Crítica | Aventure Malgache / Bon Voyage

Os dois curtas dirigidos em 1944 por Alfred Hitchcock para o Ministério da Informação inglês permaneceram fora do alcance do público até o início dos anos 1990. Ambos são propagandas políticas das forças aliadas destinadas à França e se passam em período de guerra.

Aventure Malgache

estrelas 2,5

O primeiro curta nos mostra o ator francês Paul Clarus em uma conversa com os Moliere Players, que trabalham junto dele, pouco antes de uma apresentação. O ator, para ajudar o colega a entrar em seu personagem acaba lembrando de seus tempos na resistência em Madagascar e de um particular oficial da França de Vichy que quase o levou à pena de morte.

Hitchcock conduz a história através de flashbacks, fazendo algumas poucas retomadas ao presente a fim de situar o espectador na história. Os momentos narrados funcionam, dando o tom de nostalgia do personagem. Ao mesmo tempo, contudo, a imersão do espectador é prejudicada, de forma que não sentimos um real perigo na história de Clarus.

Apesar deste ser um filme-propaganda fica clara a tentativa do diretor de colocar as marcas que o tornaram famosos ao longo de sua filmografia. Tal tentativa, porém, acaba falhando em maior parte do filme, ao passo que a própria trama não funciona ao seu favor. A propaganda ocorre de forma óbvia, enaltecendo os aliados em diversos pontos do filme.

Aventure Malgache, portanto, é um filme que cumpre seu papel estabelecido, mas que deixa a desejar no sentido artístico. Vemos poucos elementos que dão força à narrativa e mesmo a fotografia não consegue fugir do comum, torando este um curta dispensável, desejável apenas para quem realmente almeja assistir toda a filmografia de Hitchcock.

Aventure Malgache (idem) – UK, 1944
Direção: 
Alfred Hitchcock
Roteiro: Jules Francois Clermont
Elenco: Paul Bonifas, Paul Clarus, Jean Dattas, Andre Frere, Guy Le Feuvre, Paulette Preney
Duração: 32 min.

Bon Voyage

estrelas 4

 Se Aventure Malgache é uma verdadeira propaganda política, então Bon Voyage é um verdadeiro filme do mestre do suspense. Assim como o outro ele é contado através de flashbacks. Dessa vez, porém, a história é dividia em duas partes. Primeiro ouvimos (e vemos) os relatos de um escocês da RAF que, junto de um companheiro, procura escapar da França ocupada pelos nazistas. Em seguida a mesma trama nos é recontada, porém com um plot twist que acaba definindo o suspense da obra.

Ao se ver Bon Voyage fica claro o porquê deste filme não ter sido exibido como propaganda aliada – mesmo após o segundo contar da história não fica explícito qual das versões é a verdadeira (embora a segunda ganhe bastante destaque). A divisão em duas partes funciona quase como uma mostra de independência do diretor, ao passo que a primeira é a propaganda e a segunda é seu toque, sua marca.

Neste mesmo a fotografia e montagem são bastante diferenciadas e podemos observar a presença de closes no rosto de personagens e até mesmo uma temática que se encaixa melhor na filmografia de Alfred, exibindo toques de ironia que se evidenciam inclusive em seu título. É um curta que mantém o espectador preso a partir de seu plot point e definitivamente merece seu lugar dentre as obras do mestre do suspense.

Bon Voyage (idem) – UK, 1944
Direção: 
Alfred Hitchcock
Roteiro: Angus MacPhail, J.O.C. Orton
Elenco: John Blythe, The Molière Players
Duração: 26 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.