Crítica | Asterix e o Domínio dos Deuses

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estrelas 4

A grande criação de René Goscinny e Albert Uderzo, As Aventuras de Asterix, já foi adaptada para a televisão e cinema – por meio de animações e filmes live action – exatamente 15 vezes. Asterix e o Domínio dos Deuses é a 16ª e a primeira vez em animação desde Asterix e os Vikings (inspirado no álbum Asterix e os Normandos), de 2006, também em computação gráfica.

Louis Clichy, animador que trabalhou em WALL-E e Up: Altas Aventuras, ambos da Pixar, é o grande responsável pelo polimento do trabalho de animação que podemos ver em O Domínio dos Deuses, baseado no álbum homônimo de 1971, o 17º da série. O design dos personagens respeita os quadrinhos até os mínimos detalhes, indicando um trabalho intensivo e detalhado da equipe de animação. Com isso, o caráter pitoresco de Asterix, Obelix, Panoramix e toda a turma é refletido integralmente no filme, que ainda se esmera em reconstruir a aldeia dos irredutíveis gauleses, a floresta ao redor e o condomínio O Domínio dos Deuses, que Júlio César manda construir aos arredores da aldeia como uma forma de fazer com que os gauleses sejam assimilados à cultura romana.

É particularmente impressionante reparar o quão próxima é essa adaptação de seu material fonte. Normalmente, os longas estrelando Asterix mesclam mais de uma história ou apenas se baseiam de longe nos quadrinhos, mas, em O Domínio dos Deuses, o roteiro de Alexandre Astier, co-diretor, que recebeu colaborações de Jean-Rémi François e Philip LaZebnik, é quase uma transposição página a página dos acontecimentos do álbum. Normalmente, quando há muita proximidade entre material fonte e adaptação, o resultado fica aquém do esperado, mas, comprovando a habilidade de Astier (ator, diretor e roteirista razoavelmente conhecido na França, aliás) e também a atemporalidade da obra de Goscinny e Uderzo, O Domínio dos Deuses funciona de maneira redonda, pecando justamente apenas quando faz uso de licença poética mais para o final, de maneira a alongar a história.

A crítica ao consumismo desenfreado, à lei da oferta e procura, ao avanço da chamada “civilização”, à ganância e a vários outros comportamentos que infelizmente vemos no dia-a-dia está toda lá, intacta, da forma idealizada por seus autores décadas atrás. Quando os civis romanos que passam a ocupar o condomínio começam a fazer compras na aldeia gaulesa, descobrindo que os preços por lá são infinitamente mais baixos que os praticados em Roma, até nossos heróis são corrompidos pelo dinheiro, passando a gradativamente remarcar suas tabelas e a criar demandas onde não existem. Essa situação gera belas oportunidades para o roteiro se aproveitar do eterno conflito entre o ferreiro Automatix e o peixeiro Ordenalfabetix, o primeiro fumegando de raiva pelas sardinhas mais caras que o segundo passa a vender e, ato contínuo, inventando que sua loja vende antiguidades da Armórica. Além disso, toda a situação anterior, envolvendo o começo das obras dos romanos, com o uso de escravos, é muito bem construída, com material suficiente para cutucar as leis trabalhistas, as greves e a forma como o patrão trata o empregado, sempre com a sutileza elefantina de Goscinny.

Da mesma forma, o roteiro é inteligente quando usa uma saída para minimizar o potencial destrutivo de Obelix que, como todo mundo sabe, ganhou força descomunal depois de, quando pequeno, cair no caldeirão da poção mágica de Panoramix. Com isso, a narrativa ganha equilíbrio e fôlego para chegar até o ponto onde chega, que vai um pouco além do que vemos nos quadrinhos. Em circunstâncias normais, essas modificações seriam até bem vindas, não fosse a repetição que elas acabam gerando no terço final da produção. Nesse ponto, todo o conflito já foi estabelecido e todas as consequências morais dessa “invasão romana” já foram exploradas à exaustão. Quando a inevitável assimilação – quase como os Borgs em Star Trek – acontece, já estamos no campo do bis in idem (para usar a língua de César!) e, mesmo considerando a curta duração da obra, é possível ver sinais de cansaço.

Asterix e o Domínio dos Deuses, porém, é uma ótima diversão que agradará adultos e crianças, mesmo aqueles que não tenha muita intimidade com os personagens. Que venham outras adaptações de qualidade como essa, por Tutatis!

Asterix e o Domínio dos Deuses (Astérix: Le Domaine des Dieux, França/Bélgica – 2014)
Direção: Louis Clichy, Alexandre Astier
Roteiro: Alexandre Astier, Jean-Rémi François, Philip LaZebnik (baseado em quadrinhos de René Goscinny e Albert Uderzo)
Elenco: Roger Carel, Guillaume Briat, Serge Papagalli, Bernard Alane, Arnaud Léonard, Laurent Morteau, Lorànt Deutsch, Laurent Lafitte, Alexandre Astier, Alain Chabat, Elie Semoun, Géraldine Nakache, Artus de Penguern, Lionnel Astier, François Morel, Philippe Morier-Genoud, Joëlle Sevilla
Duração: 85 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.