Crítica | Asako I & II

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Ryusuke Hamaguchi mostrou-se um diretor detalhista em seu épico de cinco horas, Happy Hour, mas foi aventurando-se em um material, à primeira vista, simples, que foi capaz de realizar algo ainda mais grandioso. Asako I & II soa como um romance despretensioso e de tom mundano, mas surpreende ao lançar reflexões muito duras a respeito do amor. Passa-se a imagem de que tudo vai bem enquanto um relacionamento desaba, uma atmosfera muito peculiar que impressiona enquanto anuncia suas particularidades.

Asako foge do interior após um relacionamento traumático, e em Tóquio começa um novo namoro com o duplo de seu antigo namorado. É a tragédia crepuscular de uma mulher cujo passado acompanha-a mesmo que ela caminhe na direção oposta, fazendo com que seu presente na verdade seja uma aprendizagem sobre seu trauma e uma lição de como seguir em frente. A grande jogada do filme é que toda crueldade que o tange é tratada por debaixo dos panos, já que a narrativa folhetinesca faz você esquecer por alguns instantes do problema que Asako enfrenta. Muito tempo de filme é dedicado à construção de seu relacionamento, dos primeiros encontros até o casamento, “esquecendo” a grande questão do filme, causando um maior impacto sempre que ele aparece de forma mais clara.

A trama indica uma suposta complexidade ao longo do tempo, partindo de uma estrutura simples, quase que dividida em capítulos, revelando-se cada vez mais sórdida dentro da doçura antes imposta. A estranheza no ar nada mais é que a tensão emocional de Asako escondida tanto de sua nova vida quanto dos espectadores, este segundo grupo ao menos privilegiado com a informação de seu passado. Quando caem os panos, perguntas sobre amor, paixão e perda são finalmente evidenciadas, e os dois momentos da vida de Asako, antes e depois de seu término tramático, finalmente se encontram e passam a confundir cada vez mais a protagonista.

A jornada de Asako parecia estar vetorizada para o sucesso mas graças à revelações e acontecimentos tudo se volta contra ela mostrando que todo tempo passado não passou de um momento de falsa estabilidade, e o que seria um avanço dentro de si (de Asako I para II), na verdade precisa de um confronto direto, entre seu progresso e seu próprio impedimento. A roupagem típica de Dorama não interfere ao destacar a sensibilidade da obra, e mesmo que o formato seja bastante recorrente no cenário japonês, Hamaguchi é um cineasta particularmente amargo o suficiente de estabelecer uma tendência egocêntrica em sua protagonista cujo conflito principal é a de deixar todos felizes e culpar-se caso nada dê certo. Acho que só os japoneses (ok, e os coreanos) são capazes de encenar um drama histérico e explosivo nessas proporções, que se passam em cafés e micro-apartamentos.

Asako I & II – Japão, 2018 
Diretor: Ryusuke Hamaguchi
Roteiro: Ryusuke Hamaguchi, Sachiko Tanaka, Tomoka Shibasaki
Elenco: Masahiro Higashide, Erika Karata, Koji Seto, Sairi Itoh, Misako Tanaka, Rio Yamashita, Daichi Watanabe, Koji Nakamoto
Duração: 119 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.