Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente (2017)

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Escrito em 1934, Assassinato no Expresso do Oriente é, juntamente com E Não Sobrou Nenhum (1939), o romance mais conhecido de Agatha Christie, a Rainha do Crime. O livro teve como base um caso real, ocorrido nos Estados Unidos, do rapto de Charles Augustus Lindbergh, Jr., filho de 1 ano e 8 meses do aviador Charles Lindbergh e Anne Morrow Lindbergh, raptado do berço, em sua casa, em 1º de março de 1932. Na obra, o acontecimento dá início a uma série de outras tragédias familiares, o que torna do caso moralmente denso para Hercule Poirot e para o leitor, característica mantida como essência de todas as adaptações do livro até aqui.

Kenneth Branagh, conhecido por suas adaptações de Shakespeare, assumiu o risco de trazer este filme mais uma vez para as telonas, abrindo, inclusive, uma porta para uma continuação, com Morte no Nilo. Aqui, o diretor procurou trabalhar com as principais características do livro, desviando-se dos muitos cacoetes cometidos por adaptações anteriores e, principalmente, tentando fazer uma leitura de época mais pop, com a cara do século XXI, abrindo questões étnicas e nacionalistas e inserindo um tom de humor que é raro no livro. O roteiro de Michael Green (LoganBlade Runner 2049) aposta em um suspense mais diluído, consideravelmente menos opressivo, o que certamente desagradou a muitos espectadores.

O primeiro grande erro do roteirista foi criar uma abertura-espetáculo para Poirot, tendo uma piada com estrume que é embaraçosa para todos. No campo técnico, porém, a sequência é elogiável. A direção fui muitíssimo bem e a fotografia usa da luz do sol e cores quentes da cidade para fazer da primeira resolução de caso do filme um evento chamativo. A intenção é compreensível do lado do marketing, mas questionável do ponto de vista dramático, porque toma tempo e não traz nada de muito interessante. Pode-se até argumentar que o bloco serve como apresentação de Poirot para o público, mas a sequência do café da manhã e os primeiros encontros do detetive serviram bem a este propósito, não era necessário a resolução de um crime para torná-lo impressionante ou para fazer com que o público — mesmo aqueles que não conhecem o Universo de Agatha Christie — o olhasse com admiração. As atitudes e as observações das pessoas sobre o detetive já cumpriam, de maneira bem mais competente, este papel.

Ao lado deste primeiro grande erro, temos mais um outro, o segundo e último do filme (no campo dos grandes erros, pelo menos), que são os flashbacks em preto e branco. E falo isso não apenas em termos narrativos, mas plasticamente também. São cenas fracas, com a direção de Branagh menos cuidadosa, destacando ângulos ruins e com uma composição de cenas que pretende fazer uma mímica do passado, como se esses desleixos estéticos tivessem melhor capacidade de evocar um acontecimento de anos antes. Todavia, à parte esses dois grandes impasses, esta versão de 2017 de Assassinato no Expresso do Oriente não se vale apenas de uma direção muito boa, de um desenho de produção e figurinos elogiáveis e de uma formidável fotografia (assinada por Haris Zambarloukos, que trabalhou com Branagh pela primeira vez em Um Jogo de Vida ou Morte). Ela também nos traz uma forma diferente de olhar para uma investigação onde mentiras são fabricadas o tempo inteiro para enganar o detetive do caso. E apesar dos pesares, termina com saldo positivo.

Um dos maiores acertos da obra está na interpretação e construção de Kenneth Branagh para o famoso detetive belga. Dependerá do grau de purismo de cada espectador descartar a atuação do artista porque “seu bigode é exagerado” (e é mesmo!) ou porque ele não fala linha por linha do que o personagem diz no livro, o que é uma bobagem por si só. O ator e diretor cria uma base de valores mais íntimos para o detetive, como uma forma de tornar o dilema final mais fácil de se encerrar. A outra opção seria a do livro, mas quem leu sabe que a deixa literária não funcionaria na tela, porque implicaria em uma elipse. E não dá para terminar um filme desse porte e com uma decisão desse tipo, em elipse. A presença desse amor na vida de Poirot pode até ser um empecilho pontual, mas não atrapalha o filme, como aconteceu com a abordagem religiosa na horrenda versão de 2010. O texto não gira em torno disso. O personagem mantém as suas idiossincrasias, mantém sua fúria, seu modo típico de aproximação, suas pequenas piadas (há exageros, claro, mas nada que se possa dizer “isso não é Poirot“) e sua resignação final que captura a essência do livro, apesar de ter um caminho diferente.

Um dos choques que tive entre a mudança na caraterística de um personagem foi com Bouc, aqui vivido por um jovem bon vivant interpretado por Tom Bateman. É de se lamentar que o personagem seja pouco explorado, tendo bem menos participação na resolução do caso do que deveria, mas isso podemos ligar ao fator da idade e da mudança de personalidade, padrão que também temos diante do personagem de Leslie Odom Jr., o Doutor Arbuthnot. Embora a produção acerte em cheio ao tirar a parte maçante do livro (a segunda rodada de entrevistas), tendo na direção uma inteligente forma de encontro, interrogação e modelos de confronto com os personagens, tudo embalado por uma boa trilha sonora e boas atuações do elenco (mesmo com os coadjuvantes muito ausentes), nos deparamos com cenas desnecessárias. A fuga de MacQueen com “papéis que provavam que ele estava roubando de Ratchett“; o ataque de Arbuthnot a Poirot ou a cena com a arma, na qual o detetive tenta provar um último ponto, antes de dar uma chance que nem ele imaginou que seria possível, são os momentos do roteiro que questionamos o por quê de existirem no filme.

Entre mudanças de etnias ou idade de personagens, temáticas internas e reestruturação dos passageiros do trem (o único realmente maltratado é o Conde Andrenyi, que por algum motivo virou um selvagem violento), a versão de Branagh para Assassinato no Expresso do Oriente consegue manter, a despeito de seus muitos erros, um padrão interessante como adaptação de um livro difícil, muito mais teatral do que cinematográfico. Não está entre as melhores adaptações da obra de Agatha Christie, mas é um bom filme; divertido e capaz de nos fornecer uma outra visão para um dos assassinatos mais infames da literatura policial.

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express) — EUA/ Malta, 2017
Direção:
 Kenneth Branagh
Roteiro: Michael Green (baseado no livro de Agatha Christie)
Elenco: Kenneth Branagh, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Leslie Odom Jr., Johnny Depp, Josh Gad, Derek Jacobi, Michelle Pfeiffer,  Judi Dench, Olivia Colman, Willem Dafoe
Duração: 114 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.