Crítica | Avanti

estrelas 3

Nenhuma família está livre de um ponto de ruptura. Por mais equilibrada e aparentemente normal que seja, a família é uma instituição formada por pessoas que acreditam em coisas diferentes e que a cada geração tomam diferentes caminhos. Mas o que fazer quando esse ponto de ruptura vem a partir de uma doença de um dos membros? E o que fazer se essa doença é a loucura?

Com base nessas perguntas, a cineasta Emmanuelle Antille construiu o roteiro de seu primeiro longa-metragem, o mediano Avanti (2012), obra de forte teor familiar que abarca uma história sensível e tocante, mas apresentada de maneira quase displicente, um tanto casual e silenciosa demais para a densidade do tema. A despeito disso, Avanti pode gerar uma ótima discussão que envolve pais, filhos, irmãos e cônjuges: quando chega o momento do abandono de um familar?

A jovem diretora, que também assina o roteiro, nos conta a história de uma jovem que há muito saiu das graças da família, principalmente do pai, e que mantém como único contato afetivo – e ainda assim, extremamente complexo – a mãe, que passa parte da semana internada em um clínica de repouso, porque já apresenta sinais de demência. Interpretada pela veteraníssima e sempre bela Hanna Schygulla, a mãe é certamente o grande destaque do filme. O primeiro motivo, é claro, vem da qualidade de interpretação da atriz. O segundo motivo é que a parte do roteiro dedicada à mãe foi muito bem escrita e conta com uma composição psicológica complexa e bem estruturada.

Um fato interessante a que podemos aludir é o poder que essa mãe tem de influenciar a vida da filha. A partir de algumas cenas de explosões emocionais da jovem, percebemos que essa atitude mais dominadora – que é substituída por uma atitude de subserviência quase caricata na senilidade – sempre esteve presente na mãe, mas que agora ela parece não fazer muita ideia de que ainda tem o poder de incomodar, mover e demover a filha de seus pensamentos e ações. Isso é tão forte, que a jovem está gravando um filme sobre a mãe e passa horas editando momentos felizes da vida da família num passado fotografado em 16mm e Super8, trazendo fotografia saturada e de cores quentes, um contraste visual imediato entre o presente mais opaco e de cores difusas, tal como o estado de espírito da família nesse atual estágio de convivência.

O que incomoda o espectador é que a diretora optou por uma exposição mais distante, quase a observação de um diário familiar. Não há história, por assim dizer. Ou pelo menos não há uma linha narrativa evidente costurando os acontecimentos familiares. O próprio objeto do filme se guia: a mãe surta, a filha surta, o pai domina, a tia grita, a avó amarga recordações de um abandono no passado. Por um lado, isso não é de todo ruim. Há diversos exemplos no cinema de retratos pessoais em um filme sem linha narrativa, como a maior parte dos filmes feministas de Agnès Varda ou alguns curtas do casal Straub e Huillet. Mas aqui a posição das personagens e o trato com a trama central não cabem no modelo mais vanguardista dos cineastas citados. O resultado é um filme cuja proposta é mais interessante que o produto em si, embora isso não seja critério para que o espectador descarte de todo a obra.

Emmanuelle Antille faz uma estreia interessante no cinema. Um tanto relutante, talvez, mas mesmo assim, interessante. Seu filme nos mostra uma realidade vivida por muitas famílias e expõe de maneira bastante peculiar as relações familiares em nosso século, embora esse comportamento da separação do inútil, do louco, do a-social não seja de nosso tempo. Avanti expõe uma ferida familiar cuja tendência é aumentar durante os anos. O egoísmo e a impessoalidade do homem, sua proximidade com a máquina e a vida cada vez mais objetiva das grandes metrópoles não dá espaço para o trato dos doentes no meio dos sãos. A reflexão é pesada, mas pertinente, e com certeza é um dos grandes pontos que a diretora apresenta na discussão à sua obra.

Avanti (2012) – Suíça, Bélgica, 2012
Direção: Emmanuelle Antille
Roteiro: Emmanuelle Antille
Elenco: Hanna Schygulla, Nina Meurisse, Jean-Pierre Gos, Miou-Miou, Frank Arnaudon, Raphael Bonacchi, Olivier Yglesias
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.