Crítica | Assassin’s Creed: Irmandade, de Oliver Bowden

Existe Literatura, com L maiúsculo? Existe um cânone literário ocidental? Uma tradição a ser contemplada com respeito ao ser devorada por ávidos leitores? Sendo você um conservador tradicionalóide ou um relativista moderninho, Assassin’s Creed – a série caça-níquel de livros – faz questão de se colocar na galeria do que se pode chamar, tranquilamente, de anti-literatura. Não precisa ser muito tradicionalista, daqueles que almejam a erudição pela erudição e que leem mais pela citação em latim em face do que chamam de lixos fantasiosos, quadrinhescos etc. Basta ter um mínimo de prudência e ceticismo para analisar, com parâmetros objetivos, que a adaptação dos games de AC em literatura palavras se trata de uma palhaçada de péssimo gosto.

Primeiro ponto: trata-se de um game adaptado em livro – uma continuação, por sinal, para minha tristeza. Há algo de errado aqui, uma inversão bem clara. Livros adaptados em games há dos montes, para o bem – The Witcher, Metro 2033 – e para o mal – Dante’s Inferno, pois há um objetivo claro: basear-se em lendas, narrações clássicas, utopias e distopias para criar visualmente uma ambientação que faça um jogador – geralmente millennial – imergir em um mundo que poucas chances teria de ser conhecido caso permanecesse em um calhamaço assustador.

Aqui, ocorre o contrário. O (medíocre) game de trinta horas se transforma, incompreensivelmente, em quatrocentos páginas do que soa como puro fanfic arrastada. Um crítico mais ácido poderia dizer que qualquer pessoa pode virar escritor se Oliver Bowden é considerado um autor no nosso mundo.

Mas hoje me encontro em um dia bom.

Antes de começar a crítica em si, vale mais um elogio. Um argumento típico, comumente considerado válido não só para AC, mas também para Star Wars, Harry Potter, etc. é a de que o livro tem um público específico: os fãs. Basicamente, no específico caso dos assassinos, trata-se de um sarcástico e velado insulto. Se só os fãs conseguem ver beleza nesse pedaço de Bowden, são os fãs completos imbecis.

Completos, mas não irremediáveis. Nunca foi meu papel remediar nada nem ninguém. Aliás, só um monge com serenidade inabalável sairia deste livro com alguma esperança para o mundo. Pior do que a minha posição só a do autor. Veja, se revisar um livro destes já é um trabalho penoso, imagine escrevê-lo! Adaptar um game, longe de ser um dos mais “cabeças” – existe um game “cabeça” que chegue ao nível de um livro, um filme ou uma série “cabeça”? – para um livro já começa com uma premissa sufocante, que amarra o autor, sem dúvidas. O problema é que o escritor não se ajuda.

Sem o mínimo de amenidade em seu tom, Bowden mais parece um jogador a anotar rapidamente os pontos do roteiro enquanto joga o game, enchendo linguiça com descrições históricas – precisas até onde verifiquei, é preciso dizer, mesmo eu não sendo um historiador, o que também é preciso dizer – interações clichês, arquétipos feitos com desleixo e desastrado cuidado com detalhes e ritmo narrativo. Um belíssimo exemplo de como a rapidez de escrita não implica em fluidez.

Sem diferenças bem determinadas entre cada personagem, o livro aproveita a figura de Ezio Auditore di Firenze para transformá-lo em um protagonista bidimensional e desinteressante. A bem da verdade, não sei bem se o autor apenas expõe a fragilidade de um dos maiores ícones dos games, ou se o transforma. Relutantemente, tendo a ficar com a segunda opção. O único protagonista dos jogos a ganhar uma trilogia própria na sua série de games não à toa foi escolhido como figura basilar da série de livros. O problema é que, controlando-o por trinta horas e personalizando-o aos próprios gostos, Ezio ganha um grau a mais de densidade para os gamers – graças aos fantásticos trailers da série, marketing enganoso de primeiríssima qualidade – que fica naturalmente opaco quando colocado como um elemento maçante, feito apenas para mover a trama “literária”.

Mesmo havendo uma dificuldade inicial, a pena do autor expõe uma escrita preguiçosa. Nesta segunda obra, os problemas do livro de estreia continuam e se intensificam. Um mar de interrogações força a barra para criar alguma tensão evidentemente inexistente enquanto o canastrão Ezio, que até pode parecer diferente, continua com um tom extremamente semelhante aos dos demais personagens. Tudo parece ter um potencial latente a nunca ser transformado em ato. É uma escrita rápida, direta, sem arabescos – não destas que fazem bem e denotam um estilo próprio. O importante é o roteiro seguir, rapidamente, sem detalhamentos.

Sem o devido suspense e sem a devida arquitetura do cenário, o presente livro imita o parkour do protagonista dos games exatamente do modo como não deveria. Narrativa cansativa que se propõe agilmente decente, pragmática que se propõe contemplativa, vazia que se propõe aventuresca e histórica, é uma lástima. Tentando descrever side-missions dos games com disfarces do tamanho de elefantes e buscando apresentar vilões de forma didática e vulgar, Oliver Bowden só consegue retirar a importância do destino de seus personagens. Nada soa perigoso, nada soa crível. Nenhuma figura importa, no fim das contas.

Se o contexto italiano na Renascença lhe encanta, se Leonardo da Vinci e César Bórgia lhe seduzem, indico passar longe de Assassin’s Creed: Irmandade. Se Ezio Auditore é seu personagem favorito dos games, recomendo passar longe de Assassin’s Creed: Irmandade – e também recomendo outros games infinitamente melhores. Não se trata de uma “boa introdução aos personagens históricos”, ou de uma “boa adaptação dos games”, nem sequer de um “livrinho despretensioso que agrada os menos exigentes”.

É pura perda de tempo. E se você não tem nada melhor a fazer, eu garanto que qualquer cochilo é melhor do que isso. Ou faça como eu: releia O Príncipe e esqueça a existência desse desastre, uma obra sem qualquer sentido que justifique sua mísera existência.

Assassin’s Creed: Brotherhood (Reino Unido, 10 de Janeiro de 2010)
Autor: Oliver Bowden
Tradução: Edmo Suassuna (Galera Record, março de 2012)
391 páginas

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.