Crítica | Azul é a Cor Mais Quente

estrelas 4

Ganhador da Palma de Ouro de Cannes por direção e, pela primeira vez na história do festival, o de atriz para as duas atrizes principais, Azul é a Cor Mais Quente tornou-se mais conhecido, talvez, pela lendária cena de sexo explícito entre duas lésbicas. Mas o mérito da fita vai muito além da premiação ou dessa cena, que realmente existe, é longa, mas não é exatamente explícita, ainda que chegue bem perto.

Baseado em uma graphic novel francesa de autoria de Julie Maroh que a escreveu a partir de seus 19 anos e levou cinco anos para terminar, o filme é uma bela história de amor, amadurecimento e descoberta da sexualidade. A produção foi cheia de percalços pelo alegado pulso extremamente forte do diretor tunisiano Abdellatif Kechiche, que teria levado as duas atrizes à loucura, ao ponto de elas afirmarem, com todas as letras, que jamais voltariam a trabalhar com ele.

Mas Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux podem reclamar o que quiserem – provavelmente com razão – mas o resultado desse certamente intenso trabalho de Kechiche são duas das melhores atuações do ano. Talvez os fins não justifiquem os meios, mas a verdade é que os grandes beneficiados foram os espectadores, especialmente aqueles que conseguirem ver por cima da tão comentada “cena de sexo gay”.

Exarchopoulos faz o papel de Adèle, uma estudante que, um dia, vê uma jovem de cabelos azuis no meio da rua. Olhares se cruzam, mas nada é dito. Tempos depois, levada a um bar gay por seu amigo Valentin (Sandor Funtek) ela inicia um tórrido romance com essa jovem, que descobre ser Emma (Seydoux), artista e estudante de Belas-Artes. E o filme é “apenas” isso, como o título em francês deixa claro (“A Vida de Adèle”): a vida de uma menina que descobre quem é, se apaixona e vive sua vida ao longo de mais ou menos dez anos. Não esperem reviravoltas, surpresas ou tragédias no sentido mais comum da palavra. A fita é a vida como ela é.

O trabalho do diretor é fenomenal em dois aspectos principais: na extração de atuações vívidas e perfeitamente críveis de suas atrizes e no trabalho de passagem de tempo. Abusando de uma câmera intrusiva, cheia de close-ups extremos, Kechiche dificulta ao máximo possível a vida das duas atrizes, escrutinando cada milímetro de suas feições a todo o momento. Planos e contraplanos não deixam nada escapar e dá para imaginar as razões da briga entre ele e as atrizes. Só que, ao mesmo tempo, o resultado é natural, simples e muito bonito, ainda que tenhamos que ver os hábitos alimentares um tanto, digamos, primitivos, de Adèle e uma certa quantidade de líquidos viscosos saindo de seu nariz nas cenas de choro. Mas é como eu disse: a vida como ela é.

Adèle, apesar de interessada em leitura, não tem a sofisticação de Emma. Quando, no início, a vemos com um jovem que ela só namora em razão do “incentivo social” de suas amigas, o contraste entre os interesses rasos do jovem e os dela, ficam patentes. Mais para frente, porém, é a vez de Adèle se sentir um peixe fora d’água, quando, em uma festa, é apresentada aos amigos de Emma, todos eles “especialistas em tudo” como ela diz. É uma crítica velada, no roteiro, ao pedantismo de alguns artistas e intelectuais, que funciona organicamente dentro da história maior.

A sexualidade é tratada literalmente como uma grande descoberta. Adèle não sabe o que tem de “errado” com ela e seu providencial passeio por bares gays acaba fazendo com que ela descubra Emma, que é assumidamente lésbica. O namoro começa naturalmente, ao longo de diversas sequências e realmente se consuma na tão propalada e “apontada” cena de sexo (esperem gente saindo do cinema nesse momento…).

Muitos disseram que a cena é longa, desnecessária, explícita demais. No entanto, em um filme com quase três horas de duração, uma cena de 10 ou 15 minutos de sexo semi-explícito não é tão longa assim. Mas claro, foi uma escolha do diretor, sua forma de representar muito claramente a “explosão sexual” de Adèle, sua descoberta interior. É também uma forma de desnudar preconceitos, de derrubar barreiras, de literalmente enfrentar a tudo e a todos. Chama atenção pela plasticidade e sim, pela beleza das atrizes, mas a sequência é convincente e bem inserida na narrativa e serve de ponto de virada no relacionamento e na vida das duas.

Adèle, reservada, mantém sua relação com Emma escondida, mas o contrário não é verdadeiro. Acontece que o roteiro não condena nem um comportamento nem outro. Ao contrário, há respeito e compreensão nos dois lados e, se pais mais conservadores ou a profissão de uma delas (Adèle passa a ser professora de maternal depois que se forma na escola) não casa muito bem com sexualidade fora do que ainda se pode chamar de “padrão aceito pela sociedade”, então para que revelá-la? O diretor prefere seguir o caminho do equilíbrio e mostrar a vida de um casal comum, como outro qualquer, que tem seus segredos e seus problemas.

E isso se dá ao longo de algo como uma década. Apesar da exata quantidade de tempo nunca ficar clara – e isso nem é necessário – o diretor e dos montadores (são cinco) fazem um excelente trabalho de montagem que, sem ser escancarados, fazem a sensação de passagem de tempo ser absolutamente irretocável. Há tempos não via maneira tão sutil e eficaz de mostrar a evolução de personagens e é até difícil colocar em palavras. São pequenos detalhes, na verdade. A montagem eficiente, que sabe quando corta e sabe que cena trazer no momento seguinte, beneficiando o filme maravilhosamente. Mas o trabalho com o cabelo de Adèle – rebelde no começo e progressivamente adulto até se tornar uma “arma” de sedução mais para o final – e com as atrizes é de se tirar o chapéu. Exarchopoulos literalmente amadurece e cresce diante de nossos olhos. De menina no começo, ela é uma mulher no final. Seydoux também. De mulher meio “porra louca” no início, com seu marcante cabelo azul, ela toma um ar profissional e sério que é admirável e, de certa forma, inesperado.

A câmera nervosa do diretor, que acompanha os movimentos das atrizes e, às vezes, está alguns milissegundos atrasada para chegar onde tem que chegar, mantém a energia cinética do filme e invade a intimidade dos personagens. Isso auxilia na passagem do tempo e, também, nas cenas mais movimentadas, como as transas e as brigas, fazendo com que as três horas de projeção passem de maneira fluida, sem que olhemos para o relógio.

Mas, como nem tudo são flores, incomodou-me um pouco o didatismo de algumas cenas, especialmente uma das primeiras sequências, em que vemos Adèle em sala de aula e o professor perguntando que tipo de sentimento poder-se-ia ter em situações como a de amor à primeira vista. Um dos alunos responde “arrependimento” e explica que não falar com a pessoa por quem se apaixona pode gerar esse sentimento. Feito isso, pimba!, logo acontece a cena em que Adèle passa por Emma, elas trocam olhares, mas nada é dito.

O mesmo vale para o primeiro beijo lésbico de Adèle. Ele acontece assim, sem mais nem menos, em um daqueles momentos “o que está acontecendo?” que são inexplicáveis na textura do filme. Ok, ela começa a ficar curiosa e talvez entender que seu desinteresse por homens venha de seu interesse por mulheres, mas e a cena em que ela viu Emma já não serviu para isso? Precisamos realmente testemunhar uma repetição um pouco mais risqué? E o contraste entre o “macarrão a bolonhesa”, único prato que o conservador pai de Adèle sabe cozinhar (coincidentemente, o mesmo que eu sei…), com os pseudo-sofisticados frutos do mar que o liberal padrasto de Emma faz com tanto prazer, fica parecendo uma caricatura grotesca e exagerada de algo que já havia sido mostrado antes, mas de forma muito mais sutil e bem inserida na construção dos personagens.

A obviedade também continua na paleta de cores. Sim, o diretor de fotografia Sofian El Fani faz um esplêndido trabalho de close-ups como mencionei acima, mas erra a mão com o uso exagerado e óbvio da cor azul. Claro que ele não está sozinho aí, pois os designer de produção, assim como os figurinistas também ajudaram nessa tarefa de basicamente saturar a tela da cor que dá título à graphic novel e ao título em português. Há determinadas sequências que chegam a ser risíveis pelo exagero da cor e, ainda que haja uma função narrativa para ela – representando, primeiro, incerteza e tristeza e, depois, ao longo da projeção, felicidade – um trabalho mais discreto teria beneficiado a obra como um todo.

Azul é a Cor Mais Quente é muito mais profundo do que “aquele filme com cena de sexo lésbico” ou do que “aquele filme da mulher de cabelo azul”. Ele mergulha em um oceano de descobertas e da vida que poucas vezes vemos de maneira tão eficaz na tela grande, tornando a experiência um grande prazer.

Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle, França/Bélgica/Espanha – 2013)
Direção: Abdellatif Kechiche
Roteiro: Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix, Julie Maroh (graphic novel)
Elenco: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou, Mona Walravens, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Sandor Funtek
Duração: 179 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.