Crítica | Até Que a Sorte Nos Separe

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A preguiça do roteiro de Até Que a Sorte Nos Separe, escrito pelos advindos da TV Paulo Cursino e Angélica Lopes e baseado livremente no livro Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, parece igualmente proporcional (ou até maior) com a de seu protagonista, Tino (Leandro Hassum). Assim como em pérolas intituladas Se Eu Fosse Você e, para usar um exemplo recente, De Pernas pro Ar, a Globo Filmes segue produzindo filmes (em sua maioria, comédias) que se assemelham a episódios alongados de algum especial de fim de ano, entregando aquele feijão-com-arroz que o público tanto gosta e devora habilmente. Basicamente, é aquela brincadeira de subestimar a inteligência e paciência do público em prol de entregar um entretenimento fácil e barato apenas para sugar nosso tão amado dinheiro.

O curioso é que tudo o que foi escrito neste primeiro parágrafo pode ser lido, às vezes com as mesmas palavras, em diversas outras críticas que condenam a mesmice na qual as comédias se entregaram, o que só ressalta a seriedade da situação. Não que o gênero exija sempre algo inovador ou um fluxo constante de criatividade, tudo o que se pede são piadas que nos façam rir e afastem, por um tempo, de nossa realidade dura e corrida. O que muitos roteiristas não parecem ter entendido é que, para arrancar risadas genuínas, é preciso prestar atenção em diversos fatores, como o carisma dos personagens, a identificação com o público e, principalmente, o casamento adequado entre as situações e as tiradas cômicas.

Até Que a Sorte Nos Separe é daqueles filmes que parece não saber disso. Tal qual aqueles programas infames como Zorra Total e Os Caras-de-Pau (do qual Hassum faz parte), o que se vê aqui é um amontoado de gags artificiais e repetitivas, que são simplesmente jogadas na tela sem o menor tato ou pudor, apelando para um timing cômico grosseiro e gritante que, por algum motivo desconhecido, ainda consegue arrancar risadas de boa parte do público.

Tino (Hassum) e Jane (Daniele Winits) viviam na pobreza no início de seu casamento, até que um sorteio de loteria mudou a vida do casal. Quinze anos depois, ambos encontram-se acomodados com suas vidas fáceis onde nada precisam fazer, usando e abusando de suas fortunas. Um dia, porém, Tino descobre que perdeu tudo e encontra-se endividado, sendo obrigado a recorrer ao seu vizinho e advogado Amauri (Kiko Mascarenhas), que também lida com problemas pessoais com sua família. Ambos precisam encontrar um jeito de livrar Tino aperto, sem que Jane saiba do ocorrido.

Mantendo todo aquele padrão televisivo que é característico entre 9 de 10 comédias nacionais, Até Que a Sorte Nos Separe começa errando pela concepção de seus personagens. Tino poderia ter sido uma figura carismática e até mesmo um possível espelho da sociedade consumista em que vivemos, se não fosse 1) a arrogância, opulência e burrice do personagem que não parecem mudar nunca, e 2) a falta de talento de Leandro Hassum. Entregando-se a um overacting que faria Jim Carrey se sentir envergonhado, o ator jamais parece encontrar o tom certo para que suas falas soem, no mínimo, “engraçadinhas”, insistindo em expressões e tiques que apostam no completo exagero para fazer rir. Daniele Winits, siliconada e de lentes azuis mais do que falsas, é apresentada como aquela típica perua fútil e gastadeira, e a própria atriz parece se divertir com a personalidade excêntrica de Jane, mas tudo desaba quando o roteiro, por pura conveniência, apresenta um lado mais humilde da personagem, algo que jamais soa plausível devido a forma com que ela havia sido mostrada até então.

Kiko Mascarenhas, então, é o único que consegue algum plot minimamente interessante e levemente relevante. Interpretado com naturalidade por Mascarenhas, Amauri é um homem obcecado por planejamentos, o que lhe acarreta problemas com sua esposa, Laura (Rita Elmor), que deseja engravidar, mas sempre tem seu pedido recusado pelo marido pelo fato de que “90% dos casais se separam após o nascimento do segundo filho”. O conflito entre o casal traz à tona uma discussão relevante para os relacionamentos, de que viver o momento é mais importante do que ficar planejando o futuro, e de que as coisas deve simplesmente acontecer. Apenas poderiam ter deixado de lado da resolução aquela câmera lenta ao estilo comercial de shampoo.

Tratando o espectador como burro ao escancarar sua lição de moral com uma explicidade vergonhosa, Até Que a Sorte Nos Separe representa mais um passo em falso para as produções humorísticas nacionais, que assim como o próprio gênero, carecem urgentemente de alguma novidade que possa torna-las atraentes novamente. Apenas mais um veículo de entretenimento falso e sem personalidade.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.