Crítica | Assalto ao Banco Central

estrelas 1

Há alguns anos deparei-me com uma situação curiosa. Lá estava eu olhando para o catálogo dos filmes em exibição naquele cinema. Já tinha visto todos os filmes com exceção de um, Cilada.com. “Bom, ele tem um trailer interessante”, pensei. E foi exatamente este pensamento que me levou para a maior cilada cinematográfica até então – desculpe o trocadilho infame. Durante o filme, implorava para que a película se rompesse ou pegasse fogo. Aquele era o pior filme do ano, mas novamente tinha me precipitado ao afirmar isto. Eis que surgia o promissor Assalto ao Banco Central. Com um marketing tipicamente hollywoodiano, despertou a curiosidade de muitos incluindo a minha. E parece que a minha curiosidade está me levando a uma roubada atrás da outra.

Barão está arquitetando o maior assalto a banco da história do Brasil. Pretende roubar a quantia de R$ 164,7 milhões sem disparar um único tiro. Todos os brasileiros sabem que o homem conseguiu realizar esse feito histórico e deixou a polícia perplexa com a astúcia do roubo. A maioria dos assaltantes acabou atrás das grades, ou a sete palmos do chão, porém, dois criminosos continuam livres e desimpedidos. Agora o cinema retrata essa perigosa história em que os delegados Chico Amorim e Telma Monteiro tentam capturar Barão, Carla, Mineiro e sua trupe.

Renê Belmonte romantizou toda a história do roubo em seu roteiro ficcional. Se alguém estiver planejando consultar o filme como fonte de informações, pode esquecer. Belmonte criou personagens, situações e envolvimentos completamente fictícios – é tudo romantizado. Para se ter uma noção com a falta de comprometimento com a realidade do caso e respeito aos espectadores curiosos, a produção não contatou, em momento algum, os delegados encarregados do caso. E, com isso, o passo crucial que inúmeras produções megalomaníacas ignoram, se repetiu, ou seja, a boa e velha pesquisa. Ao menos Belmonte, em seus devaneios líricos, não se esqueceu de colocar a base do roubo – o túnel, o banco, o assalto e a empresa de grama sintética.

O roteirista opta em seguir uma montagem diferente em sua narrativa. Intercalando os tempos “presente” e “futuro” em sua própria linha temporal, encontra o maior “tiro no pé” da história do cinema brasileiro. A impressão que Belmonte passa é a que tentou copiar o roteiro inteligente de O Plano Perfeito. Entretanto, Belmonte não é Russell Gewirtz assim como eu não sou Roger Ebert. Graças a essa escolha duvidosa – e completamente desprovida de propósito –, o roteirista consegue estragar todo o suspense e os elementos-surpresa da trama tornando o filme previsível. Isso é provado quando ele anuncia previamente os personagens que morrem ou que acabam no xilindró.

Depois de Tropa de Elite, os roteiristas brasileiros encontraram sua nova fonte de criatividade inútil: criar bordões e frases de efeito. Isso não é diferente aqui. Então, prepare-se para ouvir várias falas lotadas de palavrões imponentes. O interessante disto é que a linguagem robusta não é diferenciada para os policiais e ladrões. Assim, todos os personagens recebem um caimento pseudomalandro proporcionado pelas diversas gírias.

Ele também insere características inúteis para a narrativa a alguns personagens como a homossexualidade de Telma que acaba virando piada no meio dos conflitos temporais do filme. Outro problema evidente do roteiro é incessante apresentação de personagens novos ao longo da trama. Fora isso, alguns destes somem repentinamente deixando o espectador com algumas perguntas a respeito do destino que levaram.

Os clichês do tema acompanham a produção. Com esta gama tão vasta de personagens, o roteirista não encontra oportunidade de aprofundar a essência de cada um, tornando o filme uma experiência superficial. Apenas o “glamourizado” e inteligente Barão e Chico, o detetive burro/gênio, recebem um tratamento mais profundo, porém, insatisfatório. O clássico conflito ganancioso de divergências causadas pelo controle do dinheiro entre os ladrões também aparece, além do típico romance proibido entre a esposa do protagonista com o amigo sarado. Os policiais corruptos e mal encarados também marcam presença.

Entretanto, Belmonte, como todo bom brasileiro, tem seus lapsos de criatividade. O roteirista não perde a oportunidade de criticar o governo e suas corporações, mas seus levantamentos não fogem do senso-comum. Embora a grande maioria das piadas pareça deslocada, algumas são muito originais. Consegue tirar graça de manias tipicamente brasileiras como o péssimo hábito de interromper a fala de uma pessoa para dar sua própria opinião, vide os peritos Jô Soares, Faustão e Galvão Bueno. A ironia também é presente assim como a hipocrisia e o falso moralismo. Tudo isto é conferido a Doutor, um personagem com tendências “comunistas”. Belmonte também faz críticas com a personalidade de outros personagens. É fácil identificar a corrupção, a manipulação e o adultério no caráter de vários personagens. A inocência e a ignorância levam outra vítima do dízimo religioso em mais uma crítica do roteirista. Um exercício muito “legal” que o espectador pode fazer durante a sessão é identificar os sete pecados em diversas situações da narrativa.

Porém, o roteiro de Belmonte sofre recaídas e resgata aspectos persistentes do cinema nacional. Cenas de sexo e consumo de drogas eram características que eu considerava já superadas para o nosso cinema, mas parece que ainda temos um caminho muito longo a trilhar – não adicionam em nada. Ele, no entanto, sabe como mexer com o intelecto do espectador, mas estas ocasiões são raras. Isto acontece ao inserir a importância do futebol para o brasileiro e a curiosa charada de Mineiro. O maior mérito do roteiro é que ele consegue manter o espectador interessado na história até seu desfecho. Fora isso, a execução do arco narrativo sobre a construção do túnel é a melhor parte do filme.

O remake de Onze Homens e um Segredo reuniu os maiores galãs da época em um só projeto. As atuações eram muito boas e os personagens possuíam muito carisma convencendo o espectador a torcer para que eles conseguissem realizar o roubo. Entretanto, os atores de Assalto ao Banco Central não são galãs e o carisma é um adjetivo desconhecido para esses artistas. O maior problema da atuação de todos eles, sem exceção, surge quando seus personagens começam a dialogar. A dicção deles é tão forçada e artificial que provoca constrangimento ao espectador. Outras vezes, é demasiadamente teatral ficando deslocada da linguagem cinematográfica atual.

Milhem Cortaz estava ótimo em Tropa de Elite, mas aqui o ator é instável. Suas expressões pouco variam – mantém a careta caricata de vilão durante a maioria do filme, mesmo após ficar milionário. Ele consegue destacar a personalidade “linha dura” do personagem, mas sua atuação inteira se resume nisso. Graças a isso, o Barão torna-se um antagonista chato completamente desprovido de carisma. O problema da atuação de Milhem também se repete com Heitor Martinez que interpreta o apático ex-policial Léo. Eriberto Leão e Hermila Guedes são brinquedos sexuais. Hermila encarna o espírito femme fatale e esbanja a sensualidade, mas o carisma proporcionado não acompanha a grandeza de suas curvas. Eriberto é o único galã do elenco, mas não convence como a maioria dos atores.

Lima Duarte e Giulia Gam (passa metade do seu tempo em cena gritando com o celular) apresentam um nível um pouco acima da mediocridade do péssimo elenco. Lima Duarte não está deplorável, mas o roteiro não ajuda muito quando obriga o personagem a emanar escatologias de sua boca. Sim, um ator de classe como Lima Duarte perde seu tempo em xingar Deus e o mundo ao invés de construir um drama interessante para Amorim. O destaque fica por conta das boas cenas dos interrogatórios. O horror aparece assim que os dois policiais interpretados por Jorge Medina e Marcello Gonçalves entram em cena. Medina com suas gírias “malandras” é de longe o pior ator do filme. Sugiro que feche os olhos quando este cara entrar em cena, pois pode provocar lesões temporárias a seu intelecto.

As atuações “boas” residem em poucos atores. Tonico Pereira e Fabio Lago divertem com a caricatura cômica de seus personagens e realizam um feito que 90% do elenco não consegue fazer – proferir os diálogos com naturalidade. Vinícius de Oliveira interpreta o afeminado Evanildo. Ele é um dos poucos atores que usa a expressão corporal a favor da construção do personagem. O mais interessante da atuação destes três é a reprodução de gestos comuns ao cotidiano brasileiro. O melhor ator é o sempre ótimo Cássio Gabus Mendes. É uma pena que ele não fique muito tempo em cena. Milton Gonçalves e Gero Camilo completam o elenco.

José Roberto Eliezer assina a boa fotografia do filme. O cinegrafista não exerce ou explora sua criatividade. Existem alguns enfoques e desfoques na sua técnica, já os reflexos são ignorados. A iluminação não é incomum e parece importada de qualquer filme B de Hollywood. Entretanto, não há como negar que sua modelagem de luz é competente e natural.

Três cores predominam na fotografia de Eliezer, mas a utilização delas parece não ter muito significado. Isso é evidenciado ao utilizar à fria e suave iluminação branca para retratar os bandidos e os policiais. O branco é geralmente assemelhado a higiene, a pureza, a paz, etc. e é perfeita para as cenas que acompanham os policiais, mas não condiz com a figura dos bandidos. Com isso o cenário dos antagonistas fica muito claro e pálido. Teria sido interessante se o cinegrafista tivesse ajeitado uma iluminação mais sombria auxiliada por tons cinzentos para reforçar o contraste das facções existentes no longa.

As cores amareladas são as únicas que são condizentes. Obviamente, as cenas que seguem a construção do túnel têm os tons bem saturados. Aliado de closes bem fechados, Eliezer consegue transmitir o calor, o desconforto e a sensação claustrofóbica que o pequeno túnel oferece. O azul aparece nas cenas de sexo geralmente acompanhado de uma contraluz muito suave que torna possível a construção de silhuetas. São nestas cenas que a modelagem de luz e sombras fica mais complexa deixando claro que o fotógrafo consegue realizar um trabalho bem feito. Outro destaque de seu trabalho é a iluminação teatral dos interrogatórios e os belos planos detalhe das britadeiras.

Mas novamente técnicas baratas e preguiçosas aparecem na fotografia. Para evitar muito trabalho ao delinear a luz em cenas exteriores diurnas, o cinegrafista apenas fecha o diafragma das câmeras a fim de controlar a incidência da luz natural do sol. Enfim, o toque artístico do filme é pífio. A respeito da direção de arte, somente a recriação do túnel impressiona. Outros cenários são extremamente vagabundos como o da empresa de vigilância do Banco Central.

Até mesmo a composição de alguns cenários é preguiçosa. Qual o motivo de Amorim ter um retrato dele próprio em sua mesa? Com certeza, é muito narcisismo de terceira idade pra eu digerir.

A música deste filme é um aspecto deplorável. André Moraes é o compositor escolhido para assinar a cafona trilha sonora. As músicas assumem o caráter tipicamente de novelas televisivas, ou seja, cada personagem tem seu tema brega. Mas as piores músicas seguem o arco narrativo dos delegados. Elas são tão ruins que chegam a causar constrangimento graças a sua similaridade com temas policiais dos anos 70 ou 80.

Moraes não estabelece um padrão em suas músicas. A maioria dos compositores consegue adaptar a música a cena sem perder sua unidade, mas Moraes não sabe fazer isto. Uma música não tem absolutamente nada a ver com a outra. São temas completamente distintos, preguiçosos, mal conduzidos, inspirados e tocados. É uma tortura assistir ao filme com a música desse cara tocando no fundo. Não posso esquecer que algumas composições assumem o tom “pornô delícia”, além da clássica “melodia engraçadinha”. É um absurdo que tenham aprovado a trilha. É um crime hediondo forçar seus ouvidos a escutar músicas tão ruins como as que compõem a trilha desse filme. Como diria Boris Casoy – “Isto é uma… Vergonha!”.

David Yates entendeu que a linguagem cinematográfica é totalmente diferente da televisiva. Encarando a complexidade do meio, Yates conseguiu se adaptar para dirigir os quatro últimos filmes da saga “Harry Potter”. Mas estou indo longe demais.

Comparar Yates com Marcos Paulo é incabível. Paulo é diretor de novelas televisivas da TV Globo sendo seus trabalhos mais famosos a clássica “Roque Santeiro” e a divertida “O Beijo do Vampiro”. Entretanto, a Globo Filmes está mexendo com fogo ao chamar ótimos diretores de novelas para brincar de fazer cinema.

Marcos Paulo é mestre em dirigir tevê, mas devia ter ficado por lá. Assim que o filme começa, o espectador já percebe o regime ditatorial da produtora Globo. A apresentação vagabunda da empresa acaba e começa os malditos anúncios de patrocinadores em telas pretas. Por que eles não colocam os nomes da empresas que financiaram os filmes nos sutis e elegantes créditos iniciais como qualquer outra produção estrangeira? Por que obrigar o espectador à esperar dois minutos para começar a assistir ao filme? Por que colocam publicidades de margarinas, shampoos anticaspa, companhias telefônicas, bancos e mais uma infinidade de produtos para atrasar os trailers? Porque aqui é o Brasil. Porque aqui o consumidor não tem vez. Porque aqui só o dinheiro deles tem vez. Porque aqui seu ingresso não é suficiente, eles precisam sugar sua paciência também.

Abusos intelectuais a parte, vamos voltar à estreia de Marcos Paulo nos cinemas. É surpreendente que o trabalho do elenco tenha sido tão ruim já que ele era diretor de TV – a atuação é o aspecto artístico mais importante das novelas. Parece que o então cineasta não prestou atenção no projeto que estava filmando. Como pôde permitir que erros tão notáveis e escolhas burras saíssem no produto final? Exemplos disto são fáceis de perceber: Barão joga xadrez sozinho duas vezes, Carla usa salto alto dentro do túnel e um personagem usa óculos escuros em uma sala escura. São situações completamente surreais. Aliás, as cenas de ação são surreais, sem qualquer apelo as leis físicas do cinema – e olha que as leis físicas do cinema nada se assemelham com as do mundo real. O melhor exemplo disto é absurda cena da perseguição de um caminhão-cegonha. Repare que durante a péssima escolha dos planos que compõem a cena, o caminhão e os carros da polícia mudam assustadoramente de velocidade em questão de segundos. Uma hora o caminhão está a mil milhas por segundo, na outra é mais lento que uma lesma.

Existe outra falha absurda na cena da perseguição. Em um determinado momento um policial grita alto demais para o boom capturar sua fala tornando-a incompreensível. O cineasta também tenta criar atmosferas de tensão que são absolutamente fracas e previsíveis em seu desfecho. Ele pouco trabalha movimentos de câmera e não consegue segurar o ritmo do filme. As cenas de sexo não possuem erotismo, paixão e sensualidade. Nelas o sexo selvagem, desprovido de emoção, reina absoluto. O diretor não tem a simplicidade de encaixar segmentos reais de noticiários a fim de deixar o projeto mais verossímil, interessante e original. Além disso, esquece completamente de colocar um texto no término do filme para informar o espectador a respeito do desfecho real do caso.  A execução de diversas cenas também é medíocre. Por exemplo, a construção chula do segmento em que um personagem é torturado. O diretor também não decide pra qual lado o espectador deve torcer. Entretanto, o cineasta transparece sua paixão excessiva pelo assalto.

É difícil acreditar que “Assalto ao Banco Central” seja um filme. Ele é péssimo, mal atuado, dirigido, escrito e orquestrado. Enfim, não indico essa obra para ninguém. Cilada.com encontrou um parceiro no pódio de pior filme do ano de 2011. A qualidade precária dos dois é um insulto ao cinema nacional que parecia trilhar um bom caminho até então. Ele consegue manter seu interesse até o fim, mas a decepção é grande quando você descobre que a única coisa que prestou durante o filme inteiro foi à recriação do túnel. Ironicamente, o melhor lugar para este filme encontra-se debaixo da terra. Lugar que somente os interessados podem se esforçar em encontrar, refletir e desistir se achar algo melhor pra fazer.

Assalto ao Banco Central (Brasil, 2011)
Direção:
Marcos Paulo
Roteiro: Renê Belmonte
Elenco: Milhem Cortaz, Eriberto Leão, Hermila Guedes, Giulia Gam, Tonico Pereira, Cássio Gabus Mendes, Fabio Lago, Jorge Medina
Duração: 101 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.