Crítica | Assassinato!

estrelas 2

Depois da horripilante experiência de ver Juno e o Pavão, encarar Assassinato! não foi uma tarefa assim tão difícil. Filme de 1930 e mais uma adaptação literária, esse capítulo da filmografia de Hitchcock traz em cena o dilema do falso acusado e mais uma personagem feminina para sofrer, o que começava ser uma constante nas obras do diretor. A despeito de seus fracassos comerciais, Hitchcock tinha levantado uma boa reputação frente aos produtores e ao público britânicos, o que lhe abriu a porta para escolher dirigir filmes de suspense, mesmo que ainda não tivesse larga experiência no gênero.

O fato é que depois de O Inquilino e Chantagem e Confissão, o público de Hitchcock já procurava alguma pista para seguir, alguma morte em cena, algo para poder acusar e tentar resolver. A crítica britânica também seguia esse caminho, não é à toa que as melhores recepções cinematográficas dessa época se davam para os suspenses ou para filmes de alguma tendência misteriosa que Hitchcock porventura dirigisse. Firmava-se então uma imagem que décadas depois incomodaria um pouco o diretor (por lhe tipificar), mas não há dúvidas de que ele gostava do gênero e preferia realizar alguma coisa que tivesse assassinato e/ou mistério no meio.

O drama de Assassinato! (com direito a ponto de exclamação no título e tudo) está centrado em Diana Baring (Norah Baring), atriz de teatro que é encontrada em estado de choque próximo a uma companheira de trabalho morta. Como não tinha boas relações com a jovem e por não ter mais ninguém em cena e haver sangue em suas mãos e seu vestido, todas as suspeitas caem sobre Diana, que é presa, julgada e condenada à morte.

Por mais falhas internas que tenha, o filme consegue prender por completo a atenção do espectador, especialmente na reta final, quando retoma o tom de suspeita e mistério do início, contando ainda com montagem rápida e takes metafóricos, o que deixa o público ainda mais preso ao que vai acontecer. Mas essa característica de tensão ou bom exemplo de montagem não é seguida durante todo o filme, que se desenvolve pobremente com um produtor de teatro interessando em provar que Diana é inocente, mesmo tendo dado o seu voto de “culpada” durante a sessão do júri.

É engraçado porque durante a deliberação para saber se a ré era ou não culpada, a primeira coisa que nos vem à mente é o filme de Sidney Lumet, 12 Homens e uma Sentença (1957). As brigas entre os jurados, a colocação de questões pessoais no meio de uma decisão importante, os argumentos contra e a favor, tudo nos faz lembrar 12 Homens, o que nos deixa a pergunta: será que o diretor americano tomou o júri de Assassinato! como base para fazer sua própria versão?

Depois de uma investigação um tanto boba e de motivação exposta pobremente, as suspeitas e o encontro com o verdadeiro assassino entram em cena e tornam a sessão bem melhor. Até o modo como as coisas se resolvem – apesar de extremamente cruel – sustenta essa ótima linha, deixando no ar uma pesada motivação racial como motor de toda a história, algo que podemos entender como crescente preocupação na Europa trintista, nesse caso, três anos antes de Hitler tomar o poder na Alemanha. Mas originalmente esse não era a intenção de Hitchcock. Ele queria usar o motivo original, a revelação de que o assassino era homossexual (o diretor ainda conseguiu incluir clandestinamente indicações disso no filme, como as duas vezes em que o rapaz aparece vestido de mulher), mas concedeu que o problema fosse reescrito como sendo preconceito étnico.

No ano seguinte ao lançamento deste filme, Hitchcock voltaria à Alemanha (onde ele começou sua carreira, como explicamos em The Pleasure Garden) para resolver junto aos produtores do país a versão germânica de Assassinato!, que acabaria tendo um outro título: Mary.

Assassinato! é um filme abaixo da média, mas com ingredientes que não nos deixam escapar incólumes de sua sessão. Apesar de fraco, é um dos dramas obrigatórios para todo fã de Alfred Hitchcock.

Assassinato! (Murder!) – UK, 1930
Roteiro: Alfred Hitchcock, Walter C. Mycroft, Alma Reville (adaptado da obra de Clemence Dane e Helen Simpson)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Herbert Marshall, Norah Baring, Phyllis Konstam, Edward Chapman, Miles Mander, Esme Percy, Donald Calthrop, Esme V. Chaplin, Amy Brandon Thomas
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.