Crítica | Atração Fatal (1987)

estrelas 4

Em algum momento da sua vida cinéfila você já deve ter assistido algo parecido. Homem comum se envolve com uma mulher perigosa e depois do caso aparentemente passageiro, tanto a sua vida quanto a de todos os que gravitam em torno da sua existência encontram o ardiloso e denso terreno do perigo. Baseado em um curta-metragem realizado para a TV Britânica, com direção e roteiro de Ben John Dearden, Atração Fatal é um suspense sobre obsessão e escolhas que vai fazer você ficar atento dos créditos iniciais aos finais.

A trama causou muita polêmica na época do seu lançamento. Para alguns serviu de exortação ao casamento: “marido, cuidado ao trair a sua esposa”, “executivos, tirem os olhos das suas secretárias” ou “traição não é um bom caminho”. Para outros foi um retrocesso no que diz respeito às conquistas dos direitos de libertação sexual. Fora das amarras destes problemas de ordem sociológica, devo dizer que a trama é um espetáculo no campo do suspense, com estilo vigoroso e clima atraente, o que nos faz pensar nestas problemáticas numa perspectiva paralela, sem desconsidera-las, obviamente, mas não as tornando um elemento turvo a desbancar o exercício cinematográfico dos envolvidos na produção.

Em Atração Fatal, Dan Gallagher (Michael Douglas) é um advogado comum, bem sucedido, patriarca de um lar organizado. Ele aparentemente vive bem com a sua esposa Beth Gallagher (Anne Archer), uma mulher dedicada aos cuidados domésticos e à única filha do casal. Numa ocasião, Beth precisa viajar. Assim, por conta de um descuido no campo da tentação e da virilidade, Dan envolve-se com a executiva Alex Forrest (Glenn Close), uma mulher atraente, mas emocionalmente instável e com desequilíbrio emocional que não vai aceitar ser apenas um caso passageiro, situação que colocará a vida de todos os envolvidos em perigo.

Neste trajeto, não faltam ameaças, perseguições, cenas eróticas marcantes e um clima de tensão capaz de fazer o espectador ranger os dentes. Com um texto cuidadoso, a narrativa nos descortina uma história sobre obsessão sem sutilezas, algo que colabora com a manutenção do suspense do início ao fim, estratégia que nem sempre funciona em narrativas mais contemporâneas deste estilo, geralmente apelativas e cheias de violência gratuita.

Em entrevistas, o cineasta Adrian Lyne apontou que quase todos que assistem ao filme se “colocam no lugar da amante, da esposa ou do marido, às vezes dos três. É muito mais difícil se desvincular de um filme quando se consegue a identificação com os problemas dos personagens”. Eis um dos motivos do grande sucesso do filme: o roteiro e os seus personagens. A música de Maurice Jarre estabelece o clima ideal, a montagem de Michael Kahn e Peter E. Berger é eficiente e o design de produção de Mel Bourne é dotado de uma competência absurda, no entanto, todos esses elementos não teriam o mesmo impacto caso estivéssemos diante de um roteiro ineficaz.

Como dito, um dos trunfos de Atração Fatal é o seu excelente desenvolvimento de personagens. Dan Challenger é tratado com simplicidade na interpretação de Michael Douglas, ator que não deixa o arquétipo do galã tomar conta da tela. Ele cumpre bem a missão de dar vida ao advogado comum que comete o terrível erro de ter se relacionado com a “pessoa errada na hora errada”. A sua esposa, interpretada por Anne Archer também consegue brilhar na interpretação equilibrada e sexy de uma esposa atraente e dedicada, longe do modelo de mulher descuidada fisicamente que não atrai o marido sexualmente.

Como um casal os dois brilham, mas ninguém consegue atingir o pico dramático do excelente desempenho de Glenn Close, atriz que vinha de uma série de papeis de boa moça, adornados por virtudes como a honra, o recato e o respeito. A intertextualidade com Madame Butterfly, de Puccini, surge como elemento complementar que soma bastante no processo de avanço do clima da narrativa, sem apelação intelectual em busca de uma erudição não cabível ao filme em questão.

A cuidadosa maquiagem dá o tom do seu personagem, bem como o eficiente trabalho com o figurino, pois quem observar bem vai perceber como Alex inicialmente aparece em tons claros, dando lugar para roupas mais escuras ao passo que a sua obsessão vai tomando conta da narrativa. Tal estratégia, inclusive, deu bastante certo com o personagem de Grace Kelly em Disque M para Matar, de Alfred Hitchcock, uma referência no que tange ao desenvolvimento de uma personagem representada fisicamente pelos figurinos abordados em cena.

Por falar no mestre do suspense, cabe ressaltar a sua presença em Atração Fatal. Adrian Lyne foi bastante consciente ao ter que refazer a cena final. Na versão original, Alex comete suicídio e deixa a faca com as digitais de Dan próximas, o que provoca a prisão do homem, sem chance alguma de uma digna e crível defesa. A exibição não agradou ao público teste, o que levou o cineasta e a equipe a ter de refazer o fim, desta vez, revertendo Psicose e modificando o esfaqueamento mais famoso do cinema: a cena do chuveiro. No entanto, desta vez, a loira não é a vítima, mas a “desequilibrada” com a faca.

É como Brian De Palma colocou certa vez: “lidar com Hitchcock é como lidar com Bach, que escreveu todas as melodias que se pode imaginar. Quase todas as ideias cinematográficas que já foram usadas e que ainda serão ele pensou primeiro”. Exagero ou não, uma coisa é certa: difícil não associar qualquer cena de tensão em um banheiro que não nos remeta ao clássico assassinato de Marion Crane. Para quem detém o mínimo de experiência cinematográfica, a associação é imediata. Cabe destacar também a famosa cena do coelho, um ponto da narrativa que Hitchcock provavelmente teria adorado.

A produção concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Filme de 1987, tendo ainda disputado os prêmios de Diretor, Atriz, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Edição. Atração Fatal também circulou em outras premiações, tais como o BAFTA e o Globo de Ouro, mas é na memória coletiva que o filme ganhou maiores projeções, sendo uma referência do gênero ainda bastante atual, o que deu espaço para várias produções que tentaram capitalizar em torno de suas boas ideias, como por exemplo, Obsessiva, Fixação etc., todos pouco eficientes em suas tentativas de emulação do clima de horror proposto pelo excelente trabalho de direção de Adrian Lyne e da sua equipe de colaboradores.

Atração Fatal (Fatal Attraction) – Estados Unidos/1987
Direção: Adrian Lyne
Roteiro: James Dearden
Elenco: Glenn Close, Michael Douglas, Anne Archer, Alicia Perusse, Amy Lyne, Angelo Bruno Krakoff, Anna Levine, Anne Archer, Barbara Harris, Barbara Iley, Carlo Steven Krakoff, Carol Schneider, Chris Manor, Christine Farrell, Christopher Rubin, David Bates, David McCharen, Dennis Tufano, Ellen Foley, Ellen Hamilton Latzen, Eunice Prewitt, Faith Geer, Fred Gwynne, Glenn Close, Greg Scott, J. J. Johnston, J.D. Hall, James Eckhouse, Jan Rabson, Jane Krakowski, Joe Chapman, Jonathan Brandis, Judi M. Durand, Justine Johnston, Larry Moss
Duração: 119 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.