Crítica | Ash vs Evil Dead – 2ª Temporada

estrelas 4,5

Obs: Leiam as críticas da temporada anterior, aqui e de todos os filmes, aqui

Ao conseguir driblar o cancelamento e garantir uma segunda temporada, os produtores, roteiristas e diretores da nova empreitada precisam suar para “fazer por onde” diante da nova chance. Só assistindo aos bastidores de Ash vs. Evil Dead para termos esta garantia, mas uma coisa é certa: foi preciso muito jogo de cintura, boas ideias e bastante atenção ao timing para manter a qualidade da primeira temporada e garantir o sucesso da segunda. Indo além, superar o material antecessor, tal como aconteceu com os dez divertidos, insanos e sangrentos episódios desta aventura nonsense e fantástica.

O universo da série foi criado por Sam Raimi, em parceria com o seu irmão, Ivan Raimi. O sucesso se chamava The Evil Dead: custou pouco, rendeu muito, criou laços consanguíneos com Bruce Campbell, ator que fez participações em quase todos os filmes de Sam Raimi, bem como ganhou o importante status de objeto de culto entre cinéfilos, algo bem mais poderoso que qualquer estatueta dourada.

Quando estreou em 2015, Ash vs. Evil Dead foi um presente para os fãs. A franquia de 1981 havia mantido o seu espaço de culto dentro da cultura pop, a refilmagem reacendeu os interesses dos produtores e a rizomática distribuição de temas e abordagens no campo da ficção seriada televisiva abriu espaço para o investimento seriado, uma ideia à priori controversa, mas que ao ser colocado em prática, mostrou que tinha força para dar certo, e mais, ir além de apenas uma temporada ou seguir o estilo minissérie, tal como Wolf Creek.

A segunda temporada começa cheia de ritmo. Todos estão felizes, bebendo e se divertindo em festas na eufórica Jacksonville, na Califórnia, quando de repente, Ash e os seus aliados percebem que as forças do mal estão de volta, o que promove um redemoinho de caos, violência e mortes para a cidade. Ao falar em mortes, à propósito, leia-se: mortes sangrentas e bastante gráficas. Um dos problemas de Ash e da sua trupe é Baal (Joel Tobeck), novo inimigo, dono de uma força poderosa, capaz de conseguir destruir a todos, em suma, um personagem bastante desafiador para a turma.

No final da temporada anterior, Ash precisou retornar ao lugar onde tudo começou: a cabana na floresta, local de libertação das forças do mal após a indevida leitura do livro dos mortos e da audição da fita do professor Knowby. Desta vez, o herói precisou retornar para a sua cidade natal, Elk Groove, na região do Michigan, local em que foi obrigado a sair depois de ter esquartejado os seus amigos (possuídos por forças demoníacas, mas apenas nós sabíamos, não é mesmo?). Foi neste local e época que o bom moço ganhou o apelido de Ash Slashy (nomenclatura que nesta temporada ganha uma ótima brincadeira com um fantoche).

É neste retorno do filho não pródigo que ele encontrará o seu pai, uma affair do passado, Linda (Michelle Hurd) e um amigo das antigas, companheiro de bebedeira, Chet Kaminski (Ted Raimi). Muito próximo ao segundo filme da franquia, tendo na receita uma quantidade maior de sangue e de piadas politicamente incorretas, Ash vs. Evil Dead – Segunda Temporada é um deleite para os fãs que conhecem a fundo o ambiente da franquia. Aos desavisados, pede-se uma leitura antecipada, para melhor compreensão dos elementos de estilo nonsense.

Bruce Campbell nunca foi além do seu Ash, mas ele não precisa. O seu personagem, evolutivo como todo bom processo dramatúrgico exige, começou mais frágil no primeiro filme, assumiu uma postura defensiva no segundo, arregaçou as mangas para traçar estratégias numa louca viagem no tempo (para a Idade Média) no terceiro filme e depois de tantos anos afastado, atravessou os 35 anos de existência enquanto personagem bebendo, relacionando-se sexualmente e soltando piadas jocosas e infames por minuto.

Mas como todo bom herói em sua jornada, precisou atender ao chamado e depois de lutar contra demônios e outras criaturas do além na primeira temporada, teve de renovar os seus votos. Leia-se: lutar contra demônios mais poderosos, sujar-se de sangue com maior frequência e enfrentar algo mais forte que as demandas físicas: o retorno de importantes ícones da memória, tal como o seu pai e a sua irmã (ela mesma, a moça estuprada pelos arbustos da floresta em Evil Dead – A Morte do Demônio). Para ele, um sofrimento. Para os fãs, um deleite, rever personagens importantes da franquia em suas singelas, mas impactantes participações.

Diferente do que geralmente esperamos, a segunda temporada consegue ser melhor que a primeira. Doses cavalares de gore, humor ao estilo pastelão, as tais participações especiais maravilhosas e a força de Campbell bem estruturado em seu personagem, tendo como aliados os ótimos Pablo (Ray Santiago) e Kelly (Dana DeLorenzo). Para gravitar nesta brilhante constelação de tipos humanos e desumanos, temos o retorno de Ruby (Lucy Lawless), em ótimo desempenho. Na seara dos personagens coadjuvantes, destaque para a maldição de Pablo e a humanização de Ruby, ótimos investimentos no que tange aos ditames dramatúrgicos.

No bojo da metalinguagem temos uma divertida homenagem ao clássico Christine – O Carro Assassino, de John Carpenter, terror dos anos 1980 baseado na obra homônima de Stephen king, além de uma rápida alusão ao romance autobiográfico Adeus às Armas, de Ernest Hemingway.

Com um total de dez episódios de 30 minutos, Ash vs. Evil Dead – Segunda Temporada foi um sucesso e desde o lançamento do primeiro episódio já havia garantido a sua terceira temporada (jogada de marketing?). Seja marketing, publicidade, enfim, seja lá o que tiver de ser, não importa. Se a série continuar neste ritmo, vamos querer muitas, mas muitas aventuras deste herói que consegue ser bem mais interessante que muitos superpoderosos oriundos do universo das HQs e que não param de reaparecer em sequências asmáticas e agonizantes.

Ash vs. Evil Dead – 2ª Temporada (EUA, 2016)
Showrunners: Sam Raimi, Rick Jacobson, Tom Spezialy, Craig DiGregorio, Robert Tarpet
Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi, Tom Spezialy
Elenco: Bruce Campbell, Ray Santiago, Lucy Lawless, Jill Marie Jones, Dana DeLorenzo, Ellen Sandweiss, Pepi Sonuga, Michelle Hurd
Duração: 30 minutos (10 episódios)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.