Crítica | Ascese, de Nikos Kazantzákis

Em determinado trecho de Ascese, o autor nos diz:

Vimos o círculo superior das forças turbilhonantes. A esse círculo denominamos Deus. Podíamos dar qualquer outro nome que quiséssemos: Abismo, Mistério, Escuridão Absoluta, Luz Absoluta, Matéria, Espírito, Última Esperança, Última Desesperança, Silêncio.

Mas o denominamos Deus, porque apenas esse nome, por razões imemoriais, abala profundamente o nosso âmago. E esse abalo é indispensável para tocarmos corpo a corpo, além da razão, a terrível essência.

Para um fã de “filmes de navinhas”, como eu, faltou enumerar a Força. Nikos Kazantzákis (Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, A Última Tentação), mesmo não a citando nesse trecho, enxerga seu Deus como uma força que a tudo abarca, a tudo engendra. É fácil imaginar porque a Igreja Ortodoxa grega não foi muito fã de sua prosa poética.

Antes de iniciar alguns possíveis apontamentos, um aviso – e um pedido: religiosos puristas (ateus e cientistas inclusos), relativistas inteligentinhos, arautos do politicismo e leitores de Nietzsche de primeira viagem, favor sumirem discretamente para evitar a inevitável encheção de saco.

Ascese é um livro religioso não convencional. É um livro poético não convencional e um livro filosófico não convencional. Não à toa boa parte da Religião, da Literatura e da Academia institucionalizadas não levam o nome de Kazantzákis muito a sério, o que mais depõe a favor do maior homem de letras grego do século XX do que contra.

O problema é que Ascese também não suscita no leitor o ímpeto de sentar e escrever uma “crítica” sobre o que acabou de ser lido. Exortado a levantar a cabeça do texto para inalar o poema oceânico, o leitor – no caso, eu mesmo – se vê dividido. Falar ou não falar de Ascese? O que falar de Ascese?

Parágrafos depois, Nikos, parecendo apontar individualmente, brada:

Tudo aquilo que vivemos num êxtase, jamais poderá ser consolidado em palavras. Empenhe-se, pois, sem descanso, para consolidá-lo em palavras. Lute com mitos, analogias, alegorias, com palavras comuns e raras, com brados e rimas, para lhe dar carne, para que se consolide!

Por temperamento, garanto a ausência desse fervor nas descrições a se seguirem, mas já adianto que Ascese é puro fervor. É um incentivo ao embate, mas também à resignação, a ser lido em um só fôlego ao modo que parece ter sido escrito, há quase cem anos.

*

Desnecessário dizer que se trata de um texto para lá de atemporal. Mas em que tipo de texto estamos tocando? Longe de pretender exaurir a obra, aqui vai uma resposta possível: de um ensaio, que flerta com o êxtase místico, com a abrangência de uma filosofia em um estilo mezzo aforístico mezzo poético.

Mas é um ensaio que evita ser um ensaio, na medida em que mantém um foco bem delineado, dividindo-se em seis partes bem convictas e formatadas – que até poderiam ser dissecadas por algum crítico neurótico. Também é um texto espiritual-místico que não vai às últimas consequências como Santa Teresa D’Ávila – seu diletantismo estético o impede.

É pura filosofia e teologia, mas também é um exercício de cinismo, a “escola” filosófica mais anti-filosófica da tradição do pensamento ocidental.

É poesia em prosa, suavizando transições e transformando o concreto em voos de linguagem, ao tom de Walt Whitman. Mas guarda em si demasiadas indicações éticas por trás, atreladas à visão filosófica-religiosa bem definida de seu autor.

Em suma, a resposta para a forma de Ascese está em seu conteúdo: sua chave é o combate, essência do Deus do escritor, que aqui não tem vergonha em expor o núcleo íntimo de suas preocupações.

Nikos Kazantzákis se dilacera contemplando e contempla, em distância, enquanto algo dentro de seu peito grita.

O grego askesis remete à disciplina, exercício, esforço, tal como o esforço despendido pelos homens presos na caverna de Platão para escalar a rude e escarpada encosta antes de contemplarem, já com os olhos devidamente acostumados, a luz do sol.

Kazantzákis retira da metafísica platônica o conceito de exercício e de essência, mas coloca a essência no mundo da carne, aqui e agora. Nada de mundo inteligível a ser alcançado pelo filósofo, nem de paraíso a ser reconquistado pelo predestinado por Deus. Deus não salva ninguém. Nós é que O salvamos, como o subtítulo original em latim indica: salvatores dei.

Apenas um esforço de uma genuína ascese é capaz de salvar quem é imortal.

Recolocando o problema da salvação em seus próprios termos, o escritor grego evita o tradicionalismo religioso ao subverter qualquer noção maniqueísta – termo que aqui utilizo no sentido banal – para trabalhar, literalmente, seu pensamento em torno de uma noção móvel, em constante choque, entre duas percepções adversárias, elevando-as – ambas! – ao patamar sagrado.

Luz e trevas, excremento e espírito. Homem, mulher, paz, guerra, Nikos exorta à tese e à antítese ao mesmo tempo. À ampliação do compreender da própria alma, necessariamente chama de dupla face: uma busca a vida, a imortalidade; a outra, o repouso definitivo, a dispersão, a morte. Tudo isso, como em um panteísmo spinoziano, é Deus.

Nada soa como novidade? Em algum ponto do texto, todo leitor deve chegar à tal conclusão. Certamente o próprio Kazantzákis sabia de cor nada haver de novo debaixo do sol.

O texto em questão é de uma densidade insondável, todavia – e escrito, exatamente, para que a sondagem por palavras se torne inócua. Em Ascese vemos teorias de Freud, o estoicismo de um Sêneca, o respeito à tradição de Burke. Vemos Nietzsche e Bergson, expressas influências do autor. Vemos escancaradamente o vindouro Albert Camus e seu resignado, porém corajoso Sísifo, a vencer o Nobel de 1957 em face do próprio Nikos.

Pela luta – e ela pode ser melhor delineada pelos personagens romantizados do autor do que necessariamente em uma definição a ser tirada deste ensaio – Kazantzakis nos exorta a salvar Deus, Ele mesmo combate incessante no escopo inapreensível em sua totalidade. Incapaz de ser reduzido à seja lá qual face que cada religião institucionalizada venha a dar. Incapaz, em suma, de ser algo definido, fechado, com maiúsculas, Onipotente, Onisciente ou Onipresente.

Tal entendimento teórico, todavia, só ganha vida por meio da disciplina da ação, a última e mais sagrada forma de teoria. Na ação cotidiana, seja interna ou externa, é onde os traços do campo de guerra se dão. E nós, inexoráveis combatentes, irredutíveis irmãos de armas, temos, em um curto espaço e tempo, de perceber que nossa efemeridade não precisa ser salva – isso seria apenas mais um aspecto de nossa vaidade.

Melhor seria que na efemeridade fosse salva – tiro uma breve licença poética – essa Força Abissal, por um esforço espiritual a lutar pela liberdade, pouco importando se é ou não possível alcança-la. Como um genuíno manual de anti-autoajuda avant la lettre, o filósofo grego não aponta caminhos particulares: mais destrói nossas bussolas para clamar pela nossa perda e nosso suor. Só ao fim o silêncio nos atinge.

Ascese (Ασκητική (Salvatores dei) — Grécia, 1927
Autor: Nikos Kazantzakis
Tradução: Silvia Ricardino
Editora no Brasil: Grua Livros
Páginas: 93

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.