Crítica | Atlanta – 1ª Temporada

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Donald Glover começou sua carreira bem cedo, colaborando na sala de roteiristas para a série cômica 30 Rock. Logo depois entrou para o elenco recorrente de Community, onde conseguiu chamar bastante atenção com seu personagem, Troy Barnes. Mesmo com uma audiência baixa, a série deu mais visibilidade para seus outros projetos envolvendo a carreira como comediante stand-up e músico, nesta última usando o pseudônimo Childish Gambino, com o qual recebeu aclamação crítica e popular.

O mais impressionante é que Donald Glover realizou tudo isso antes de chegar aos trinta anos. Seu interesse em se tornar cada vez mais autoral chegou no formato de Atlanta, a série que ele criou e fez questão de produzir, atuar e se envolver nos roteiros e direção.

Produzida pelo canal FX (responsável por séries aclamadas pela crítica como Fargo e The Americans), Atlanta segue a jornada de Earn (Donald Glover), um jovem sem dinheiro e em uma relação confusa com sua ex, com quem tem uma filha. Cansado de tudo e pronto para tomar uma atitude, Earn decide investir o pouco que tem gerenciando a carreira de seu primo, Alfred (Brian Tyree Henry), um rapper em ascensão sob a alcunha de “Paper Boi”. Infelizmente, Alfred também está envolvido com o tráfico de drogas, o que deixa Earn cada vez mais preocupado.

Em sua superfície, Atlanta é uma comédia, com todas as piadas e situações absurdas na qual Earn acaba se envolvendo. É um universo criado pela cabeça de Glover, com bastante espaço para exageros, onde você pode ter um personagem falando sobre carros invisíveis em uma cena e na próxima o mesmo carro está atropelando todos em um estacionamento (mesmo que não consiga “ver” o veículo). Mas Atlanta tem bastante espaço para o drama, principalmente por trazer personagens que lidam com problemas de forte apelo social, o que rende debates inteligentes sobre questões raciais e econômicas.

O sétimo episódio, intitulado B.A.N., se aproveita de um formato completamente diferente dos outros da temporada. Dirigido pelo próprio Glover, assistimos uma entrevista de Paper Boi para um talk-show, mas com um apresentador mais interessado em ler comentários do rapper e interpretá-los de forma sensacionalista do que qualquer outra coisa. Com um enredo muito bem executado, somos inseridos em um debate envolvendo feminismo, gênero, intolerância e racismo. Abordando os dois lados da conversa, é o episódio mais memorável da temporada e o que melhor entrega a mistura de humor ácido e irônico com um comentário pertinente e relevante.

Atlanta é esperta em suas críticas, como quando decide representar Justin Bieber como um jovem negro e as pessoas não reagem ao seu comportamento do mesmo jeito, afinal, será que a mídia e o público deixaria tantas atitudes passarem despercebidas se o cantor fosse “diferente”?

O elenco também é um dos pontos altos da série. Zazie Beets faz Van, a ex de Earn, que ainda não sabe lidar com a situação, tendo uma filha para cuidar e uma carreira para manter. Brian Tyree Henry é um ator versátil e um dos mais engraçados, mas com um dilema diferente envolvendo sua imagem de rapper ameaçador. E é bom ver Lakeith Stanfield em mais produções como esta, que destacam seu talento para comédia, ao contrário de sua participação em Get Out, que foi curta e não deu tempo pra mostrar o que ele pode fazer. Felizmente, aqui ele faz Darius, o parceiro de Alfred nos negócios ilícitos, mas filósofo nas horas vagas.

Pelos apelos metalinguísticos de algumas cenas, Atlanta proporciona piadas e referências de outras séries e projetos anteriores de Donald Glover. O nono episódio, Juneteenth, traz Earn e Van em uma festa para arrecadação de fundos. Enquanto escutam o anfitrião falar sem interrupções o quanto ele adora a cultura negra (mas não parece entendê-la), podemos ver em destaque em uma estante o último álbum de Glover como Childish Gambino, Awaken, My Love, lançado em 2016. Este é um recurso visual inteligente, mas pode ser um ponto negativo para alguém que não tenha um repertório para compreender a maioria das referências, principalmente as que envolvem piadas às custas de outras produções.

Independente de qualquer coisa, esta é uma preocupação mínima quando se considera o resto da série. Atlanta tem um enredo e personagens envolventes e um trabalho fotográfico bastante criativo, é só prestar atenção no uso de cores frias em alguns ambientes menores e a iluminação minimalista no episódio mencionado anteriormente, B.A.N.. Com esta temporada podemos ver a evolução de Donald Glover como diretor, ator, roteirista e criador de uma das séries mais originais da atualidade.

Atlanta – 1ª Temporada – EUA, 2016
Criação: Donald Glover
Direção: Hiro Murai, Donald Glover e Janicza Bravo
Roteiro: Donald Glover, Stephen Glover, Jamal Olori, Stefani Robinson, Fam Udeorji
Elenco: Donalg Glover, Brian Tyree Henry, Lakeith Stanfield, Zazie Beets, Harold House Moore, Cranston Johnson, Aubin Wise
Duração: 10 episódios de aprox. 27 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie