadilha (fora o de achar que é tie-in de uma saga enquanto é de outra, claro). Basta sentar e relaxar com uma leitura fácil e pouco exigente (além do requisito essencial de ter lido a saga antes). Um divertimento de algo como 15 minutos por número (se você for lento…).

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Há, porém, um aspecto hors Deadpool para lá de interessante e que pode ser considerado spoiler de Guerras Secretas de 2015. Portanto, se não quiser saber nada, pule o parágrafo seguinte.

SPOILERS

Considerando que a estrutura da nova Guerras Secretas é a criação de diversos battleworlds, cada um lidando com uma era, um evento ou uma combinação de fatores do Universo Marvel desde seu início, é perfeitamente possível interpretar que o tie-in que não é tie-in na verdade é sim um tie-in. Não entendeu? Deixe-me explicar: ainda que a história se passe durante a primeira Guerras Secretas, o que vemos na minissérie pode ser um battleworld replicando o cenário da primeira saga. É o que discretamente dá a entender a primeira página do primeiro número, que localiza a ação em um battleworld sem maiores especificações. Claro, é a mesma nomenclatura da saga original, mas também pode ser uma indicação de que o que vemos é um construto do Doutor Destino recriando sagas. Se for isso, então pode ser que as intromissões de Deadpool na saga original possam (1) ter mesmo acontecido e (2) ter consequências no Universo Marvel daqui para frente. É no mínimo engraçado imaginar as possibilidades…

FIM DOS SPOILERS

A arte, que ficou ao encargo de Matteo Lolli, é caótica, mas muito eficiente ao emular o look and feel da saga original, algo essencial para a verossimilhança do que lemos. Não há muita invencionice na transição de quadros talvez justamente para que o leitor não se perca mais do que o necessário com os aparentes pulos de lógica causados pela natureza episódica da minissérie. Assim, a pouca fluidez do texto ganha uma ajudinha extra visual para que a experiência possa ser apreciada sem (grandes) frustrações.

As Secretas Guerras Secretas de Deadpool é material de consumo rápido, mas feito com um “carinho” a mais em se tratando de um tie-in (que não é tie-in) criado para arrancar o dinheiro dos incautos leitores que fazem questão de ler tudo ao redor de uma grande saga (em tamanho, não necessariamente em qualidade). As brincadeiras do tipo “o que aconteceria se…” divertem e Bunn, apesar de não poder ser absolvido por Killogy, faz um trabalho interessante aqui.

As Secretas Guerras Secretas de Deadpool #1 a #4 (Deapool’s Secret Secret Wars, EUA – 2015)
Roteiro: Cullen Bunn
Arte: Matteo Lolli, Matteo Buffagni
Letras: Joe Sabino
Cores: Ruth Redmond
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação nos EUA: maio a agosto de 2015
Editora no Brasil: não publicado no Brasil quando da publicação da presente crítica
Páginas: 31 (#1), 21 a 23 (demais)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.