Crítica | Atirem no Pianista

estrelas 4,5

Uma das grandes injustiças feitas à carreira de François Truffaut é o desprezo bastante engajado que uma parte do público reserva ao seu segundo longa, Atirem no Pianista. Há quem defenda que as homenagens feitas pelo cineasta ao cinema clássico nesta obra não honram o passo à frente dado por ele em Os Incompreendidos, e assim, Atirem no Pianista acaba sendo normalmente classificado como um “filme menor”. Mas esta não é exatamente a verdade. Pensemos um pouco a respeito.

Truffaut trabalhou como crítico de cinema na Cahiers du Cinéma antes de dirigir seus primeiros curtas, quando então começou a plantar algumas sementes do que seria o grosso de sua filmografia futura: histórias de amor um tanto amargas, homens indecisos ou fracos diante de situações críticas, metalinguagem, amor pela música e literatura, elenco infantil, natureza, convenções e críticas sociais. Arquitetando esses ingredientes em uma proposta de “fazer cinema falando de cinema” o diretor realizou em Atirem no Pianista uma pequena anedota de humor negro dentro do gênero policial, trazendo à tona estruturas clássicas sob um novo olhar.

Vendo por este ponto, não há nada de ultrapassado ou anti-nouvellevagueano em Atirem no Pianista. O drama do azarado Charlie Kohler / Edouard Saroyan (interpretado por ninguém menos que Charles Aznavour, aos 36 anos) é desenvolvido de modo a recriar a atmosfera dos filmes de gângster – há uma citação visual ao Scarface de Howard Hawks, logo no início –, só que abordando essa temática dentro de uma estrutura vanguardista. Vemos uma complexa história de idas e vindas narrativas, com direito a narração em off, flashbacks e ciclo dramático, iniciando com uma fuga e terminando com as consequências dessa fuga para o desafortunado pianista do título.

O interessante do roteiro de Truffaut e Marcel Moussy (repetindo a parceria de Os Incompreendidos) é a forma completamente livre como adaptaram a obra de David Goodis, desenvolvendo bem cada um dos personagens principais, criando justificativas para suas ações, dando-lhes importância equilibrada em cada fase do filme e fechando suas histórias de maneira cíclica, como o próprio roteiro propunha. Não temos ninguém esquecido, super ou sobrevalorizado. Cada um ganha o necessário espaço para fazer a trama avançar sem grandes problemas e essa coerência de construção de personagens é um dos maiores ganhos do filme.

Truffaut também se reserva o bem-vindo direto à brincadeira e à atmosfera do conto infantil de caráter social, explorando, na reta final, a história dos irmãos Saroyan. O cenário coberto de neve e filmado sob a luz dura de Raoul Coutard (que voltaria a fazer outro excelente trabalho com Truffaut em Jules e Jim – Uma Mulher para Dois) remete-nos a algum lugar quase fantástico, completamente protegido do mal, que, inclusive, é usado como metáfora da salvação e perdição no tiroteio que anuncia o desfecho, contando aí com cenas de extrema beleza poética e montagem exemplar da dupla Claudine Bouché e Cécile Decugis.

Atirem no Pianista mostrou ao mundo um Truffaut jocoso e clássico que jamais veríamos novamente, pelo menos não com essa intensidade. O tom trágico misto de sarcasmo e comédia que vemos no filme são exemplos da coragem e interessante proposta do cineasta em homenagear de uma forma diferente a arte que ele tanto amava, brincado como uma criança com um brinquedo caro e nos legando momentos inesquecíveis durante a projeção (que tal as cenas com as íris na tela, especialmente a que vem após a frase: se eu estiver mentindo, quero que a minha mãe caia morta?).

As perseguições, a música, a citação a Fúria no Alaska, um western com John Wayne, e tomadas que nos trazem lembranças de Samuel Fuller, Jean Renoir, Alfred Hitchcock e Max Ophüls tornam Atirem no Pianista um filme sob medida para cinéfilos, além de ser divertido e altamente recomendável para o grande público, especialmente por ser uma gema cômica quase perfeita (o epílogo após o tiroteio na neve e algumas atuações incomodam um pouco) incrustada na valiosa filmografia de François Truffaut.

Atirem no Pianista (Tirez sur le pianiste) – França, 1960
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Marcel Moussy (baseado na obra de David Goodis)
Elenco: Charles Aznavour, Marie Dubois, Nicole Berger, Michèle Mercier, Serge Davri, Claude Mansard, Richard Kanayan, Albert Rémy, Jean-Jacques Aslanian
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.