Crítica | Assassinato no Campo de Golfe (Agatha Christie’s Poirot 6X03)

plano critico asssassinato no campo de golfe agatha christie poirot serie

estrelas 2

Escrito em 1923, ainda no início da longa carreira literária de Agatha Christie, Assassinato no Campo de Golfe carrega os tropeços básicos que um escritor em início de carreira pode ter, especialmente se o seu gênero for tão exigente e se proponha a surpreender os leitores o tempo inteiro, como é o caso da literatura policial. Nesta adaptação do romance para a série Agatha Christie’s Poirot, uma boa parte das confusões e conveniências do livro são contornadas pelo roteiro de Anthony Horowitz, mas em compensação, as alterações na essência dos personagens e retirada completa de passagens que dão o tom do original não só tornam este terceiro episódio da 6ª Temporada carente de fôlego dramático — algo que o livro tem de sobra — como também cheio de estranhezas do ponto de visto de desenvolvimento dramatúrgico.

O ponto de partida é funcional. O roteiro pula a recepção da carta recebida por Poirot e Hastings ainda em Londres e já coloca os dois homens no trem, chegando à estação, porém, sem uma missão para cumprir. Convenhamos que ignorar o conhecimento da ameaça a Paul Renauld não tem impacto nenhum no episódio, foi até interessante o tipo de ligação que o autor fez com a disposição dos eventos no livro. O problema está, já nos primeiros minutos, na apresentação do mistério e no toque de proximidade entre Hastings e Cinderela, que começa com um alumbramento e crítica de modos do homem em relação à jovem e aos poucos evolui para um amor e então, para um casamento. No livro, mesmo que o desespero amoroso seja forçado, ele tem uma motivação inicial, carregando uma ideia de ciclo que simplesmente desaparece aqui.

Já o contato de Poirot e seu amigo com o caso Renauld é estranho, mas não causa grande impacto negativo. Não temos dificuldade alguma em imaginar Poirot chegando à França para um período de descanso, preocupado com a culinária local e fazendo piadas com a febre de esportes do lugar, evidenciando aí o golfe e o ciclismo, lado do roteiro que ajuda a história ter uma melhor organização de seu fator locacional, mostrando a cidade, seus costumes e como os personagens transitam de suas vilas milionárias para as atividades em torno, o que é brevemente exposto no livro e que aqui ganha uma versão própria bastante satisfatória.

Como sempre, a interpretação de David Suchet como Hercule Poirot é excelente e tem um contraste hilário nesta ocasião, marcado pela presença de outro detetive em cena, o orgulhoso francês Giraud, interpretado por Bill Moody, que é dublado aqui. Esta parte é a melhor coisa adaptada do livro para o episódio, o verdadeiro caso de uma adaptação bem feita, inclusive nas coisas alteradas ou acrescentadas em relação ao original. Quem dera o mesmo tom e relações literárias fosse mantido em todo o capítulo!

Para Giraud, a figurinista Andrea Galer fez questão de escancarar as referências a Sherlock Holmes, uma versão francesa que é enraçada quando levamos em consideração a importância do personagem e a icônica aposta que ele faz com Poirot, um aceitando perder o cachimbo e outro aceitando raspar o bigode. A atitude do detetive belga, ao final, é ótima, sacana em sua intenção, mas não tão marcada pela “vingança boa e justa” que o Poirot do livro tem diante de seu antagonista.

Há distração em demasia por parte da direção aqui. A prova de ciclismo, o desnecessário jogo de golfe e a divisão da explicação em núcleos clichês (coisa que o livro não tem, pois a resolução ali é dada em momentos diferentes, dentro de situações orgânicas e necessárias para cada momento da investigação) são exemplos de que esta adaptação poderia fazer algo muito melhor, aproveitando o tempo perdido para contextualizar melhor a relação entre Hastings e Poirot — uma das principais linhas do livro — e focar melhor nas intrigas entre as famílias para nos fazer ver as muitas fases da investigação como crimes diferentes, não como leves alterações da “versão A” que aqui temos.

A direção de Andrew Grieve consegue colocar elementos de mistério em cena, algumas vezes disfarçando as incongruências do roteiro. Sua falha, porém, está na levada automática em relação aos personagens secundários. Hugh Fraser, por exemplo, que aqui deveria ter, a despeito de todas as dúvidas, uma postura mais energética e mais inteligente, fazendo, inclusive, a recriação de diversos elementos do caso sob orientação de Poirot, limita-se a seguir o detetive e olhar com cara de peixe morto para as pessoas, apaixonando-se por uma mulher jovem que o faz agir como se fosse um adolescente. Não combina com o personagem nem mesmo nesta recriação que a série pretende fazer dele, e isso acaba servindo para quase todos os coadjuvantes, uns perdendo um ótimo ar de maldade e outros ganhando uma aura de santidade que não deveriam. No todo, trata-se de um episódio que garante momentos de diversão e bom mistério. Mas a obra falha ao mudar coisas essenciais de sua fonte original e não dar um substituto à altura (ou não compensar à altura) tais modificações.

Agatha Christie’s Poirot 6X03: Murder on the Links (Reino Unido, 11 de fevereiro de 1996)
Direção: Andrew Grieve
Roteiro: Anthony Horowitz (baseado no romance de Agatha Christie)
Elenco: David Suchet, Hugh Fraser, Diane Fletcher, Damien Thomas, Ben Pullen, Kate Fahy, Sophie Linfield, Jacinta Mulcahy, Terence Beesley, Bill Moody, Bernard Latham, Andrew Melville, Henrietta Voigts, James Vaughan, Richard Bebb
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.