Crítica | Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal

estrelas 2,5É curioso notar o efeito que uma franquia como Atividade Paranormal exerce sobre seu público: a cada novo exemplar lançado, diversas são as reclamações sobre a falta de sustos (algo que nunca fez parte do objetivo da franquia) ou os desfechos que jamais pareciam encontrar alguma conclusão. Mas não adianta, este mesmo público sempre retorna aos cinemas para saciar sua curiosidade sobre quais seguimentos a franquia irá tomar, e se a sensação de medo e nervosismo poderá se fazer presente novamente.

Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal até tenta, mas não consegue. Se o filme é ruim? Minha resposta pessoal é não. Ao contrário da bobagem que foi o quarto filme (mais que uma bobagem, era quase uma auto-paródia), este novo capítulo nos traz uma ambientação diferente e o aprofundamento (ou ao menos uma tentativa de aprofundamento) no tema do clã de bruxas, algo apenas pincelado nos longas anteriores. Por essas e outras, o filme é uma tentativa válida de trazer um novo fôlego para a franquia, embora fique claro que, se esta quiser se manter viva, precisará assumir novos riscos.

Na questão dos sustos e arrepios, o filme é razoavelmente bem-sucedido, embora estes estejam longe de fazerem jus ao que foi visto no longa original. A estética amadora se mantém, desta vez com uma câmera portátil que é bem manuseada pelo diretor Christopher Landon, estudando bem alguns cenários sombrios e sequências noturnas, além de uma constante movimentação que garante certo dinamismo ao filme. Boa parte dos sustos é anunciada segundos antes de acontecerem, mas há momentos em que o espectador consegue sentir algum arrepio, o que por si só já faz deste Marcados Pelo Mal uma recomendação válida para quem curte a série como um todo.

Mas ao mesmo tempo em que o longa tenta se distanciar de seus antecessores através de sua nova ambientação e novas revelações sobre o clã de bruxas, novamente temos a irritante necessidade de construir alguma ponte com o primeiro filme, o que já demonstra que os filmes encontram sérias dificuldades em funcionarem por si só. Neste caso, as ligações construídas geram enormes buracos de roteiro, prejudicando seriamente a cronologia dos fatos.

Atenção: apenas leia o parágrafo seguinte se você já assistiu ao filme.

No clímax do filme, o personagem Hector (Jorge Diaz) é transportado para o momento final do primeiro filme, em que Katie é possuída pelo demônio que a perseguia, e assassina seu namorado, Micah. Mas no começo de Marcados Pelo Mal, nos é mostrado que a trama se situa no ano de 2012. Sendo assim, como Hector poderia ser transportado para aquele exato momento, se o fatídico acontecimento entre Katie e Micah aconteceu em 2006? Da mesma forma, como justificar a presença de Ali e suas revelações sobre o clã de bruxas se, de acordo com o desfecho, Katie ainda nem havia assassinado sua irmã, Kristi? São crateras que o roteiro não parece fazer a mínima questão de fechar.

Ainda assim, o filme nos reserva algumas surpresas no que concerne ao tratamento dado aos personagens. Quando o protagonista Jesse (Andrew Jacobs) descobre que adquiriu algumas habilidade extraordinárias, sua primeira reação passa bem longe de alguma incredulidade com os dons recebidos. É uma opção curiosa e até mesmo corajosa por parte do roteiro, uma vez que o próprio filme assume este seu lado mais despretensioso em relação ao medo do desconhecido e, como consequência, permite que os momentos cômicos (aqui em maior número) fluam de maneira mais orgânica. E a subtrama das bruxas, apesar de não tão bem explorada, consegue ser suficientemente instigante para manter a atenção do público.

Como parte da franquia, Marcados Pelo Mal se justifica ao buscar trazer algum frescor para uma abordagem já claramente desgastada. Mas é como já foi dito, se a série quiser ir além, precisará se arriscar um pouco mais. No fim, é um bom programa para quem deseja tomar alguns sustos fáceis ou até mesmo dar algumas risadas (involuntárias ou não) no escuro do cinema.

Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones, EUA, 2014)
Roteiro: Christopher Landon
Direção: Christopher Landon
Elenco: Molly Ephrain, Katie Featherston, Andrew Jacobs, Richard Cabral, Crystal Santos, Jorge Diaz, Chloe Csengery, Jessica Tyler Brown, Diana Danger, Eddie J. Fernandez
Duração: 84 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.