Crítica | Assassin’s Creed

estrelas 2

Um dos maiores desafios que o cinema hollywoodiano ainda não foi capaz de superar é a adaptação de games às telas. Por muitos anos, vimos algumas das piores, mais risíveis e vergonhosas tentativas de se levar conteúdo de videogames para o cinema, desde pérolas trash como Super Mario Bros e Mortal Kombat até a inexplicavelmente longa franquia Resident Evil, que em 2017 lança seu sexto e derradeiro capítulo.

Enquanto isso, o cinema de quadrinhos vai melhor do que nunca em uma era de universos compartilhados, personagens underground ganhando a luz do dia e uma variedade de gêneros que compreende a separação intertextual: o que funciona em uma mídia não necessariamente funcionará em outra. E 2016 parecia o ano da virada para adaptações de games, já que o renomado Duncan Jones levaria Warcraft às telas em uma abordagem épica e digna de Senhor dos Anéis, enquanto Justin Kurzel apostaria em um dos games com conceito mais interessante da atualidade: Assassin’s Creed. E com o fracasso espetacular de Jones lá no começo do ano passado, se atenções voltaram-se para Kurzel e seu filme de ação. Ainda que se saia um pouco melhor do que a fantasia de Blizzard, não é o bastante.

A trama adapta o universo dos games da Ubisoft (que também serve como produtora do longa), apresentando-nos a Callum Lynch (Michael Fassbender), um condenado à morte que acaba raptado pela nebulosa corporação Abstergo. Lá, ele descobre ser descendente de Aguilar, que fora membro da sociedade secreta do Credo dos Assassinos, na Espanha de 1492. Através da máquina Animus, Callum é capaz de acessar as memórias de seu ancestral graças à linhagem em seu DNA, com o intuito de encontrar um poderoso objeto de desejo da Abstergo: a Maçã do Éden, que contém a chave do livre arbítrio e é disputada pelos malignos Templários.

É o tipo de premissa tão boa que praticamente vem pronta para o sucesso, ainda mais quando notamos a semelhança no processo de Assassins com os de Matrix ou A Origem. Infelizmente, o roteiro de Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage comete os erros mais absurdos em sua transposição, estabelecimento de universo e motivação de personagens. Provavelmente tentando evitar o embaraçamento de seções dedicadas à exposição – introduzir o protagonista e o espectador às regras do universo e seu funcionamento – o trio simplesmente nos joga naquele universo da forma mais porca possível, sem ao menos tentar fazer o espectador compreender o que acontece. Por exemplo, logo na primeira vez que Callum chega à Abstergo, ele é imediatamente colocado na Animus, sem qualquer tipo de apresentação ou preparamento – tanto para o personagem, quanto os realizadores para a plateia. É vazio e sem nenhum envolvimento.

E se ainda falha na apresentação do universo, o desempenho do trio é ainda mais decepcionante na construção da narrativa e de seus personagens. Aquela que seria a porção mais interessante da história, a viagem ao passado, acaba praticamente esquecida e dá espaço ao núcleo infinitamente inferior das instalações da Abstergo, onde diversos furos e inconsistências do roteiro tornam incompreensíveis as intenções e motivações dos personagens: a Dra. Sofia Rikkin (Marion Cotillard) almeja a Maçã para descobrir o “motivo genético” que torna os humanos violentos, enquanto seu pai Alan (Jeremy Irons) aparentemente tem segundas intenções. O clímax acaba com resoluções apressadas e contraditórias para seus protagonistas, especialmente quanto à moral de Sofia.

Na direção de Justin Kurzel temos algo um pouco mais aceitável. A paleta de cores predominantemente escura e pastel do diretor Adam Arkapaw é hábil ao criar um mundo perigoso e vívido durante as cenas da Espanha, assim como o característico uso de luz difusa que oferece uma estética apropriadamente religiosa à alguns momentos; mais de uma vez vemos algum personagem segurar a Maçã do Éden na contra luz, e a máquina do Animus oferece uma iluminação de caráter similar. Já as cenas de ação acabam soando agridoce, já que Kurzel certamente aproveita o ambiente e as possibilidades do espaço (principalmente o popular uso do parkour em perseguições), mas sua câmera nervosa e o uso do obturador baixo (mesma técnica adotada pelos irmãos Russo em seus dois Capitão América) dificulta a compreensão da ação e torna o efeito cansativo, ainda mais com o uso do 3D. Mas o que realmente faz com que tais cenas tornem-se empolgantes é a excelente trilha sonora de Jed Kurzel, que é feliz em seu uso de cordas abafadas e a leve inspiração no trabalho de Hans Zimmer.

Já o elenco estelar se esforça, mas o roteiro fraco os impede de alcançar algo realmente profundo. Michael Fassbender é um ator incapaz de atuar mal, então tudo o que temos aqui é uma performance carismática, mas sem inspiração ou algo que o diferencie de um piloto automático competente. Sua intensidade e malícia são bem expressas, assim como seu invejável domínio do espanhol e um ou outro momento em que realmente vemos algo especial; como quando um surtado Callum começa a cantar antes de voltar ao Animus. Já Marion Cotillard surge completamente automática, mas não ajuda que os arcos contraditórios de Sofia tornem sua performance tão confusa e esquecível, enquanto Jeremy Irons fornece sua classe e elegância a mais um personagem descartável. E mesmo que não saibamos nada sobre sua personagem, Ariane Labed consegue ter uma presença exótica forte e memorável como uma das Assassinas na Espanha, mas nada realmente digno de uma grande atuação.

Parecia a oportunidade perfeita para salvar o cinema de games, mas infelizmente Assassin’s Creed é prejudicado por um péssimo roteiro e uma direção incerta que não contém a técnica ideal para superar suas muitas falhas. O elenco faz o melhor que pode, mas não foi dessa vez que tivemos um longa do gênero verdadeiramente memorável, ainda que o filme de Justin Kurzel seja uma das tentativas mais fortes.

Alicia Vikander? Agora é com você e Tomb Raider.

Assassin’s Creed — EUA, 2016
Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons, Brendan Gleeson, Michael K. Williams, Charlotte Rampling, Ariane Labed
Duração: 115 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.