Crítica | Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

estrelas 3,5

Uma amostra da sociedade lisboeta do século XVI, com abordagem temática que alcança o contemporâneo, haja vista tópicos que parecem nunca se esgotar: avareza, cobiça, inveja, falta de caráter, falso moralismo, dentre tantos outros. Através de uma linguagem que investe bastante na comicidade e na caricatura, Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, é uma análise ácida dos costumes, ponto alto da produção cultural de sua época, provavelmente apresentada nos salões áulicos ou pátios externos de castelos e igrejas.

Representada pela primeira vez por volta de 1530, Auto da Barca do Inferno faz parte de uma trilogia de Gil Vicente, composta também por Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória. Com referência a Caronte, figura mitológica que transportava as almas mortas pelo mar até o seu destino final, a produção não se divide nos clássicos atos e cenas, tendo seu ponto de partida em um porto imaginário, local onde se encontram duas barcas, a Barca do Inferno e a Barca da Glória, a primeira comandada pelo Diabo e a segunda por um Anjo. Sem desfecho específico e com abertura para numerosas interpretações e continuidades, sem o clímax comum aos textos dramatúrgicos.

Com a busca às indagações do homem acerca do destino imposto diante da morte, neste cenário, cada personagem discute com os tripulantes das barcas, tendo em mira, identificar os seus respectivos destinos. Num esquema bem construído de sátira social, temos um painel de figuras que representam a sociedade da época e o que se considera maus costumes: o Fidalgo, personagem que aparece com um manto e criado que o transporta numa luxuosa poltrona de espaldas, elemento que remetem a sua tirania e presunção. Por conta da sua arrogância, é condenado pela vida adornada por pecados, tal como o Onzeneiro, personagem que surge em cena com uma enorme bolsa que representando o apego ao dinheiro, e, por sua vez, a ganância e a usura. Condenado ao fogo do inferno, ele fica perplexo quando descobre que o seu dinheiro acumulado durante a vida terrena não será levado para a fase pós-morte.

O Corregedor e Procurador, representantes da magistratura, trazem consigo livros e processos. Na regra, deveriam ser exemplo de bom comportamento, mas são julgados por serem imorais, manipuladores de propina e prejudicam a justiça humana, o que os leva a condenação. O Judeu, por rejeitar a fé cristã, é muito odiado por todos, sendo julgado por não seguir os mandamentos da fé cristã. No Reinado de D. Manuel, houve perseguição aos judeus, por isso, os especialistas consideram o personagem como um dos mais emblemáticos em termos de representação histórica.

O Sapateiro representa a classe dos comerciários, tendo como destaque a sua faceta interesseira e exploradora. Desonesto, ludibria o povo e é condenado ao tentar enganar o Diabo. Brisida, conhecida por realizar pequenos furtos, além de ser prostituta, ganhou muito na vida, sendo julgada por ser considerada devassa e dona de uma vida pregressa, bem como alcoviteira e traiçoeira. O Frade representa o clero, mas nem por isso é salvo. Ele traz consigo uma moça, uma espada e um escudo. Por ter realizado as suas rezas, acredita estar livre da condenação, mas por não ser suficiente, é convidado a uma luta de esgrima com o Diabo, perde a partida e vai direto para a Barca do Inferno.

O Parvo é um dos poucos que se salva. Com atos de humildade durante toda a sua vida, representa a sinceridade, característica que lhe permite ser salvo diante de tantos outros corruptos e corruptíveis. O Enforcado é uma grande surpresa, pois chega achando que será salvo, quando na verdade é condenado, assim como os demais pecadores.

Os mediadores dos destinos dos personagens funcionam como juízes das almas, e, através dos alegóricos personagens em cena, analisam o comportamento humano pelas vias dos atos pecaminosos cometidos durante a vida terrena. O Diabo surge como o mal, o lado infernal, ruim das coisas, contraponto do Anjo, personagem do bem, representante de coisas celestes, o lado bom da vida após a morte. Hoje, pode parecer clichê, pois temos uma extensa produção cultural que secular que ainda investe neste tipo de estratégia arquétipo narrativo, o que não é ruim, mas, tal como outras obras literárias, cabe ao leitor o exercício diacrônico, tendo em vista compreender alguns mecanismos de suas respectivas épocas.

Como não podia deixar de ser, o Diabo é um personagem que se destaca, pois é zombeteiro, cheio de ironia e maledicente, faz uso da argumentação para penetrar no mais íntimo recanto da consciência humana, revelando a faceta de cada um. Considerado como um auto de moralidade, a produção visava analisar e críticas os costumes, o comportamento dos indivíduos que no final das contas, tinham uma finalidade didática. Dentro de um esquema que carnavalizava o teatro, Gil Vicente trazia a ambivalência do riso, pois nela há a negação e a afirmação, numa mistura de cultura de cunho literário, adornos eruditos e traços artesanais.

O criador deste júri das profundezas tem, tal como Shakespeare, Camões, Virgílio e outros renomados ícones do painel literário mundial, uma biografia marcada pela nebulosidade. Há incongruência, mas de fato não se pode negar a existência do dramaturgo e poeta que de acordo com o período de atuação, trafegou por uma época de novidades, com a profusão das Grandes Navegações, do expansionismo marítimo e da circulação de poderosos pelos eventos de Lisboa. Viveu entre os poderosos, mas com um “pé” no popular, conseguiu estabelecer uma tradição de erudição que lhe permitiu fugir dos cânones renascentistas que pediam ações, tempo, espaço e exigências dramatúrgicas extremamente rigorosas, sendo considerado, como nas palavras de Lênia Márcia Mongelli, professora titular de Literatura Portuguesa da USP, “o mago das entrelinhas e da sutileza”.

Testemunha ocular do fim da Idade Média, das estratégias tipográficas de Gutemberg, da presença da Inquisição e do estabelecimento do Humanismo e do Renascimento, Gil Vicente é considerado o responsável por estabelecer o teatro português, pois anteriormente o que se tinha era material de caráter religioso ou profano, com elementos rudimentares e dispersos, embrionários do que viria a ter o acabamento estético e a multiplicidade de estruturas dramáticas, como é possível observar em Auto da Barca do Inferno. O autor recebeu influências do teatro espanhol de Juan Del Encina, Lucas Fernández e Bartolomé de Torres Naharro.

Há uma pintura quase contemporânea ao texto de Gil Vicente, intitulada “Inferno” (exposta no topo da publicação), mas que não se sabe o autor, parte integrante do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, que contem as mesmas críticas sociais presentes no material literário. Tal como o Auto da Barca do Inferno, a pintura nos leva às reflexões sobre o momento cultural e religioso que vivia o povo daquele período. A produção também dialoga com Os Diálogos dos Mortos, de Luciano Samósata, pois em determinado momento de ambas as obras, fala-se da recusa de determinados elementos que podem significar distinção social na vida terrena, mas que no julgamento final, não fará nem um pouco de sentido.

Auto da Barca do Inferno
Autor: Gil Vicente
Editora: Ática
Tradução/Adaptação:  João Domingues Maia
Páginas: 100

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.