Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente (Agatha Christie’s Poirot 12X03)

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estrelas 1

Não.

Isto não é Agatha Christie. Este não é Poirot, muito menos o Poirot nesta fase da vida, considerando a cronologia dos livros de Agatha Christie em que ele aparece. E principalmente, isto não é, definitivamente e sob nenhum aspecto, Assassinato no Expresso do Oriente. Na verdade, esta adaptação do famoso livro de Christie escrito em 1934 não consegue ser nem um bom drama investigativo ou um bom mistério.

Parte da 12ª (e penúltima) Temporada da série Agatha Christie’s Poirot (1989 – 2013), este telefilme foi dirigido por Philip Martin e teve seu roteiro adaptado por Stewart Harcourt, que optou por simplesmente descaracterizar todos os personagens, adicionar uma veia moral imensamente questionável que permeia a obra da maneira mais estapafúrdia que se possa imaginar e, pior de tudo, dar a Hercule Poirot algo que ele não tem em nenhum livro de Agatha Christie, que é uma visão engessada do funcionamento da sociedade e uma moral ofendida por não fazer uso dos meios legais para se conseguir alguma coisa, uma indicação legalista e conformista com os ditames socais que qualquer pessoa entende que não é o feitio do detetive belga.

A salvação da obra está única e exclusivamente na dramaturgia e vai aqui a afirmação direta para quem tem qualquer dúvida: a estrela dada por mim como nota geral é referente às atuações. Na minha leitura, nada mais além delas, se salva nesta obra. Nada. Dito isto, é bom destacar que o elenco serve aqui como um brilho de sanidade e salvamento dramatúrgico para o público. Esqueçamos, por um momento, os personagens que interpretam. Se focarmos na qualidade com as performances são entregues temos um resultado que agrada e garante a permanência do espectador, independente de estarem todos fora de órbita em um roteiro que deveria dar nuances, esconder pistas, mostrar diversas caricaturas e delicadezas, mas tudo isso é cortado sem piedade no texto.

O Hercule Poirot do drama é um exemplo. Como negar a excelência de David Suchet no papel? Ele simplesmente encanta em cada cena, em cada trejeito e, especialmente, em cada olhar. Todavia, seu Poirot neste telefilme — ao menos o lado irascível e impaciente que apresenta — só faria sentido em uma adaptação de Cai o Pano, que é justamente o último caso do detetive, uma obra escrita por Christie nos anos 1940 e que foi apenas parcialmente modificada (não reescrita, porque sua saúde não permitia mais; o que houve foi que ela ajustou alguns pontos do texto, especialmente no quesito “comportamento” do protagonista), quando de sua publicação, em setembro de 1975, quatro meses antes da morte da autora.

Mas aqui não é Cai o Pano. Mesmo assim, o Poirot que temos em cena é um carola religioso que anda com um terço na mão e crê de maneira cega na justiça — quando esta falhou miseravelmente com diversas famílias –, dedicando-se fazer discursos moralistas que nem para o ano em que a trama do filme se passa (1938) faziam mais sentido vindo de um indivíduo de sua classe social e instrução. Isto não encontra justificativa nem na sequência de publicação das aventuras do detetive (que antes de Expresso do Oriente vinha de duas interessantes investigações, a saber, A Casa do Penhasco e Treze à Mesa); nem na sequência da própria série, que antes deste episódio trouxera Tragédia em Três Atos e A Noite das Bruxas. Vejam, portanto, que não existe justificativa conceitual para um Poirot se comportando dessa maneira. E acima de tudo, com um cacoete moralista infame, algo que o personagem jamais apresentou nos livros.

Assim, o que sobra da obra? O trem parado, por conta da neve, consegue ser até mais bem aproveitado no livro (que tem nesta parte o seu grande problema, dado o marasmo!) do que neste filme. O diretor Philip Martin parece não saber ou não querer filmar bem a dinâmica dos interrogatórios. Ele cria elipses impossíveis em relação ao livro (problema tanto da direção quanto do imprestável roteiro) e faz uma introdução risível que serve apenas para mostrar Poirot como um carrasco praticamente fascista, elemento tornado mais estranho quando o enredo adiciona uma camada religiosa com outro risível destaque ao longo da narrativa. Sobram aqui apenas breves lampejos de algo que poderia ser bom se não estivesse imerso em um mistério praticamente encomendado pelo Vaticano à época da Inquisição.

O primeiro dos bons momentos é a cena de ligação dos personagens com os Armstrong. O segundo, a sequência do assassinato. E o terceiro, que dura bem menos ainda, são os breves segundos onde, na última cena, Poirot anda na neve em direção à polícia, tendo os passageiros atrás deles, imaginando seus destinos.

Postos de lado esses lampejos, esta versão de Assassinato no Expresso do Oriente é um grande desrespeito à obra de Agatha Christie. Um desperdício de um bom elenco e uma grande perda de tempo.

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express: Agatha Christie’s Poirot 12X03) — Reino Unido, 11 de julho de 2010
Direção: Philip Martin
Roteiro: Stewart Harcourt (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: David Suchet, Tristan Shepherd, Sam Crane, Toby Jones, Brian J. Smith, David Morrissey, Jessica Chastain, Stewart Scudamore, Serge Hazanavicius, Eileen Atkins, Susanne Lothar, Denis Ménochet, Barbara Hershey, Hugh Bonneville, Marie-Josée Croze, Stanley Weber, Elena Satine, Joseph Mawle, Samuel West
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.