Crítica | Ascension (2014)

estrelas 3

Com o novo fôlego de histórias cinematográficas espaciais, do retorno de Star Trek à Gravidade, Interestelar e além, a televisão não deixou de pegar carona e também apresentar suas apostas nos mistérios além da atmosfera terrestre. Foi o caso de Ascension, minissérie do canal americano SyFy, com seis episódios em sua primeira temporada, exibidos nas noites de 15, 16 e 17 de dezembro (dois de cada vez). Apesar do final em aberto, não se sabe se a produção ganhará o formato de série propriamente dito, como aconteceu com Battlestar Galactica, do mesmo canal.

Escrita por Philip Levens (Smallville), a trama acompanha centenas de pessoas que, em 1963, durante a Guerra Fria, partem da Terra na nave espacial Ascension, com motivação pouco explorada e, por isso mesmo, ainda menos convincente. O declarado objetivo da jornada é a colonização de um novo planeta. Só que um assassinato dentro da nave cinquenta anos depois – exatamente cinquenta, sendo que a jornada só está na metade – gera dúvida entre os viajantes, e daí, da desordem para o caos, naturalmente, é uma questão de tempo. Segredos vêm à tona e até o propósito da viagem é questionado.

O grande problema da produção é seu roteiro. A própria premissa, como já apontado, é mal construída. Para piorar, não só a fraca ambientação espacial evidencia o baixo orçamento investido na minissérie, como os personagens não cativam, são de uma superficialidade sem tamanho, não têm suas identidades, personalidades, referenciais de vida, anseios estimulados pelo que ouvem acerca da Terra explorados com vivacidade, com a originalidade que perpassa cada indivíduo. De fato, o crescimento em um ambiente, com objetivos e funções de cada ocupante já determinados até é um tema mencionado, mas pouquíssimo explorado em proporção ao seu potencial. A degradação humana é foco constante em diálogos e ações, mas o elemento humano que inspira essa degradação quase não existe, e sabemos que robôs não têm necessidade de trair-se uns aos outros por mero prazer, de amar ou de ter relações sexuais com alguém que um computador não indicou como a pessoa adequada para ser o seu par na reprodução. É o tipo de história escrita mecanicamente, apoiada em todo tipo de elementos já explorados acerca de conspirações e degradação, mas que não ousa, não inova, apenas segue à risca uma receita já pronta sem tentar um novo tempero, ponto ou temperatura, preguiçosamente requentando o máximo possível, quase sem ânimo.

Mesmo o elenco, que com a devida direção poderia proporcionar resultados incríveis, é claramente afetado pela narrativa desestimulante da minissérie. O capitão da nave, William Denninger (Brian Van Holt, de Cougar Town) não tem carisma, engessado com seus segredos ou mesmo na relação conturbada com a mulher, Viondra (Tricia Helfer, de Battlestar Galactica), ela, sim, a personalidade mais interessante da narrativa. Talvez a segunda mais interessante seja Oren Gault (Brandon P. Bell, de Hollywood Heights), primeiro oficial, incumbido de garantir que a classe operária continue trabalhando, e que assume a investigação do assassinato da tal mulher depois dos cinquenta anos de viagem, incorporando bem o herói curioso, determinado e questionador. No mais, vemos gente brigando a todo instante – o que chega a cansar – prostituição espacial como afirmação da mulher na política, jogos conspiratórios arrastados e o tipo de investigação que, convenientemente, se priva dos questionamentos mais óbvios, do tipo: você diz que uma desgraça acontecerá, mas como sabe disso?

Outro ponto equivocado da produção está na contextualização espacial. Mesmo pelas interações dos personagens, na maior parte do tempo temos a impressão de que eles estão confinados em local genérico, sim, tendo de administrar seus suprimentos, conforto e estilo de vida, mas, aparentemente, sem o espaço talvez infinito a rodeá-los. O próprio cenário, claramente prejudicado por questões orçamentárias, é bem sucedido na reprodução de um espaço claustrofóbico, mas é fácil esquecer do negror lá fora – exceto por esparsas sequências em que o fator sobrevivência atinge seu ápice.

Se melhor desenvolvida, vitalizada, aspectos como a divisão de classes na nave, entre tantos outros, poderiam render uma grande produção, mas tudo, como já dito, parece meramente jogado de qualquer jeito aos quatro ventos, numa miscelânea de ideias incompletas e ambições ilusórias. No fim, ironicamente a conspiração vista da Terra rende os momentos mais atraentes da trama. Ainda assim, o resultado final é uma produção que não passa do mediano, do facilmente descartável na imensidão do espaço.

Ascension (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Philip Levens
Direção: Stephen Williams, Mairzee Almas, Nick Copus, Robert Lieberman, Vincenzo Natali
Roteiro: Adrian Cruz, Melody Fox, Philip Levens
Elenco: Tricia Helfer, Gil Bellows, Brian Van Holt, Andrea Roth, Brandon P. Bell, Jacqueline Byers, Tiffany Lonsdalle, P.J. Boudousqué, Brad Carter, Ryan Robbins
Duração: 360 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.