Crítica | As Tartarugas Ninja (1990)

estrelas 3,5

Temas relacionados a artes marciais, ação e aventura sempre estiveram presente na cultura pop. O gênero passou a ganhar maior visibilidade e dimensão na década de 1980, mas foi no início dos anos noventa que uma verdadeira avalanche de produtos relacionados a tais temas dominou a indústria de consumo infanto-juvenil.

Quem viveu a infância na década de noventa bem sabe o quão popular era o grupo de quatro tartarugas treinadas e armadas que combatia habilidosamente o crime em Nova Iorque. Concebidos por Peter Laird e Kevin Eastman, As Tartarugas Ninja despontaram dos quadrinhos e logo invadiram a televisão, os videogames (com jogos muito bons, por sinal) e o cinema.

Três anos após o estrondoso sucesso adquirido com a série de desenho animado, foi lançado o primeiro longa das tartarugas. O filme é ambientado em uma atmosfera nova-iorquina do típico começo dos anos noventa, destacada ainda mais pela trilha sonora marcada por batidas eletrônicas e raps de MCs. Ao introduzir já no início a personagem April O’Neil como repórter de televisão, o filme sem delongas apresenta a suspeita situação que vem ganhando espaço em Nova Iorque. De simples furtos a grandes arrombamentos, a cidade passa a ser tomada por uma onda criminosa que envolve uma enorme gangue de adolescentes recrutados por um grupo criminoso ainda maior.

É justamente durante uma abordagem criminosa de um grupo de adolescentes, que April tem o primeiro contato as tartarugas. Ágeis em salvar a repórter, o quarteto consegue resolver o problema sem ser visto, mas Raphael acaba deixando para trás um de seus sais, recuperado pouco tempo depois em um novo encontro com April. Desta vez, a repórter é levada ao esgoto e conhece o esconderijo secreto das tartarugas ninja e do mentor, Mestre Splinter.

Com o orçamento de US$13,5 milhões, valor relativamente baixo se comparado à média da época, o longa foi o filme independente mais lucrativo até 1999, rendendo mais de US$130 milhões, além de ter tido a 9ª maior bilheteria mundial no seu ano de estreia.

Pegando carona no sucesso da série animada, sem deixar de lado, todavia, as marcas menos brandas dos quadrinhos, o filme é bem sucedido e se destaca no que é possível. A utilização de animatrônicos híbridos é bastante convincente visto que os movimentos dos atores, a dublagem e o desempenho dos rostos mecânicos são articulados em boa sincronia.

Sem ter o propósito criar uma trama complexa, o filme se desenvolve em um roteiro mais do que básico, linear e previsível. A grande sacada do filme, entretanto, está em utilizar o humor que veio se construindo a partir da popularidade da série televisiva combinado aos elementos principais da história original em quadrinhos. Deste modo, o que vemos em cena são personagens já conhecidos, como o Destruidor e o lutador Casey Jones, em um misto de comédia, boas cenas de luta e bastante ação. O filme ainda cumpre com as expectativas do público ao relatar, de maneira cômica, a causa da mutação das tartarugas e a relação paternal que mantêm com Mestre Splinter, que os nomeou em homenagem a artistas renascentistas.

Outro grande destaque de deve ser levado em conta é o diferencial que As Tartarugas Ninja apresentam em relação a outros grupos de heróis lutadores da época. Em franquias bastante populares, a exemplo dos Power Rangers, havia sempre um líder, cuja personalidade nisso se esgotava, e o resto do grupo, que em nada se diferenciava entre si.

Por se tratarem de quatro adolescentes, ao perfil das tartarugas são atribuídas características típicas desta fase. Dessa forma, Leonardo, o líder do grupo, apresenta os traços do jovem obediente, que tende a se julgar mais maduro que os outros. Raphael assume o lado da rebeldia e da indisciplina no grupo, enquanto Donatello, com uma personalidade mais tranquila e amigável, prefere deixar a violência de lado e utilizar a inteligência. Michelangelo, que rouba a cena no decorrer do filme, é o mais engraçado dos irmãos. Sempre com uma piada na ponta da língua, os anseios do ninja costumam alternar entre manejar seus nunchakus e devorar toda pizza que estiver ao seu alcance.

Mesmo com as adversidades de um elenco pouco expressivo, baixo orçamento e produção inferior aos padrões da época, Steve Barron conseguiu trabalhar bem com o que tinha em mãos. Sem dar passos maiores que as pernas, o diretor conseguiu assinar o mais bem sucedido longa das Tartarugas Ninja até então.

As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles, EUA – 1990)
Direção: Steve Barron.
Roteiro: Bobby Herbeck e Todd W. Langen
Elenco: Judith Hoag, Elias Koteas, Josh Pais, David Forman, Brian Tochi, Leif Tilden, Michelan Sisti, Robbie Rist, Kevin Clash, James Saito, David McCharen.
Duração: 93 min.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.