Crítica | Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo

estrelas 2,5

_ Mas eu não quero encontrar gente louca – observou Alice.

_ Você não pode evitar isso – replicou o gato. – Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco. Você é louca.

_ Como sabe que eu sou louca? – indagou Alice.

_ Deve ser – disse o gato – ou não teria vindo aqui.

Lewis Carrol — Alice no País das Maravilhas

Às vezes eu me espanto por não gostar tanto de Asilo Arkham como eu supostamente “deveria” gostar. A história tem quase tudo o que eu aprecio nos contos do Morcegão: quadros escuros, temas dark, violência, enigmas, grandes vilões e símbolos. Mas há uma coisa que sempre me incomodou nessa revista: o Batman. O modo como o herói é retratando por Grant Morrison nessa aventura, nunca me agradou. Eu sei que a proposta da revista é uma desconstrução do herói, e que os dois artistas criadores (Morrison e McKean) investiram em um terreno de completa desesperança e nonsense. Também reconheço o valor da revista, mas não sou um admirador, de fato.

A trama de Asilo Arkham se passa no dia 1º de abril. O Dr. Charles Cavendish liberta os prisioneiros do asilo, que liderados pelo Coringa, fazem os funcionários reféns e exigem a presença do Batman no local. Ao ultrapassar os portões do hospício/presídio, o Homem-Morcego não imaginava que viveria uma noite sem precedentes em sua vida. De uma pista lançada já na introdução da revista, percebemos que estamos diante de um Alice no País das Maravilhas. O Coringa é o Coelho Branco da história, e atrai Batman para o Buraco. A partir desse ponto, o símbolo reservado para o Morcegão começa a me incomodar, porque ele se torna a Alice da história. Em todos os sentidos.

Como Alice, Batman viaja pelo país da loucura. Mas não é o Batman que conhecemos. Desde o momento em que o Coringa passa a mão na bunda dele até o momento em que é subjugado por um Dr. Cavendish vestido de rendinhas, Batman se mostra um verdadeiro inútil na história. Ele cai facilmente no jogo do Coringa e na insanidade de Arkham. Há quem diga que ele estava sob o efeito da maldição de Amadeus Arkham, aquela que ele riscou com a própria unha no chão de um dos quartos da mansão. Há quem diga que não só o nosso herói, mas toda a casa foi amaldiçoada, e como é dia 1º de abril, a maldição está mais forte, e blá blá blá. Mas nada disso me convence. O Batman, para mim, é aquele que depois do incidente com Cavendish, pega um machado e sai quebrando tudo. E estando amaldiçoado, que raios de forças fizeram com que ele mudasse de atitude naquele momento? Ou no momento em que enfrentou o Crocodilo? Em que mundo alguém mata um vilão do porte de Crocodilo e depende de ajuda para acabar com a palhaçada de um homem magro vestido de rendas?

Para mim, a melhor história dessa Graphic Novel é sobre Amadeus Arkham. Conhecer como o Asilo começou e o que motivou o seu fundador é uma experiência notável para os fãs desse universo. Lá estão a mãe louca, a esposa, a filha com a cabeça decepada (dentro da casinha de bonecas), seu paciente Martin “Mad Dog” Hawkins, sua viagem à Europa, o encontro com Jung e Aleister Crowley, sua passagem por Metrópolis (a cidade do Superman), a volta para Gotham e seu mergulho no mundo da magia e da loucura. Essa história é a única coisa realmente excelente em Asilo Arkham.

Aqui, a arte de McKean tem um significado perturbador e justificável, com aqueles ótimos cenários ao fundo dos quadros cheios de sombra, colagens, tecido, tinta, fotografia… É verdade que esses cenários  aparecem a revista inteira, mas para mim, eles perdem a força quando Batman aparece, pelo motivo que já expliquei: o herói está representado de maneira completamente deturpada, logo, o cenário perde a função assustadora porque seu principal elemento é tão ativo quanto o portão de entrada do Asilo…

Uma coisa é certa e seria inútil não levantar e assumir: Asilo Arkham é um poço de referências inteligentíssimas. Temas específicos da psicologia e da psicanálise como a Associação Livre e o Teste de Rorschach são aplicados a pacientes do Asilo, e mesmo ao Batman, que acaba desistindo de completá-los. Morrison não subestima a inteligência do leitor, não perde tempo explicando a coluna narrativa da história ou os símbolos pontuais do xadrez, das cartas de tarô, do i ching, da ópera Persifal de Wagner, do escaravelho, do deus Anúbis…

Se o leitor não estiver familiarizado com os significados desses elementos, e como eles estão espalhados no decorrer da revista (exemplo máximo disso é quando o Coringa entra com Batman na primeira sala de Arkham e diz algo assim: “que a festa dos tolos comece!”. Se observarmos com atenção, temos a representação idêntica da carta “O Enforcado” do tarô no lustre da sala logo abaixo). Todos esses elementos juntos formam uma edição notável. Infelizmente, eu não vejo sentido algum na forma como o Homem-Morcego aparece, o que me faz torcer um pouco o nariz para Asilo Arkham. No entanto, nada disso me impede de voltar a ler a revista de tempos em tempos, algumas vezes até para “comemorar” o dia 1º de abril. Quem sabe não seja parte da maldição de Amadeus: uma vez que você descobriu sua história, nunca mais vai conseguir se livrar dela.

Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo (Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth) — EUA, 1989
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Dave McKean
Letras: Gaspar Saladino

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.