Crítica | Aventuras de Robinson Crusoé

estrelas 4

Todo mundo conhece a história de Robinson Crusoé, não é mesmo? O clássico do jornalista e escritor britânico Daniel Defoe, publicado pela primeira vez em 1719, está inserido profundamente no imaginário popular e, mesmo aqueles que não leram o original (e/ou suas continuações), sabem o básico da história do náufrago que passou quase três décadas perdido em uma ilha deserta tendo como companheiro apenas um nativo de uma ilha próxima batizado de Sexta-Feira como companheiro.

Mas muito pouca gente sabe que o improvável Luis Buñuel dirigiu e co-escreveu um filme adaptando o romance. Trata-se de seu primeiro filme integralmente falado em inglês, ainda que ele tenha filmado, na verdade, duas versões simultâneas, sendo a segunda em espanhol. A produção foi extremamente complicada, começando em 1952 e só acabando em 1953 – um tempo considerável, já que as obras de Buñuel em sua fase mexicana eram feitas muito rapidamente, em questão de semanas. Além disso, apesar de mexicano em origem, o filme estreou primeiro nos Estados Unidos, já que a United Artists adquiriu os direitos mundiais de distribuição da fita.

Até a contratação de Dan O’Herlihy, que lhe faria concorrer ao Oscar de Melhor Ator em 1955, foi extremamente complexa, com mais de 300 candidatos para o papel, dentre eles o favorito dos produtores, ninguém menos do que Orson Welles! Mas Buñuel insistiu em O’Herlihy e acabou tirando dele uma atuação realmente memorável e convincente.

Afinal de contas, se O’Herlihy não funcionasse, o filme naufragaria como o protagonista. Dois terços da projeção dependem só do ator, sozinho, contracenando com animais (especialmente um cachorro e um papagaio) e falando algumas poucas linhas aqui e ali, em um processo de solidão cada vez mais aguda e, claro, loucura. Assim como no livro, a narrativa é do próprio Crusoé depois de sair da ilha e tudo que vemos é um grande e detalhado flashback. Fica evidente para o espectador que Crusoé é um filho de nobres ingleses que nunca sequer teve que se aproximar de uma cozinha ou de qualquer tipo de afazer menos “importante” do que viver a vida de um rico mimado. Mas Crusoé, para desgosto do pai, sai em viagem pelo mundo e, no caminho do Brasil para a Europa, acaba sendo o único sobrevivente de um naufrágio.

Crusoé, então, apesar da situação desesperadora, começa a tentar recriar os confortos de seu lar original na ilha perdida no Atlântico. Com muita “tentativa e erro”, ele faz roupas, cria ovelhas, planta trigo e, obsessivamente, tenta assar pão. Aos poucos, seus companheiros animais vão morrendo e, em determinado momento ele se encontra só, apenas com sua própria voz ecoando em um vale como companheira.

Essa solidão o transforma em um ermitão barbudo, com aparência de urso, até que um dia ele salva um nativo canibal trazido para a ilha por seu povo para virar churrasquinho. Crusoé, batizando-o de Sexta-Feira (Jaime Fernández, que, assim como o personagem, não falava uma palavra de inglês e foi aprendendo na medida em que o filme era rodado), ganha um servo e, depois um amigo, demonstrando, com isso, que o companheirismo pode salvar vidas.

Só que estamos falando de Luis Buñuel não é mesmo? Sendo assim, não esperem a narrativa padrão de uma mera adaptação do romance original. Buñuel trabalha muito bem a relação de pai e filho em seu filme, assim como a fuga para a religião.

No quesito pai e filho, o que vemos é um Crusoé que passa todo o início do filme tentando se provar para um pai que sequer vemos na tela, mas que está presente o tempo todo. Ele está nessa situação porque desafiou o pai e não quer dar o braço a torcer, trabalhando para trazer a civilização para seu pitoresco local selvagem. E, quando doente, finalmente vemos o confronto de pai e filho, em uma alucinação orgânica dentro da narrativa, que acaba fechando o círculo. Esse trecho, absolutamente inexistente no romance original, é puro Buñuel e dá um toque todo especial ao filme, já que acrescenta mais camadas aos perturbado subconsciente do protagonista.

A fuga para a religião é outro aspecto bem trabalhado por Buñuel. Crusoé só tem a Bíblia para ler e, como cristão fervoroso, lê suas passagens para si mesmo e reza alto, para ouvir o eco rezando para ele. Será que é o jeito de Buñuel de dizer que rezar é um ato vazio, uma conversa do homem com o homem e que uma força maior não existe? Essa dúvida fica sem elucidação. Mas Buñuel vai além na provocação, quando Sexta-Feira entra na película.

Como todo bom cristão, Crusoé parte para catequizar o “selvagem”, depois que ele o ensina a falar inglês (já que Crusoé aprender a língua do nativo é algo impensável, não é mesmo?). E, no processo, pegando-o completamente de surpresa, Sexta-Feira faz indagações interessantíssimas sobre Deus e o Diabo. Porque Deus, que é tão poderoso, permite que o Diabo exista? Se o Diabo existe para que o Homem possa escolher entre o certo e o errado, então isso não quer dizer que Deus é responsável por todo o mal que existe? Mais perguntas sem respostas adequadas e mais uma forte alfinetada de Buñuel na questão religiosa e, de quebra, na relação entre amo e servo, entre burguesia e proletariado.

Filmado em Pathécolor, as cores da fita são fortes demais, passando uma impressão de desolação total mesmo quando imagens paradisíacas são mostradas. Essa saturação não funciona todo o tempo e as flutuações de cores são uma constante, especialmente nas tomadas noturnas, mas essas falhas até podem ser perdoadas (além de também poderem ser fruto da minha cópia que não é tão boa assim) diante do que Buñuel consegue fazer com a já conhecida história.

O conhecimento geral da história de Robinson Crusoé pode até diminuir a curiosidade de muitos por esse filme, mas não deveria. Trata-se de um dos trabalhos mais interessantes de Buñuel em sua fase mexicana, tanto pelos percalços na produção como por sua “buñuelização” da narrativa e pela atuação de O’Herlihy.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.