Crítica | Astro City: Confissão

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Brian Kinney é um adolescente amargurado. Ele viu o pai, que era médico, morrer pobre porque se preocupava mais em salvar os pacientes do que em receber pelo serviço prestado, atendendo mesmo aos que não podiam pagar — e aqui vamos parar para pensar um pouco: vejam o nível de valor que a sociedade chega a exigir de um indivíduo… Ele cresceu ouvindo as pessoas falarem mal do Sr. Kinney, que acabou morrendo, deixando inúmeras dívidas. Seus bons feitos pareciam não importar. Em busca de ser alguém na vida, de ter reconhecimento, de ter contato com heróis, Brian vai para Astro City. E começa a trabalhar na cidade, não demorando muito tempo para que algumas cosias aconteçam com ele. Mas não do jeito que tinha imaginado.

Kurt Busiek cria neste arco Confissão uma jornada de aprendizado em todos os sentidos, da lição de moral mais simples que se possa dar a um adolescente, que acha que seu pai morto era um “bobão fracassado”, até o contato com todo tipo de horror e entrega que um ser humano pode oferecer. O narrador é Brian, o adolescente amargurado. Através de seu ponto de vista (o de alguém vindo de uma cidade do interior e que é fascinado pela história dos super-heróis), avistamos um outro lado de Astro City, um lado mais pragmático, mais “mundo de negócios e vida burguesa” do que aquele observado em Vida na Cidade Grande — muito embora o elemento alienígena sugerido naquele primeiro volume volte aqui, de maneira brilhante. E é através dessa vida de trabalho, de agendas, compromissos inadiáveis, clubes exclusivos, classes sociais e problemas primários que toda grande cidade tem, é que vemos a maturidade chegar para Brian.

Do trabalho rápido no bar de K.O. “Nocaute” Carson (Blackemblema até 1972) ao lugar onde é atacado pelo patético vilão Lança-Cola, Brian entende que o mundo é muito mais do que simples aceitação e negação de pedidos; que as coisas podem ter mais de um significado ao mesmo tempo; que todo mundo tem mais de uma face e que cada uma delas tem o seu momento de vir à tona; e que a honestidade, a transparência, a lealdade e a bondade são conceitos que, embora se sustentem em sólidas e Universais colunas, podem ser demonstrados diferentemente. Paciência e tempo certo para algumas informações virem à tona são necessários. E isso Brian também aprende, mas não de maneira muito simples. A aproximação heroica aqui é a mais interessante possível. Brian conhece o sombrio e noturno Confessor (um tipo de Batman), enquanto ele se torna o Coroinha (Robin) desse Universo.

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Em apenas 22 páginas, Busiek narra uma Crise (em infinitos tempos e realidades). Uma aula de concisão e de como fazer uma Crise temporal realmente significar algo.

Existe uma abordagem religiosa em Confissão, a começar pelo título, seguindo pelo fato de o narrador ser um herói adolescente de nome Coroinha e de seu tutor ser o Confessor, um misterioso homem de hábitos noturnos, com vestes pretas e uma enorme cruz prateada no peito. E também existem Os Híbridos (todos com nomes bíblicos e aparência bem exótica: Daniel, Pedro, Maria, Noé, Josué e Davi), popularmente chamados de “Loucos por Jesus”. Essas referências funcionam como um convite ao pensamento moral, via Cristianismo, considerando a permanência da maldade no mundo o motivo pelo qual os justos sofrem e por quê Deus permite que tanta coisa ruim aconteça com tanta gente inocente. Isso porque, no meio do aprendizado que o roteiro de Busiek guia com maestria — e a incrível arte de Brent Anderson, finalizada por Will Blyberg segue sem fazer feio — temos a história de um serial killer fazendo vítimas aos montes no Morro da Sombra. Isso e o caso final com os aliens Enelsianos.

SPOILERS!

Há um prazer indescritível acompanhar uma história como essas. Não se trata apenas de uma grande lição. De uma intricada jogada de “reconhecimento de padrões” e de situações diferentes agindo sobre o mesmo espaço — fazendo tudo ser diferente sem ninguém perceber… Trata-se da captura de nuances sociais corriqueiras que, mesmo sendo escritas entre 1996 e 1999, continuam relevantes hoje. Aqui temos manipulação midiática; temos um prefeito fazendo cortina de fumaça para encobrir sua má administração; temos a opinião pública colocando sua máscara feroz e uma narrativa que pode ser resumida assim: a importância de um legado.

Busiek nos faz pensar de diversas formas na frase dita por uma mulher a um rapaz na rua, no meio do debate sobre o registro oficial de heróis pelo governo (uma década antes de Guerra Civil) — “você é jovem e não lembra dos anos 70. Se lembrasse não ia confiar tão alegremente em qualquer um que veste capa” — e nos faz ver a fé, o motivo de viver e a importância de se deixar mudar com olhos muito mais simpáticos do que estamos acostumados. E tudo termina com uma saga incidental chamada Você Tão Perto (The Nearness of You), que “só” conta o reboot de um Universo inteiro em apenas 22 páginas. Sim. Uma Crise nas Infinitas Terras, só que curta, excelente e com um VERDADEIRO E PLURAL significado. Um primor de arco em um primor de série. Simplesmente não há nada como Astro City.

Astro City: Confissão (Astro City Vol.2 #1/2 + 4 – 9: Confession) — EUA, dezembro de 1996 a janeiro de 1999
No Brasil: Panini, outubro de 2015
Roteiro: Kurt Busiek
Arte: Brent Anderson
Arte-final: Will Blyberg
Cores: Alex Sinclair
Letras: John Roshell, Comicraft
Capas: Alex Ross
Editoria: Ann Busiek, John Layman
212 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.