Crítica | As Vinhas da Ira

estrelas 5,0

Cheio de momentos pregnantes, onde palavras não sobram e a fotografia de Gregg Tolland se expande, Ford dialoga com a amplitude do deserto em P&B — uma maneira diferente de trabalhar a marca latente dos filmes de faroeste, gênero com o qual é comumente associado.

Desta vez, as diligências dos filmes westerns se condicionam na forma de caminhonetas abarrotadas de tudo que restou do que antes se chamava lar. E, em vez da disputa territorial com índios, o que vemos é a luta por dignidade ao acompanharmos o trajeto dos trabalhadores itinerantes. Eles foram obrigados a abandonar as terras das gerações passadas e agora apostam seus últimos níqueis na esperança de encontrar trabalho nas plantações da Califórnia.

Em uma narrativa repleta de diálogos contundentes e memoráveis, As Vinhas da Ira crescem nos pensamentos do personagem principal, Tom Joad — interpretado por Henry Fonda , que começa a questionar e pensar sobre o que ainda não conhece: uma forma justa e decente de conviver em sociedade.

E é assim que o relato da fome e da dureza é desenhado. A falta de comida e dinheiro podem muito bem serem capazes de arrebentar o espírito de solidariedade, facilitando a tentativa do egoísmo de vencer esta batalha árdua a favor da certeza de que tudo vai dar certo, de uma forma ou de outra.

O argumento para tecer a crítica ao capital é a desumanização de bancos e autoridades, ou seja, os responsáveis passam a ser corporações e não mais homens. Não existe mais um rosto para dialogar ou apontar a espingarda. Não existe contra o que lutar, o desconhecido é o grande culpado.

São focados os detalhes desta humanidade sem empatia, que olha os itinerantes que partem de Oklahoma como se eles é que não fossem humanos, como se vissem farrapos e lixo no que eles deveriam se ver refletidos. Definitivamente um filme imperdível e emocionante.

Este filme foi indicado a 7 Oscars ao lado de O Grande Ditador de Charles Chaplin, Rebecca de Hitchcock e outros grandes nomes. Tendo como pano de fundo a Grande Depressão, a história da família Joad rendeu o Oscar de Melhor diretor a John Ford, em 1941 e o de Melhor Atriz Coadjuvante para Jane Darwel, que interpreta a mãe. A personagem exibe a força e a coragem acesas pelo medo. Medo da separação da família e do futuro incerto. Mas é ela também a figura mais cheia de intensidade e facilidade de se adaptar em meio às adversidades.

Outros personagens ganham forma e destaque ao longo desta jornada. O pregador que em uma das cenas mais marcantes explica porque jamais voltará a pregar a palavra de Deus:

— Pregadores devem saber e eu não sei. 

Ford se apropria do romance homônimo, ganhador do Pulitzer, escrito por John Steinbeck e constrói uma história que projeta as sombras marcadas na terra. A terra é um personagem indispensável e dela advém a ira e a indignação que será combustível para uma maneira diferente de enfrentar os desafios e lidar com a vida. É nela que o povo se agarra. É nela que eles nascem, vivem e morrem. Mas como diz a mãe: “nós viveremos para sempre, pai, nós viveremos porque somos o povo”.

Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, EUA – 1940)
Diretor: John Ford
Roteiro: Nunnally Johnson (baseado no livro de John Steinbeck)
Elenco: Henry Fonda, Jane Darwel, John Carradine, Charley Grapewin, Doris Bowdon, Russell Simpson, O. Z. Whitehead, John Qualen
Duração: 129 min.
GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.