Crítica | Atividade Paranormal 5: Dimensão Fantasma

estrelas 2

Quando fui assistir ao quinto filme da franquia Atividade Paranormal para escrever esta crítica, pensava saber bem o que encontraria, confesso. Não depositei grandes expectativas em uma receita cinematográfica que não cansa de se repetir, por mais que críticos apontem essa repetição.

Mesmo uma colagem, reciclagem ou como queiram chamar, todavia, pode disfarçar bem sua estrutura usando uma variação do previsível aqui, um chamariz ali, que prendam nossa atenção e nos entregue um produto ao menos regular. O longa em questão, no entanto, não apenas falha nesse processo como cai em uma mera e muito incômoda espetacularização do terror.

Não que seja a primeira vez, que o digam remakes que vêm superficializar o que originalmente é tão profundo ou criativo, como Carrie ou Poltergeist, mas Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma talvez possa ser vista como um marco, a oficialização inegável desse problema. E como já defendido pelo Plano Crítico em nosso Plano Polêmico #12, tanto o cinema quanto as artes em geral mostram indícios de uma ameaça, sim, mais forte do que nunca. E não, essa ameaça não é uma entidade ou demônio, a não ser que evoquemos para o plano explícito o demônio do espetáculo, como diria Debord. Neste instante, o demônio pode estar cochichando no seu ouvido: “Crítico mais radicalista esse…”.

Já para Leila (Ivy George), a filhinha de Ryan Fleege (Chris J. Murray) a ameaça está em uma casa. Sim, outra casa mal assombrada. Sim, a família, mais uma família, também se muda para ela. Com uma premissa que remete ao, este sim, eficaz A Entidade, o homem da família e seu irmão, Mike (Dan Gill), encontram fitas de vídeo com filmagens de vários anos atrás, na mesma casa. Também encontram uma câmera que parece ver além do que os olhos são capazes de o fazer. Aqui, portanto, vende-se a ideia de que a câmera é elemento inseparável da narrativa além do seu óbvio papel, como nos outros filmes da franquia, mas por si só também extensão do mistério da trama. O chamariz, no entanto, não passa disso, já que para o expectador simplesmente não é relevante por onde se vê a ameaça, mas como se vê ou não se vê. Repare, continuo apontando problemas frequentes em meio à torrente de produções do gênero e o explícito em excesso é um deles, mas aqui, repito, chegamos a um auge, entre outros, em âmbito irônico, já que a exaustão de se ver algo na tela recebe a proposta mais ilusória que se pode imaginar: a de suavizarmos essa exaustão vendo o que o personagem vê em uma câmera.

Enquanto isso, o conteúdo das fitas brinca com a questão temporal e poderia render ótimos momentos se a ideia fosse mais aprofundada. Tudo, aliás, é raso no roteiro, com meros chamarizes, conforme citei anteriormente, mas que se dissipam em meio a tantos elementos nada ou parcamente justificados. No final, são apenas isso, chamarizes. Tampouco conseguimos nos importar com os personagens, que, exceto pelo alívio cômico proporcionado pelo irmão de Ryan, configuram-se como uma família genérica entre tantas do gênero, com direito a uma espiritualista que nada acrescenta, exceto por um mero didatismo, e, já fora do círculo familiar, a um padre sem absolutamente nenhum carisma. O elenco se esforça, é verdade, mas o roteiro simplesmente não ajuda.

Aliás, minto. Dois personagens em especial até representam um ponto interessante no filme. Interessante e, creio, o pior deles. Ryan e sua esposa, Enily (Brittany Shaw), parecem agir, com frequência, como os verdadeiros vilões da trama, em vez da entidade que passa a assombrar a família e a demonstrar especial interesse pela filhinha do casal. Afinal, em vez de buscar livrar logo a menina daquela situação, persistir na conversa com a garotinha ou o que o valha, limitam-se a observar filmagens dela sendo torturada pela criatura. Aqui, a espetacularização surge em sua pior face, com um personagem servindo como mero objeto para o suposto entretenimento do público. É quase como se a quarta parede eventualmente fosse quebrada e os atores falassem: “Querem ver a garotinha ser assombrada pelo monstro? Querem ver? Então vamos lá!”.

Referências a filmes anteriores podem ser notadas por quem acompanha a franquia e o viés investigativo tende a despertar certa esperança no que está por vir, mas tudo acaba na boa e velha assombração desenfreada e em uma loucura sem sentido algum. Outro problema frequente e que até poderia se passar por divertido se o roteiro contasse com mais pontos positivos – e eventualmente, como eu disse, não soa nada divertido. Com os incansáveis falsos sustos, que se repetem por mais que um crítico atente para eles, ao término de um suprassumo do que já é evidenciado em tantas produções; com o que há de pior no cinema passando e partindo com tantos outros para o esquecimento, travestido de um produto audiovisual profissional, nos perguntamos: até quando?

Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma (Paranormal Activity: The Ghost Dimension, EUA – 2015)
Direção: Gregory Plotkin
Roteiro: Jason Pagan, Andrew Deutschman, Adam Robitel, Gavin Heffernan
Elenco: Chris J. Murray, Brit Shaw, Ivy George, Dan Gill, Olivia Taylor Dudley, Chloe Csengery, Jessica Tyler Brown, Don McManus, Michael Krawic, Hallie Foote
Duração: 88 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.