Crítica | Atlantis: O Reino Perdido

As animações clássicas dos estúdios Disney, como A Pequena Sereia e Aladdin, estão guardadas em um lugar especial nos corações de todos os fãs. E talvez por isso, acidentalmente, outras obras se perderam em nossas memórias. Obras tão boas quanto, e em alguns casos até melhores, como a da coluna de hoje, Atlantis: O Reino Perdido. Lançado em 2001, Atlantis: O Reino Perdido foi a primeira animação Disney dentro da temática ficção científica. O filme contou com uma equipe técnica de peso, foi dirigido pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise (A Bela e a Fera), escrito por Tab Murphy (O Corcunda de Notre Dame) e produzido por Don Hahn (O Rei Leão).

A ideia surgiu durante um almoço em Burbank, Califórnia, onde os diretores e roteiristas conversavam sobre filmes de aventura que gostavam de assistir quando eram crianças. Eles haviam recentemente finalizado a produção de O Corcunda de Notre Dame e queriam tentar diferente do gênero musical. Quando contaram a ideia para os executivos da empresa, usaram a Disneyland como exemplo. Quase todos os filmes anteriores se encaixam no perfil da Fantasyland, área do parque construída para representar reinos e magia. Por que não fazer agora um filme que se passe na Adventureland? Essa parte do parque tem como tema grandes aventuras e histórias de ação, como Piratas do Caribe. Os executivos gostaram da premissa e assim começou a produção da animação que duraria quatro anos e meio.

O filme começa milhares de anos no passado, Atlântida está no ápice de seu desenvolvimento quando sua fonte de energia foge do controle e causa uma onda gigantesca. Ela se aproxima da cidade e todos correm para se proteger. A rainha, no entanto, é atraída e absorvida pela energia que paira no céu. Barreiras são criadas para proteger os atlantes e momentos depois toda a cidade é engolida pelas águas. O filme não fornece maiores esclarecimentos o que cria uma grande atmosfera de mistério na história já nos primeiros minutos. Em seguida somos levados para a cidade de Washington. O ano de 1914 foi escolhido por permitir que exista tecnologia avançada e ainda assim seja um mundo inexplorado, que justifique alguém ainda acreditar na existência de um local como Atlântida. Conhecemos, então, nosso protagonista, o linguista e cartógrafo Milo Thatch. Ele cresceu ouvindo o avô, Thaddeus Thatch, contar histórias sobre uma cidade possuidora de tecnologia avançada chamada Atlântida e nunca desistiu de encontrá-la. Passou muito tempo estudando e traduzindo livros e textos antigos e parece ter descoberto a localização do mapa até Atlântida. Mesmo com todo seu conhecimento, Milo não é levado a sério pelos intelectuais e responsáveis pelo museu, assim como seu avô não foi.  O rumo de sua vida muda quando é surpreendido por Helga Sinclair, uma linda mulher que foge de todos os estereótipos de personagens femininas Disney. Ela não é delicada e tão pouco inocente, usa roupa provocantes e ao longo do filme se mostra totalmente não-passiva. Ela leva Milo até a mansão do milionário Preston Whitmore que diz ter uma proposta para o jovem.

Durante a viagem a bordo do submarino, conhecemos os outros integrantes da equipe. Todos carregam histórias e personalidades muito diferentes das que o público está acostumado a ver em animações. Temos por exemplo Audrey, uma adolescente de origem hispânica que é a mecânica chefe; Vincezo, um demolidor italiano que quer abrir sua própria floricultura; e Doutor Sweet, um médico descendente de negros e índios que trabalhou no exército. Os personagens diversificados mostram que Whitmore, e de certa forma os roteiristas também, queria os melhores, independentemente de raça, nacionalidade, gênero ou idade. O filme é uma aula de como criar personagens femininas. Elas possuem igual importância no time se comparadas aos homens e são extremamente diferentes entre si. Em vários momentos são responsáveis por levar a trama para frente sem que pareça que foram criadas apenas para suprir algum tipo de exigência ou cota.

O linguista americano Marc Okrand foi o responsável por criar a língua de Atlântida. Ele é famoso por ter criado outra referência icônica da cultura pop, a língua dos Klingons do seriado Star Trek. Os diretores decidiram que o dialeto seria como a língua mãe de todas as outras, o que justificaria haver conhecimentos tão parecidos ao redor do mundo sem que as civilizações tenham entrados contato. John Emerson criou o design da escrita do idioma. Após vários desenhos, os diretores escolheram o símbolo que melhor representa a cidade e também a letra “A”.  Enquanto a equipe caminha até a cidade de Atlântida, o público pode apreciar alguns momentos de exposição. Os cenários criados são lindos. Atlântida tem seu próprio ecossistema, com animais que deveriam estar extintos e plantas nunca vistas. Astutamente, os diretores planejaram o ciclo da água: ela vai das cascatas e evapora ao tocar a lava sob a cidade, originava do vulcão, e retorna aos atlantes em forma de chuva. As roupas, ornamentos e construções na cidade mostram que o povo atlantis vem da união de várias culturas. As construções estão destruídas pelo tempo mas a população vive normalmente. Milo não encontrou as ruínas que procurava, tampouco encontrou uma civilização bem desenvolvida. Atlântida está no meio termo, sobrevivendo.

Enquanto assiste ao filme, a arte da animação pode causar no espectador a sensação de não estar assistindo a um filme tradicional Disney, e isso não é por acaso. Mike Mignola, quadrinista famoso pela obra Hellboy, foi o artista responsável por criar os desenhos iniciais dos cenários e personagens do filme. Seus esboços e traços definiram o estilo artístico que o filme iria seguir. Os animadores adotaram os desenhos como guia e incorporaram o estilo de Mignola nos designs e movimentos. Caricato e anguloso, o estilo diferente se encaixou muito bem com o modelo de história também nada tradicional . O filme era, na época, a maior obra Disney a usar efeitos digitais em suas cenas. A computação gráfica não está presente para impressionar, e sim, para se mesclar com os personagens e melhor contar a história. Os animadores e modeladores diminuíram as sombras de suas construções e objetos, e as contornaram para não parecerem realistas demais. Também foram usados para adicionar efeitos sutis ao longo do filme, como o reflexo da água.

Alguns podem achar que o filme é muito sofisticado e complexo para o público infantil. Mas, de acordo com os próprios diretores e roteiristas, apenas os adultos se incomodam com detalhes não explicados minuciosamente. As crianças assimilam a história e embarcam no novo mundo com facilidade. Além da trilha de Howard, o filme conta com a canção “Where The Dream Takes You“, escrita por Diane Warren e interpretada pela cantora Mya que toca durante os créditos. No Brasil, a música foi muito bem adaptada e passou a se chamar “Junto Com Teu Sonho” e foi cantada por Deborah Blando. Vale a pena conferir. Os fãs de dublagem vivem um período de muita discussão, crescemos com excelente dubladores na ativa como Marcelo Coutinho e Garcia Júnior e temos dificuldade em aceitar novos profissionais, especialmente quando se tratam de celebridades. Atlantis: O Reino Perdido, no entanto, mostra que o fato de um ator ou atriz ser ou não famoso não faz diferença. O que importa é qualidade de sua atuação e a dedicação que coloca em trabalhar seu personagem.

Alguém reconheceu a voz por trás de nossas duas personagens femininas principais? Pois elas pertencem à Camila Pitanga e à Maitê Proença. As duas fizeram um excelente trabalho, principalmente Pitanga. No original, Milo foi feito por Michael J. Fox, o eterno Marty McFly de De Volta Para o Futuro.

Atlantis: O Reino Perdido teve um baixo retorno financeiro para os estúdios, o que significa que não rendeu frutos como brinquedos e outros tipos de merchandising, mas foi indicado a vários prêmios e até mesmo conseguiu uma sequência em 2003, feita diretamente para home vídeo, Atlantis: O Retorno de Milo. Os críticos, no geral, não gostaram da obra. Julgarem o roteiro raso, medíocre, e sem público-alvo bem definido. E isso não é verdade. O público-alvo eram os amantes de aventuras clássicas como A Ilha do Tesouro e 20000 Léguas Submarinas. No entanto, esse é um grupo formado principalmente por adultos e, infelizmente, as animações continuam sendo vistas como entretenimento infantil. O filme não falhou por não conseguir atingir as crianças tão bem quanto os vendedores de brinquedos gostariam. O marketing sim, errou quando se esqueceu de atrair também aqueles que acompanham crianças.

Atlantis: O Reino Perdido tem uma história fantástica e cheia de excelentes personagens, a trilha de Howard se encaixa com a arte de Mignola e o clima de aventura somado ao uso da tecnologia para contar a história deixariam Walt Disney orgulhoso.

Atlantis: O Reino Perdido (Atlantis – The Lost Empire) – 2001, EUA
Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise
Roteiro: Tab Murphy
Elenco: Michael J. Fox, Corey Burton, James Garner, Phil Morris, Leonard Nimoy
Duração: 95 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.