Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente (2015)

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SPOILERS!

Série japonesa de dois episódios, com 2h20 cada um, esta versão para Assassinato no Expresso do Oriente de Agatha Christie, lançada em 2015, é o resultado de um esforço imenso do roteirista Kôki Mitani para dar uma explicação completa para o que aconteceu antes e depois do famoso assassinato. Na divisão dos capítulos temos as ações em fevereiro de 1933, quando a viagem de um trem lotado coloca em cena o detetive Takeru Suguro (versão nipônica de Hercule Poirot) tentando desvendar um crime aparentemente sem solução; e a longa preparação de pessoas afetadas por um crime infame, esperando o momento certo para fazerem justiça com as próprias mãos.

Para um espectador Ocidental, as duas primeiras coisas que impactam nesta obra é parte do elenco sob a escola dramatúrgica japonesa (com uma atuação exagerada, herdada do teatro Kabuki) e a transposição dos eventos do livro para um cenário essencialmente japonês. Além de todo o elenco, o espaço geográfico, o nome das cidades, a questão dos sotaques (e não línguas, como no original), os preconceitos e expressões regionais… tudo está ligado ao Japão nesta obra, o que é algo muito interessante de se ver, mas que não funciona perfeitamente em todas as suas frentes. Neste segundo ponto, os problemas são poucos porque o roteiro consegue fazer uma transposição coerente e orgânica em quase todos os momentos. Já no primeiro ponto há um grande obstáculo que é a transformação de Poirot/Suguro em uma espécie de bufão, comportamento que não combina nada com o detetive.

Certas liberdades criativas podem ser a melhor coisa que uma adaptação pode ter. Aqui já citei, por exemplo, a troca de todos os indícios Ocidentais por elementos tipicamente japoneses e o resultado quase inteiramente positivo. Mas em relação ao detetive fica difícil aceitar todos os traços de mudanças realizados pelo texto e, principalmente, pela atuação de Mansai Nomura. Para começar, existe uma disparidade entre a idade aparente do personagens e suas atitudes caricatas e quase infantis.

Claro que ele não age assim o tempo todo, mas são muitos momentos em que uma frase é dita de maneira exagerada (quase aos gritos de uma voz gutural com finalização aguda, algo bem teatral mesmo) e que a câmera do diretor Keita Kôno dá um zoom ou realiza um primeiro plano no rosto do personagem, que não perde a oportunidade de mostrar expressões carregadas, o tipo de “caras e bocas” que indica comicidade e que destoa do tipo de personagem que ele é. Pode-se até argumentar que “o detetive Takeru Suguro não é Hercule Poirot” e tirando a bobagem negacionista da afirmação, podemos tranquilamente trabalhar com isso. A questão é que, mesmo sendo um “outro detetive”, não dá para imaginar o maior investigador do Japão, como é dito várias vezes na história, ter esse tipo de compleição. Nem o Adrian Monk de Tony Shalhoub chegou a tal ponto.

Na primeira parte da série essa caraterística só fica evidente e incômoda no decorrer do primeiro interrogatório, onde conhecemos um pouco mais do detetive e também dos passageiros. É de fato impressionante o que o roteiro faz em termos de transposição de eventos do livro nesta versão. Guardados os detalhes culturais e algumas poucas falas, todo o restante é muitíssimo fiel ao original, tanto na sequência dos fatos quanto na preservação da personalidade dos passageiros, com destaque aqui para Sumiko Fuji (que interpreta o equivalente à Sra. Hubbard); Nanako Mutushima (que interpreta o equivalente a Mary Debenham); Ikki Sawamura (que interpreta o equivalente ao Coronel Arbuthnot); Kazunari Ninomiya (que interpreta o equivalente a McQueen) e por fim, Sosuke IkematsuAnne Watanabe, respectivamente o falso detetive e a Condessa. Cada um tem ótimos momentos em tela, especialmente no segundo episódio, a melhor parte da série.

Enquanto o capítulo um trouxe uma boa versão para os eventos principais do livro, terminando logo depois de Poirot resolver o caso, o capítulo dois é o mais ousado, o mais bem dirigido, escrito e atuado episódio da série. Ajuda aqui fato de o roteiro trabalhar com coisas inéditas (embora baseadas em todas as pistas para o que aconteceu antes de os personagens embarcarem no trem), preenchendo espaços e dando explicações para coisas do passado (cinco anos antes, quando a morte da garotinha aconteceu) e para o que deve ter acontecido no segredo das cabines e dos corredores durante a viagem. A angústia dos personagens, o medo de ter um detetive a bordo, a inclinação para o crime de alguns deles (licença criativa que caiu muito bem à história), a ligação de eventos dos quais só vimos uma parte no primeiro episódio… tudo isso contribui para o segundo capítulo ter a maior reunião de bons momentos na série, embora o final caia de qualidade porque voltam as explicações mais didáticas, relacionadas com a explicação dada por Poirot. A última licença criativa vinda do próprio detetive também não é uma boa ideia, mas de uma forma ou de outra se relaciona com o caso e com a explicação final, dando algum aval para o disparate.

Cheia de boas ideias mas relativamente estragada pela forma como mostra o detetive e por algumas pequenas escolhas no final do episódio dois, esta série japonesa surpreende pela qualidade técnica e pela forma inteligente como traz para as telinhas os eventos principais do livro de Agatha Christie. A direção de fotografia tem o seu ponto alto nas cenas de preparação para o assassinato e a direção consegue pontos positivos ao inserir animações do vagão onde estavam os passageiros e por uma maneira dinâmica de mostrar as lembranças que cada interrogado. Uma das mais ambiciosas e interessantes variações deste assassinato no Expresso do Oriente.

Assassinato no Expresso do Oriente (Oriento kyuukou satsujin jiken) — Japão, 2015
Direção: Keita Kôno
Roteiro: Kôki Mitani (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: Mansai Nomura, Sayaka Aoki, Junko Fuji, Takahiro Fujimoto, Sôsuke Ikematsu, Kanji Ishimaru, Michiko Kichise, Takashi Kobayashi, Haru Kuroki, Mitsuko Kusabue, Nanako Matsushima, Kazunari Ninomiya, Toshiyuki Nishida, Takashi Sasano, Kôichi Satô, Ikki Sawamura, Katsumi Takahashi, Hiroshi Tamaki, Anne Watanabe, Akiko Yagi
Duração: 280 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.