Crítica | Ash vs. Evil Dead – 1ª Temporada

ASH VS EVIL DEAD

estrelas 4

Obs: Leia as críticas dos filmes que deram origem à serie, aqui.

Ash vs Evil Dead é um caso raro dentro da indústria audiovisual: uma série que antes mesmo da exibição do episódio piloto já tinha segunda temporada garantida. Tendo em vista que a produção televisiva necessita muito mais do retorno do público (imediato) do que as narrativas cinematográficas, a série já pode ser considerada um sucesso. 30 anos após a primeira investida na luta contra os demônios em uma floresta, Ash (Bruce Campbell) está de volta e precisa acionar a sua experiência para salvar a humanidade das manifestações malignas que planejam acabar com a “humanidade”.

A febre na primeira década dos anos 2000 era a refilmagem. Quase todos os clássicos do terror ganharam roupagem contemporânea. Alguns foram bem sucedidos, como O Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13 e O Chamado. Outros fracassaram em termos narrativos, mas foram sucessos de bilheteria, como por exemplo, os irregulares A Morte do Demônio, O Grito, Halloween – O Início e A Casa de Cera. Tendo em mira este painel de esgotamento, coube aos produtores o início de uma nova jornada para os clássicos: a produção de séries televisivas.

Recentemente tivemos a ótima O Bebê de Rosemary, a mediana Scream e alguns teasers já nos forneceram uma ideia do que será o universo de A Profecia e Wolf Creek. Trocando em miúdos, o campo do “terror” está aquecido, com propostas mercadológicas que prometem deixá-lo numa temperatura ideal para o resgate de novas franquias. A Morte do Demônio ou Evil Dead, para facilitar, foi uma das apostas mais atuais. A franquia conquistou não apenas o cinema e fez sucesso na televisão, mas conseguiu, entre 1981 e 2016, penetrar em outras esferas narrativas, como o mundo dos games e o frutífero universo das HQs.

Com estreia ovacionada pela maioria dos fãs, a série chegou no dia 31 de outubro de 2015, tendo em mira as comemorações envolvendo o Halloween. Ao misturar elementos dos filmes da franquia, obteve bastante êxito: consegue envolver o publico com seus episódios dinâmicos de 30 minutos e conflitos que não comprometem o desenvolvimento do roteiro. Demônios saltitantes, um livro amaldiçoado, mortes bizarras e muitos litros de sangue. Estes são os elementos que adornam os dez episódios da primeira temporada. O foco, entretanto, é num olhar mais apurado para o personagem protagonista, Ash (Bruce Campbell de volta, claro!), um homem anacrônico que atravessou gerações, mas não se desenvolveu. Ele é um pouco asqueroso, antiquado, grosseiro e muito, muito preconceituoso.

Em uma leitura descuidada, o espectador pode considerar a série racista, machista e politicamente (muito) incorreta, mas é preciso observar mais detidamente para compreender essa questão. Todas as piadas envolvendo povos que não sejam estadunidenses e as mulheres são propositais.  Elas fazem parte das camadas de significados de Ash, um personagem que reflete parte da sociedade machista e racista dos Estados Unidos, uma nação que constantemente é alvo de debates midiáticos que perpassam por estes temas, principalmente no que diz respeito aos episódios envolvendo conflitos raciais.

No que tange os aspectos estruturais, Ash vs Evil Dead possui o que há de melhor no visual dos filmes da franquia: planos acelerados, a câmera subjetiva “ocupando” a posição do demônio a serpentear pela floresta, o sangue que jorra por vários lados e camadas, além do elaborado trabalho de maquiagem que conta com os aparatos tecnológicos de uma indústria que se desenvolveu muito depois do filme ponto de partida de 1981.

O roteiro também ganha pontos, pois aposta em muitos trocadilhos e frases de efeito que funcionam bem. O design de produção é outro setor que merece o nosso devido respeito: consegue captar parte da atmosfera sombria de A Morte do Demônio, com a cabana remexida de Uma Noite Alucinante 2, juntamente com a loja de departamento que aparece em Uma Noite Alucinante 3 e alguns elementos visuais da refilmagem de 2013.

Bruce Campbell já provou que consegue dar conta do tema, pois em alguns episódios da franquia atuou praticamente sozinho em longos minutos de encenação. No entanto, na série, não poderia ser diferente. Ele provavelmente daria conta, mas o seu protagonismo e personagem como eixo exclusivo talvez não agradasse aos membros da geração atual, inquietos e mais dinâmicos que os espectadores dos anos 1980. Para ajudar, entram em cena Pablo (Ray Santiago) e Kelly (Dana DeLorenzo), coadjuvantes que não são de “peso”, mas ajudam bastante Ash no desenvolvimento das suas melhores falas.

Sam Raimi e Robert Tapert assinaram a direção do ótimo primeiro episódio. Lucy Lawless surge como uma personagem enigmática e ligada ao passado de Ash, assim como Amanda Fisher (Jill Marie Jones), uma policial durona, decidida a prender o herói por uma ação criminosa anos antes. Ambas desejam o personagem e inclusive se juntam para tentar aprisioná-lo, mas o escorregadio Ash, que em uma leitura brasileira seria caracterizado como “malandro”, consegue dar as suas escapadas, fugindo com maestria dos demônios e dos demais antagonistas, humanos e desumanos.

Não sabemos ao certo se haverá longevidade para Ash vs Evil Dead. Em se tratando de uma série, devemos esperar mais para fazer especulações. Se o clima da primeira temporada for mantido, é bem provável que haja vida longa para os divertidos personagens: muita ação, humor, bem como cenas sangrentas e absurdas. Com esta receita a produção tem tudo para alcançar sucesso duradouro no formato televisivo e continuar alcançando novas gerações.

Ash vs. Evil Dead – 1ª Temporada (EUA, 2015/6)
Principais diretores: Sam Raimi, Rick Jacobson, Michael Hurst, Tony Tilse, David Frazee
Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi, Tom Spezialy
Elenco: Bruce Campbell, Ray Santiago, Lucy Lawless, Jill Marie Jones, Dana DeLorenzo, Mimi Rogers, Phil Peleton, Hemky Madera, Peter Feeney, Samara Weaving
Duração: 30 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.