Crítica | Asterix entre os Pictos

estrelas 3

Criados pelos franceses René Goscinny e Albert Uderzo em 1959, Asterix, Obelix e sua turma de adoráveis e briguentos gauleses vêm divertindo o mundo há décadas, sendo uma das BDs (quadrinhos em francês: bande dessinée) europeias mais famosas e mais populares do mundo. Além disso, o material (são 35 álbuns até hoje) é riquíssimo em referência históricas capazes de aguçar a curiosidade de leitores de várias idades.

Sempre desenhada e escrita pela dupla mencionada (Goscinny no roteiro e Uderzo na arte), as aventuras de Asterix alcançaram seu auge ainda na década de 70. Infelizmente, ao final daquela década, mais precisamente em 05 de novembro de 1977, Goscinny faleceu (seu último trabalho foi Obelix e Companhia) e Uderzo passou, então, a também escrever os roteiros. Com isso, a arte manteve-se a mesma ótima de sempre, mas a qualidade dos textos caiu sensivelmente. No entanto, Uderzo manteve-se firme em seu trabalho produzindo mais 10 álbuns, até o fraco Asterix e o Dia em que o Céu Caiu, de 2005 (isso se não contarmos com o álbum comemorativo de 50 anos dos personagens, lançado em 2009).

Uderzo, hoje com 86 anos, decidiu passar sua batuta em diante, finalmente permitindo que outros desenhistas e roteiristas trabalhassem com sua criação, de forma que o legado continuasse. E, com isso, chegamos a Asterix entre os Pictos, lançado em outubro de 2013 no mundo todo e que marca a primeira vez que nenhum do dois criadores de Asterix participa de sua elaboração. No lugar de Uderzo, temos Didier Conrad nos desenhos e Jean-Yves Ferri no roteiro.

Em termos de desenhos, a estratégia é igual a de Mauricio de Souza com sua Turma da Mônica: zero de liberdade. Conrad teve que seguir os mandamentos de Uderzo e o resultado são traços iguais aos do criador. Faz sentido comercial, considerando que, como primeiro passo completamente fora do ninho, era melhor não arriscar. No entanto, fica aquele gostinho das possibilidades de um traço novo para os loucos gauleses e não os que já nos acostumamos a ver desde o nascedouro da turma. Só para se ter uma ideia, Conrad desenhou diversas obras para a famosa revista Spirou, mostrando grande capacidade em trabalhar faces e paisagens.  De toda forma, o trabalho é eficiente como os de Uderzo, mantendo o ar familiar que era o objetivo desde o começo.

No quesito história, no melhor estilo do clássico Asterix entre os Bretões, Jean-Yves Ferri coloca Asterix e seu inseparável amigo Obelix na Escócia – ou no que era a Escócia antes dela ser a Escócia – entre as tribos guerreiras que formavam o povo picto, que viviam no leste e norte do que hoje é a Escócia. E o que significa “no melhor estilo”? Ora, o que vemos é tudo que nós imaginamos que os escoceses fazem todos os dias transplantados para o passado. Assim, como todo escocês anda de saia (kilt) então toma kilts nos personagens, inclusive nos próprios gauleses que acham Mac Olosso congelado e as mulheres ficam enlouquecidas com a moda, reproduzindo-a para seus maridos, para desespero dele. E, é claro, todo escocês é ruivo, arremessa toras de madeira, tem nomes que começam com Mac (ou Mc), são tatuados (lembram de Coração Valente?), vivem em clãs rivais e, por último, têm como bicho de estimação um dinossauro em um lago.

Assim, Ferri insere todos os estereótipos escoceses dentro da estrutura narrativa de forma tão natural quanto Goscinny fazia há muitos anos e é bom ver essa forma voltar. Mesmo assim, talvez para não se aventurar muito, Ferri toma certas precauções que fazem com que a história perca seu ritmo a partir da metade, depois que Asterix e Obelix partem para devolver o descongelado Mac Olosso para seu clã. Logo que passa o bombardeio inicial de situações inusitadas, a história começa a descambar para o óbvio e o vilão, Mac Abro, não chega a ser memorável o suficiente. Mac Olosso, uma espécie de Obelix com mais músculos, consegue ser interessante, pois um problema mal explicado com seu congelamento e descongelamento o faz ter tiques neurológicos (isso sou eu explicando em termos mais sérios o que li, claro) e a cada frase que fala, ele insere letras de músicas clássicas em inglês, incluindo Beatles. O mesmo vale para o simpático Afnor, o dinossauro amigo do clã de Mac Olosso, uma espécie de Ideiafix gigante.

No Brasil, o trabalho de tradução ficou ao encargo de Gilson Dimenstein Koatz e ele se desdobra para fazer o melhor que pode em termos de criação de nomes engraçados que começam com “Mac” e na tradução das diversas brincadeiras com palavras, marcas registradas do humor de Goscinny e Uderzo. Acertadamente, ele manteve as músicas no original inglês (elas são em inglês mesmo na obra em francês), permitindo a imediata identificação do público.

Uderzo acertou em passar a tocha adiante e, agora, resta saber se ele abrirá mão do que parece ser ainda uma imposição criativa sua, permitindo mais liberdade ao novo roteirista e, especialmente, ao novo artista. Asterix, espero, tem futuro e só falta um pouquinho de ousadia para que os tempos de Goscinny voltem de verdade.

Asterix entre os Pictos (Astérix chez les Pictes, França – 2013)
Roteiro: Jean-Yves Ferri
Arte: Didier Conrad
Editora: Record
Lançamento: Outubro de 2013
Páginas: 50

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.