Crítica | Avatar

estrelas 4

Depois de assistir Avatar pela enésima vez para escrever a presente crítica, fiquei  pensando no que eu poderia escrever que já não tivesse sido escrito aos borbotões por milhares de pessoas – críticos ou apenas curiosos – sobre o filme. Depois de muito pensar resolvi começar pelas duas coisas que se fixaram em minha mente ainda quando vi a obra de James Cameron pela primeira vez, ainda nos cinemas, quando de seu lançamento original: Robert Zemeckis e Dança Com Lobos.

E alguns de vocês vão me perguntar o porquê, tenho certeza.

Vou começar por Robert Zemeckis. Eu o considero um excelente diretor, que nos brindou com obras como Uma Cilada Para Roger Rabbit, a trilogia De Volta para o Futuro, Forrest Gump e Contato. A questão é que, a partir de 2004, Zemeckis resolveu fazer extenso uso da tecnologia conhecida inicialmente como “captura de movimento” mas que, hoje, desenvolveu-se para “captura de performance”, diferença importantíssima, vale frisar. Usada de forma magistral na trilogia O Senhor dos Anéis, com a transformação de Andy Serkis em Gollum, abriu caminho para o personagem 100% digital, permitindo que King Kong, Caesar e outros fossem brindados com efetivas atuações e não apenas um desenho digital.

Acontece que Zemeckis é um diretor apenas, alguém que aparentemente não se enfronha na tecnologia como Peter Jackson ou James Cameron fazem. Tenho para mim que ele apenas recebe um produto pronto e faz seus filmes como o que está disponível. É por isso também que o nome de Robert Zemeckis se fixou em minha mente: ele jamais conseguiu, mesmo depois de três tentativas seguidas, chegar aos pés do que Peter Jackson já havia conseguido antes dele e que James Cameron conseguiu elevado à décima potência com Avatar.

O Expresso Polar, Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge não conseguem arranhar a superfície do que Cameron fez com seu mundo virtual em Avatar. Beowulf, por ser um filme de fantasia, mas calcado em fotorrealidade, talvez seja o exemplo mais gritante. O que Zemeckis conseguiu foi criar um monte de “corpos sem alma” que se movimentam pela tela. O que Cameron fez foi efetivamente criar um mundo que você acredita que existe e personagens completamente digitais com quem você efetivamente se sente confortável, como se humanos fossem. Os Na’vi de Cameron são seres que respiram como nós e atuam como os melhores atores. Sam Worthington (Jake Sully) e Zoe Saldana (Neytiri), mesmo admitindo que o primeiro tem grandes limitações dramáticas, só para usar um eufemismo, atuam na pele de seres azuis de três metros de altura e feições felinas como qualquer outro ator atuaria normalmente. Cameron conseguiu, em um filme apenas, o que Zemeckis não conseguiu nem de longe e com muita boa vontade com três filmes (ok, James Cameron teve mais dinheiro que Zemeckis, mas convenhamos que, somadas as três tentativas de Zemeckis, os dois igualam o orçamento).

E, repetindo, creio que a maior razão para isso ter acontecido é que James Cameron é um diretor, mas também e originalmente, um técnico, alguém efetivamente envolvido na tecnologia utilizada em seus filmes.

Mas vamos ao meu segundo pensamento após o fim de Avatar: Dança Com Lobos. Esse fenomenal épico de 1990, estrelado e dirigido por Kevin Costner, e que arrebatou todos os Oscar da época, conta a história de um soldado da guerra civil americana que é enviado para um posto no fim de mundo do oeste. Lá ele, relutantemente, se envolve com os indígenas, apaixonando-se por uma bela nativa já prometida em casamento para o grande guerreiro da tribo. Ao longo do tempo, ele se deixa envolver pela beleza da cultura da tribo e da nativa, chegando ao ponto de se voltar contra seus pares da “civilização” em defesa do grupo que o aceitou como um dos seus. Esse filme moderniza a história de Pocahontas e John Smith, tão importante para os americanos e é, basicamente, uma “história padrão”, repetida milhares de vezes em diferentes filmes.

O que James Cameron fez foi pegar Dança Com Lobos ou Pocahontas e literalmente lançá-los ao espaço. Jake Sully, ex-marine, depois do falecimento de seu irmão gêmeo cientista lotado no planeta Pandora (nome nada sutil, aliás), o substitui no projeto Avatar. Esse projeto pode ser resumido na transferência da mente humana para um clone de humano com Na’vi (daí a importância de se usar o mesmo DNA) para que seja possível que os humanos se infiltrem na cultura indígena do planeta e consigam negociar um acordo (o ar de Pandora é tóxico para os humanos). O que querem os humanos? Ora, um minério chamado Unobtainium (outro nome nada sutil, mas que funciona), que existe em vastas quantidades exatamente onde a tribo local vive. Jake Sully, sendo um ex-marine (“ex”, pois ficou paraplégico em sua última missão), consegue se infiltrar na tribo e começa a agir como um agente duplo, até que seus instintos primordiais o colocam ao lado dos nativos e de seu amor Neytiri (Zoe Saldana). As coincidências com Dança Com Lobos vão até mesmo ao detalhe da caracterização do guerreiro nativo a quem Neytiri é prometida.

E a pergunta que fica e que muitos por aí fazem é: isto, afinal, é um problema?

Não exatamente, mas a simplicidade do roteiro impede Avatar de ser uma obra-prima absoluta em todos os aspectos. A ficção-científica é pródiga em histórias que desafiam o espectador, como os clássicos 2001: Uma Odisseia no Espaço e Solaris, assim como o recente A Chegada, e esse desafio é inexistente aqui, ainda que ele não seja nem de longe essencial para que a história seja bem contada, como de fato é.

De toda forma, diria que a escolha de uma linha narrativa menos complexa, com diálogos bem mundanos (em alguns momentos deu vontade de desligar o som) foi deliberada por parte de James Cameron. Avatar é um show de imagem e som dos mais inacreditáveis já colocados em uma tela de cinema. É algo que não se via há tempos antes dele desembarcar nas salas de cinema do mundo: uma experiência cinematográfica completa. Perder Avatar no cinema é perder um importante capítulo da Sétima Arte, arriscaria afirmar sem muito medo de errar.

Cameron não lançava um filme de ficção desde seu mega-sucesso Titanic, de 1997. Como todo mundo sabe, Titanic tinha o posto de maior bilheteria mundial (não atualizada pois se for atualizada a bilheteria de E o Vento Levou leva a taça) do cinema. Titanic é, também, assim como Avatar, superlativo em tudo: custou 200 milhões de dólares, o maior orçamento da época, contou com um réplica quase exata do Titanic que Cameron teve o prazer de destruir ao final, estourou todos os orçamentos, com Cameron abrindo mão de seu salário inicial e por aí vai.

Antes de Titanic, Cameron tinha em seu currículo apenas outros seis filmes de ficção para o cinema: Piranha 2 (seu début e uma trasheira); O Exterminador do Futuro, um dos mais brilhantes filmes de ficção científica de todos os tempos; Aliens – O Resgate, outro filme que concorre ao posto de um dos mais brilhantes de ficção científica de todos os tempos; O Segredo do Abismo, que pessoalmente considero a verdadeira obra-prima do diretor e que trouxe, pela primeira vez, o uso da tecnologia digital de forma arrebatadora ao cinema; O Exterminador do Futuro 2, outro concorrente aos melhores da ficção científica de todos os tempos e o filme que introduziu de vez a computação gráfica ao cinema mainstream e True Lies, ótima comédia de ação, com o astro de Exterminador. Com esse currículo invejável, a tensão pela espera de Avatar era grande, especialmente quando o próprio Cameron, nada humilde (e, na posição dele, humildade é incompatível), declarou que seria o filme que mudaria o Cinema.

Bom, Avatar não necessariamente mudou o Cinema como arte, mas definitivamente mudou o cinema comercial e a forma como efeitos especiais são feitos e pensados. James Cameron sempre se esmerou no lado espetacular de seus filmes e Avatar é o ponto alto de sua carreira nesse sentido estrito. Não é um filme melhor que os dois Exterminadores e Aliens, mas certamente é uma obra-espetáculo que ataca sensorialmente o espectador de forma nunca antes vista. Feito para ser apreciado em sua plenitude em 3D, o filme envolve o espectador de maneira absoluta, fazendo-o acreditar estar em Pandora, vivendo com os Na’vi. As cores são vibrantes, o planeta respira, você vê que há coesão até mesmo biológica naquilo que foi criado (por exemplo, todos os animais selvagens têm seis pernas). As plantas são de detalhes impressionantes e os nativos são tão fotorrealistas como se Cameron simplesmente tivesse filmado “em locação”, com os “nativos verdadeiros”. Claro que, o lado negativo disso tudo é que o 3D tornou-se padrão na indústria e filmes que não precisavam ser 3D passaram a ser convertidos somente para que fosse possível cobrar mais um trocados a cada ingresso, banalizando o uso completamente.

Assim, se antes era possível criar um blockbuster desse tipo com efeitos apenas razoáveis, Avatar tornou-se o novo sarrafo tecnológico – hoje já ultrapassado, claro. Mas o destaque maior vai mesmo para a tecnologia de “captura de performance”, que resolvi apelidar de “Zemeckis-killer”. Como dito, os detalhes são impressionantes e nada mais justifica o uso de maquiagens extremas em atores. A “captura de performance” foi efetivamente catapultada à algo realmente viável em larga escala, ganhando novos exemplares a cada ano que passa.

Como muitos críticos disseram, se retirarmos os efeitos e o espetáculo de Avatar, sobra um históriazinha muito simples, rasteira e nada original. Ora, se retirarmos as piadas de Se Beber, Não Case, não sobra nada da história. Se retirarmos a aventura de Indiana Jones, também nada resta. Acontece que o deslumbramento por Pandora e tudo que lá vive é parte tão integral de Avatar que críticas como essas não fazem o menor sentido. Cameron escolheu uma vitrine para suas criações e essa vitrine foi definitivamente a de uma loja simples, que não chama mais atenção do que o que está exposto. A escolha foi cirúrgica e perfeita, pois o filme, apesar de seus 160 minutos, não é arrastado e não sofre sequências desnecessárias. O que Cameron podia ter evitado é a narrativa de Jake Sully, pois ela é didática demais para uma história para lá de óbvia.

Alguns também dizem que o filme é exageradamente ambientalista, até “ecochato”. Outra besteira. Não há dúvidas que o filme é mesmo ambientalista e que, de certa forma, assim como Dança Com Lobos, é um pedido de desculpas pelas enormes cavalices ambientais feitas pelos Estados Unidos, mas dizer que isso é um aspecto que retira a qualidade do filme é de uma falta de visão inacreditável. Trata-se de uma mensagem apenas, mas o filme pode ser visto como sendo um filme de ação sobre a luta de seres de carne e osso contra a tecnologia, exatamente da mesma forma que Exterminador do Futuro 1, 2 e Aliens também podem ser interpretados como sendo.

Avatar, hoje, pode ser visto com certo grau de desdém, mas não há dúvidas que James Cameron sabe, como quase nenhum outro diretor, transformar o banal em espetáculo, o simples em maravilhoso. E Avatar é, queiram ou não, uma experiência inesquecível.

Avatar — Estados Unidos, 2009
Roteiro: James Cameron
Direção: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel David Moore, Wes Studi, Laz Alonso, Dileep Rao
Duração: 162 minutos.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.