Crítica | Aviso aos Navegantes

estrelas 2,5

As chanchadas brasileiras possuem um especial encanto. Uma mistura de elementos hollywoodianos e carnaval brasileiro, os filmes chanchadescos se caracterizam especialmente por seu viés musical e dançante, seus temas-comédia e as questões sociais muito evidentes: as classes, a busca pela ascensão, o poder do dinheiro, a malandragem. Criticados pelos cineastas do Cinema Novo como alienantes, esses filmes foram empurrados para o limbo da memória cinematográfica, e até mesmo os diretores pareciam ter vergonha de admitir terem dirigido chanchadas. Embora a maior parte dessas obras não seja boa, é interessante observamos como o imaginário popular recebia cada novo lançamento, como as músicas tornavam-se destaque no Carnaval, e como os cinemas lotavam as salas que exibiam esses filmes – algo que se perdeu completamente na década de 1960, com a “nova visão” dos cinemanovistas.

Aviso aos Navegantes (1950), de Watson Macedo, é uma das mais populares e queridas chanchadas da história da Atlântida, o estúdio que mais produziu esse tipo de filme. Com um elenco de atores muito queridos do povo brasileiro na época, e tendo a impagável dupla Oscarito e Grande Otelo no meio da confusão, o filme é um dos mais representativos do período. Praticamente todo filmado em internas, Aviso aos Navegantes é a história de um navio cheio de artistas que parte de Buenos Aires em direção ao Rio de Janeiro. A bordo, há o príncipe Suave Leão, o Professor Scaramouche, um clandestino sem passaporte, dentre outros curiosos tripulantes. No meio da viagem, descobre-se que há um espião no navio, e uma longa e disfarçada caçada é empreendida. Além disso, desencontros amorosos, intrigas, e outros tropeços que servem de motor para a narrativa, acontecem. O filme intercala cenas de ação e suspense com número musicais completamente injustificáveis. Apesar de ter momentos extremamente criativos e delirantemente engraçados (como Oscarito vestido de rumbeira e dançando para uma grande plateia), a película é terrivelmente mal filmada, as coreografias muito feias (com exceção a da música Marcha Soldado), e a enorme quantidade de músicas faz o filme ser desnecessariamente muito longo.

Quando analisamos um filme, é necessário que levemos em conta as particularidades do gênero, do diretor, país e ano de produção, etc.. Analisar uma chanchada e usar as músicas como elemento catalisador da perda de qualidade do filme – como fiz ao fim do parágrafo anterior – parece loucura. No entanto, diversas outras chanchadas conseguem agradar e divertir o espectador mais exigente sem o excesso (e essa é a minha queixa) que temos no filme de Macedo. Obras como De Vento em Popa (1957) e Pintando o Sete (1959), ambas de Carlos Manga, são muito boas e nada entediantes. O problema de Aviso aos Navegantes está no excesso de músicas e no esburacado roteiro, que termina por deixar de lado várias situações propostas no roteiro, além de forçar um final súbito para a história que chega a ter momentos de delicioso entretenimento.

O caos é a premissa de qualquer chanchada, e aqui, essa exigência se dá também através de um deslocamento comportamental da sociedade. Em seu livro O Mundo Como Chanchada, Rosângela de Oliveira Dias chama atenção para o fato de os filmes chanchadescos apresentarem o desvirtuamento de valores como algo natural, do mesmo modo que o ócio, a malandragem e a vida fácil. Assim, entendemos personagens como a mulher forte e dominadora, a presença de um conquistador afeminado, etc.. A resolução do caos, no entanto, não é necessário, contanto que o mal seja vencido ou punido no final.

Embora conquiste o espectador, não vejo Aviso aos Navegantes como um filme que se sustenta plenamente, e permanece encantador do primeiro ao último minuto. Já citei alguns motivos que fazem-no enfadonho, e de como o excesso, comparado a outras chanchadas, torna-se quase chocante. Mesmo assim, trata-se de um obra do cinema brasileiro que é muito querida, e com certeza merece ser vista. Mas já adianto: embora faça rir e tenha algumas maravilhosas sequências, o filme não é uma obra-prima entre as chanchadas. Não foi aqui que Watson Macedo acertou de todo a mão.

Aviso aos Navegantes (Brasil, 1950)
Direção: Watson Macedo
Roteiro: Alinor Azevedo, Watson Macedo e Paulo Machado
Elenco: Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Eliana Macedo, José Lewgoy, Zezé Macedo, Sérgio de Oliveira, Glauce Rocha, Mar Rúbia, Emilinha Borba, Ivon Cúri, Adelaide Chiozzo, Cuquita Carballo
Duração: 111min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.