Crítica | As Viúvas (2018)

“Nessa cidade, você colhe o que você planta.

Esperamos que seja assim. “

Como manipulador de câmera, Steve McQueen consegue capturar excelentes imagens que significam alguma coisa ao espectador. As Viúvas, seu quarto longa-metragem, está repleto de composições visuais marcantes. Um plano contínuo, frente à dianteira de um carro em que se encontra um político, sua assessora e seu motorista, norteia o espectador pelas dimensões díspares do décimo-oitavo distrito, em Chicago. Jack Mulligan (Colin Farrel), como se apresenta, também é um morador da região, localidade em que disputa o cargo de vereador, mantido por gerações de sua família, opondo-se ao candidato Jamal Manning (Brian Tyree Henry) – uma rivalidade, porém, para além das “politicagens” costumeiras, transmutando-se em uma espécie de guerra entre gangues. A política é um conceito subvertido completamente com o tempo, da sua concepção etimológica ao seu entendimento convencional, nos dias atuais. O plano, portanto, investe o espectador em uma contraposição de regiões, justamente a contraposição de poderes – o negro e o branco – que o cineasta entende para o seu longa-metragem, se encaminhando, desde uma comunidade periférica, a uma rua embranquecida. O interesse discursivo é, necessariamente, pela desigualdade e as questões raciais representadas? O grau de coesão impossibilita a resposta.

O cenário de guerra está montado. Robert Duvall, em ótima performance, como presença repugnantemente racista, diminuindo um asco nosso em direção ao seu sucessor, representa a mesmice da política de “outrora”, retornando com novos rostos, mas mesmos sobrenomes. O contraponto dessa manutenção de poderes sobre o povo, porém, também é uma ilustração de imoralidade, com fins, mas sem meios. Mesmo com corretas intenções, o poder precisa ultrapassar certas moralidades, como o óbvio alcance a âmbitos de ilegalidade atingidos em incontáveis cenas? Jatemme Manning (Daniel Kaluuya), irmão de Jamal, apresenta-se como um impensável ser preenchido de considerável calculismo, inquieto a todo tempo, em mais uma contribuição espetacular do ator à arte. Steve McQueen, em uma cena específica, apresentando essa mudança de perspectiva, enquanto jovens cantam, choca o espectador em decorrência do controle de câmera possuído, circulando pela quadra de basquete, nos distanciando de uma potencial ameaça para, abruptamente, reapresentá-la. O jogo permanece para além dos palanques, adentrando igrejas – os momentos com o reverendo -, exemplificando um amor com condições, uma luta por direitos que não é a meta, contudo, o meio para a obtenção do que se é gananciado – dinheiro.

O respectivo jogo de poderes, entretanto, é subvertido do espaço de importância em que, primeiramente, se encontrava, no intrínseco do pensamento do espectador, que passa a se envolver, então corretamente, pelo verdadeiro enredo. O seu começo, apenas em seguida abordando o escopo político comentado, retrata uma curiosa montagem entre o passado e o presente, em paralelo – a calmaria e a tempestade. Veronica (Viola Davis) é a protagonista de uma história que inverte posições inicialmente masculinas, para encaixar o feminino nesse universo nem um pouco requintado – a inversão é maior, ainda mais porque a personagem não mora no décimo-oitavo distrito. A “politicagem” está inserida em uma frenética perseguição de carros, um distúrbio para os momentos de pacifismo entre o casal, completado por Harry Rawlins (Liam Neeson) – o beijo apaixonado, mas sereno. Os trâmites em questão são inúmeros, desbravados gradualmente pela duração do longa-metragem, que acompanha, ao mesmo tempo, a destrutiva jornada da mulher pela criminalidade, movimentada a comandar um novo e último golpe, com o auxílio das viúvas dos outros membros da equipe de seu marido. Steve McQueen não decepciona na ação, impulsionada pela trilha sonora acompanhante, composta por Hans Zimmer.

Quando decide encerrar sua obra, em contrapartida, o cineasta acelera – até mesmo com uma montagem pessimamente resolvida, composta por pedaços de resoluções – as conclusões propostas, enquanto, antes, mostrava uma absurda preferência por uma sufocante quietude, sem muita pressa, pensando em, com essa característica interpretada, transbordar os pesares envolvidos do acontecido – muito mais do que os da excelente protagonista, uma personagem, aqui, sem a capacidade de exteriorizar as mesmas expressões alegres evidenciadas no princípio de sua trajetória. As demais mulheres, por outro lado, são menos exploradas pelo roteiro – Michelle Rodriguez é a mais prejudicada. Steve McQueen, no entanto, constantemente possui alguma exposição sobre a sociedade em volta dessas pessoas, como ao possibilitar um acompanhamento do espectador à sofrida corrida contra o tempo de Belle (Cynthia Erivo), passando por comentários indesejáveis, partindo de homens, ao longo do percurso. A narrativa também quebra as expectativas constantemente, desconstruindo, sucessivamente, o sucesso da missão, em sugestão a uma incapacidade das mulheres em organizar um roubo como o da premissa, mas, consequentemente, enaltecendo os sacrifícios e, em conjunto, esforços coletivos, retomando-a.

Sobre o que é, no final das contas, As Viúvas, do caráter mais popular da obra ao indício de olhos voltados, acima de tudo, às premiações? O poder de uma obra excepcionalmente executada, por um mais que competente cineasta, acaba se esvaindo em um pensamento panorâmico, porque, enquanto temos uma multifacetada exploração de personagens sendo evidenciada – dos mais intrigantes ao menos -, acabamos nos perdendo dentro das ótimas pontuações, que soam, contudo, como digressões de um cerne – ou cernes – esquecidos. A necessidade do roteiro em prolongar demasiadamente a apresentação das viúvas, personagens maiores das que eram, origina um interesse desonesto inicial, por parte dos realizadores, nas complicações entre os políticos, necessárias apenas para o alavancamento narrativo das pautas temáticas. O pré-anunciado debate entre os personagens, presente, posteriormente, no clímax, não possui a relevância ansiada. O enfoque é direcionado à missão comandada por essas mulheres, ainda interessantes – o destaque secundário é Elizabeth Debicki, disposta em um cenário diversificado -, embora descasadas com as demais vertentes de questionamentos. As Viúvas é uma poderosa obra sobre poderosos temas, no entanto, parece estar perdida em meio ao caos das tantas perdas.

As Viúvas (Widows) – Reino Unido/EUA, 2018
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Gillian Flynn, Steve McQueen (baseado em As Viúvas, de Lynda La Plante)
Elenco: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Robert Duvall, Colin Farrell, Brian Tyree Henry, Daniel Kaluuya, Jacki Weaver, Carrie Coon, Manuel Garcia-Rulfo, Jon Bernthal, Garret Dillahunt, Lukas Haas, Kevin J. O’Connor, Molly Kunz
Duração: 130 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.