Crítica | As Torres Gêmeas

estrelas 2,5

Um dos fatos mais impactantes dos anos 2000 foi o atentado terrorista às Torres Gêmeas. Naquela manhã de domingo, não há quem não se lembre do choque ao ver na televisão os dois maiores edifícios do mundo caindo como se fossem feitos de brinquedo. O ocorrido trouxe consequências contundentes na política exterior dos EUA, vide a invasão ao Afeganistão. Diante de tais acontecimentos, Oliver Stone, conhecido por seus filmes políticos, como, por exemplo, Nascido em 4 de Julho e JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar, rapidamente se interessou pela história de sobrevivência de dois policiais no ataque. Será que Stone teria coragem de trazer sua visão política à trama? Ou focaria somente na história de superação?

O longa conta sobre a história de Will Jimeno (Michael Peña), integrante do Departamento da Polícia Portuária, e do sargento John McLoughlin (Nicolas Cage), veterano do Departamento. Os dois, junto de seus colegas, partem para o centro de Manhattan, como se fosse um dia qualquer. Até que um ataque terrorista ao World Trade Center muda completamente a situação, fazendo com que toda a equipe do Departamento seja convocada com urgência ao local do ataque. Porém enquanto eles estão dentro do prédio, um 2º ataque terrorista atinge o World Trade Center, exatamente no prédio que ainda não tinha sido atingido, resultando na queda das Torres Gêmeas sobre eles.

Toda a ambientação e reconstrução daquele 11 de setembro é conduzida com muita eficácia por Stone, focando em cenas que apresentam os personagens seguindo suas rotinas normalmente, como indo ao trabalho e tendo conversas despretensiosas com colegas. Outra boa estratégia utilizada é a apresentação de alguns planos de ambientação com as Torres Gêmeas ainda intactas, um dos cartões postais da cidade até então e que traz certa nostalgia para quem assiste. Por fim, o diretor ainda insere várias imagens de arquivos e falas dos telejornais da época, resultando em um realismo na obra que capta o público instantaneamente.

Porém, a partir do segundo ato o ritmo da obra cai bruscamente. Toda a adrenalina imposta no início é abandonada e a trama cai no melodrama, onde é intercalada a preocupação dos familiares dos policiais com seus esforços para continuarem vivos, portanto, a trama permanece muito tempo sem ir à lugar algum. Além disso, as sequências com flashbacks são descartáveis e soam repetitivas. O roteiro, escrito por Andrea Berloff, também insere supostas influências religiosas na trama que não combinam em nada com o realismo construído no início. Outro grande problema no longa é a apresentação do oficial da marinha Dave Karnes, interpretado por Michael Shannon, trazendo um personagem com uma revolta interior e espírito vingativo que não combinam em nada com o sentimentalismo proposto.

Diante de um roteiro limitado, Oliver Stone até que apresenta uma direção eficiente, filmando os protagonistas quase sempre de cima para baixo enquanto eles estão presos nos escombros, ressaltando sua impotência diante de tal situação. Outra estratégia do diretor é a utilização de vários close-ups e close-ups médios que, aliado ao uso incensante de sombras, criam uma sensação de claustrofobia. Porém, apesar de eficaz, esses recursos são usados repetitivamente pela direção, perdendo um pouco da carga dramática. Mas há momentos onde Stone mostra todo seu talento, como na cena onde um plano de grua foca os personagens enterrados e levanta a câmera gradativamente, destacando a distância deles para a superfície. Contudo, destaque técnico fica a cargo do ótimo trabalho de maquiagem, que, além de criar ferimentos convincentes, insere uma fina camada de pó no rosto dos protagonistas, dando um aspecto de morto-vivo aos protagonistas que combina com a temática do longa, dois policiais que praticamente renasceram dos mortos.

Outro enorme desafio pertencia a dupla de protagonistas, precisando criar boas composições sem utilizar nenhum movimento corporal além de suas expressões faciais durante mais da metade do longa, devido as limitações empostas  sobre seus personagens. Dito isso, Nicolas Cage e Michael Penã conseguem transmitir a intensidade da dor física de seus personagens e a luta psicológica que travam para continuar acordado diante de tanta dor. Já as esposas deles, interpretadas por Maria Bello e Maggie Gyllenhaal, passam a preocupação delas com seus maridos, mas o roteiro não dá a oportunidade para desenvolverem algo mais.

Apesar de nunca conseguir retomar a extrema eficiência alcançada no início da obra, a partir do terceiro ato o longa retoma o ritmo, devido à expectativa em acompanhar a reação das famílias ao descobrir que McLoughlin e Jimeno estão vivos, além de acompanhar a dificuldade para retirá-los de toneladas de escombros. O final ainda investe em um otimismo agradável, transmitindo uma mensagem de caridade e amor que deixa uma boa sensação diante das lembranças sobre um fato tão aterrorizante.

A obra consegue emocionar, mas mais por reconstruir bem na mente do público os acontecimentos daquele 11 de setembro de 2001, do que por apresentar uma trama emocionante e envolvente, pelo contrário, a partir da metade, o filme cai no marasmo total, conseguindo se recuperar apenas por sua bela mensagem final. Além disso, Stone mostra-se totalmente sem ousadia aqui, abdicando de colocar sua visão nos fatos e até ignorando as consequências do atentado para priorizar uma trama totalmente melodramática, que até é eficiente durante alguns momentos, mas resulta em um filme totalmente esquecível na carreira do diretor.

As Torres Gêmeas (World Trade Center) – EUA, 2006
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Andrea Berloff
Elenco: Nicolas Cage, Michael Peña, Maggie Gyllenhaal, Maria Bello, Michael Shannon, Stephen Dorff, Jay Hernandez, Jon Bernthal, Armando Riesco, Danny Nucci, Tom Wright, Willian Mapother, Nikki Katt, Brad Willian Henke, Frank Whaley, Viola Davis
Duração: 125 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.