Crítica | Assim Era a Atlântida

estrelas 3,5

A Atlântida é uma das mais notáveis experiências brasileiras envolvendo o alcance narrativo da nossa indústria cinematográfica com o público. Tudo bem que tivemos Os Trapalhões logo depois, os filmes da Xuxa, as comédias Se Eu Fosse Você, De Pernas pro Ar e Minha Mãe é Uma Peça, mas se compararmos as produções e os seus respectivos contextos, as realizações do estúdio que ganhou os olhos e os corações dos brasileiros durante muitos anos ainda sai com as suas vantagens.

Carlos Manga, um realizador que fez parte desta história, responsável por dirigir e escrever este documentário, em 1975, organizou o que havia disponível no acervo depois de um incêndio (1952) e uma inundação (1971) e entregou ao público um filme antológico que contempla esta fase cheia de boas memórias para a nossa cinematografia.

Em 18 de setembro de 1941, Moacir Fenelar e José Carlos Burle são dois dos nomes que se uniram para fundar a Atlântida. O interesse na fundação era possibilitar o desenvolvimento industrial do cinema brasileiro. Entre os demais membros responsáveis pela germinação de acontecimentos no âmbito do estúdio, temos o jornalista Alinor Azevedo e o fotografo Edgar Brazil.

Nos dois primeiros anos, as produções estavam voltadas para os cinejornais, entre eles, o famoso Atualidades Atlântida. Mais adiante, o estúdio produziu o seu primeiro longa-metragem, um documentário sobre o IV Congresso Eucarístico Nacional, seguido do média-metragem Astros em Desfile. Isso era apenas o começo de uma duradoura caminhada audiovisual que terminaria com Os Apavorados, de Ismar Porto.

Com uma longa introdução, o documentário revela a história do estúdio através de camadas espessas de trechos de muitos dos seus filmes. Ao longo de 95 minutos, o filme tem o roteiro assinado por Carlos Manga e Silvio de Abreu, com valiosos depoimentos entremeados de pessoas que fizeram parte desta trajetória industrial bem sucedida no Brasil, algo que nunca havia sido visto no Brasil até então.

O problema narrativo do documentário é que diante do potencial reflexivo que poderia ser extraído desta história, a montagem final parece mais interessada em contemplar os melhores momentos da Atlântida, através de trechos cansativos e longos de alguns filmes, com inserções pouco significativas, como se o espectador soubesse de cada detalhe do que é mostrado.

Indo de 1946 a 1962, o feixe de produções contempladas com os seus trechos dá espaço para Fantasma por Acaso, Carnaval Atlântida, Três Vagabundos, Maior que o Ódio, Caçula do Barulho, Aviso aos Navegantes, Escrava Isaura, Nem Sansão Nem Dalila, O Golpe, A Guerra ao Samba, Amei um Bicheiro, Pintando o Sete, A Outra Face do Homem, Chico Viola Não Morreu, dentre muitos outros.

Com o apresentador Jô Soares em sua primeira aparição no cinema, O Homem de Sputnik, produção que apresentava uma crítica ao posicionamento imperialista dos Estados Unidos no mundo é considerado por estudiosos do nosso cinema como a realização mais densa do estúdio. A identificação com os elementos do cinema dos Estados Unidos era uma amarra para a realização de filmes em nosso país.

O Brasil vivia uma situação colonial em relação ao modelo hollywoodiano, pois tanto a tríade que envolvia o público, os produtores e os críticos, estava impregnada dos valores dos musicais, dramas e comédias estadunidenses. Era preciso algo ou alguém que lutasse contra este esquema imposto em nossa produção cultural. Esta virada ocorre apenas em 1947, com a chegada de Luiz Severiano Ribeiro Jr., empresário que se torna sócio majoritário, dando ao cinema nacional a possibilidade de maior penetração no mercado.

A Atlântida já havia se consolidado com doze filmes de sucesso entre 1943 e 1947. Com a chegada do novo sócio, o estúdio começou a controlar todas as fases: produção, distribuição e exibição, além de ter um laboratório de processamento de filmes, um dos maiores do Brasil no período. Cabe ressaltar, entretanto, que mesmo produzindo muitas comédias dentro do que se convencionou a chamar de chanchada, houve um amadurecimento narrativo e um engajamento político por parte de algumas produções do estúdio. Para muitos, a Atlântida produziu apenas a chanchada em seu estado mais puro, ou seja, filmes com humor exagerado, com tons burlescos, amores ingênuos e forte apelo popular.

De fato, tais características são majoritárias dentro do panorama histórico do estúdio, mas isso não significa que as produções não tinham algo mais substancial, pois era através do riso e do escárnio que se criticava muitos costumes da época. Os filmes da Atlântida apostavam no estilo Commedia Dell’ Arte, tendo a presença do cômico como função de proteção na união dos pares românticos que protagonizavam os enredos. Com Carnaval Atlântida, em 1952, uma espécie de filme-manifesto, estabeleceu-se de uma vez a relação entre o estúdio e os elementos da carnavalização que envolvia muita música e humor, mas houve algo que conseguiu ir além.

O Moleque Tião, dirigido por José Carlos Burle, por exemplo, foi o primeiro grande sucesso comercial. Tendo algumas questões sociais como foco, o filme ia além dos números musicais afetados. O problema é que não sobrou uma cópia para nos contar esta história, tendo apenas as críticas da época como registro do conteúdo deste material.

Luz dos Olhos, do mesmo cineasta, tratava de questões raciais em seu enredo. Nem Sansão Nem Dalila foi outra produção que investiu na paródia para tecer as suas críticas. O filme era uma sátira ao clássico Sansão e Dalila, de Cecil B. de Mille, com revestimento político que criticava os golpes promovidos pela política da época e a necessidade dos envolvidos de neutralizá-lo. Assim, percebemos que mesmo tendo o humor rasgado como o seu foco central, os produtores da Atlântida conseguiram ir além do trivial.

O cineasta Carlos Manga, apaixonado por cinema, contou em diversas entrevistas a importância da trajetória na Atlântida para a sua formação profissional e pessoal. Falecido em setembro de 2015, o realizador unificou cinema e televisão de forma bastante orgânica ao longo da sua carreira. A sua trajetória nos apresenta uma destas caminhadas que o cinema adora biografar: entrou para o estúdio como funcionário do almoxarifado, passou a dirigir algumas produções, mais adiante, assumiu comerciais publicitários de 30 segundos, programas musicais e humorísticos na TV Rio, TV Excelsior, TV Record e Rede Globo.

No painel de suas produções mais famosas temos as novelas Anjo Mau e Torre de Babel, além de Memorial de Maria Moura, Engraçadinha, Agosto e Um Só Coração, minisséries de sucesso na história da televisão no Brasil. Outra experiência valorosa foi a sua passagem por Roma durante quatro anos, tendo conhecido Fellini e acompanhado alguns momentos das filmagens de Amarcord.

Assim Era a Atlântida — Brasil, 1975
Direção:
 Carlos Manga
Roteiro: Carlos Manga, Silvio de Abreu
Elenco: Odete Lara, Dircinha Batista, Emilinha Borba, Grande Otelo, Ivon Cury, Norma Bengell
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.