Crítica | Babel

estrelas 4,5

“Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros. Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu a língua de todo o mundo. Dali o Senhor os espalhou por toda a terra.” — Gênesis, capítulo 11, versículos 7 a 9

Em seu discurso de posse, Franklin Delano Roosevelt declarou: “Permitam-me afirmar minha crença inabalável de que a única coisa que devemos temer é o próprio medo”. O presidente americano eleito tocava no ponto que, décadas depois, seria central na sociedade pós-moderna e globalizada, que surge em Babel, terceiro filme da trilogia de Alejandro González Iñarritu. O terceiro capítulo dessa sequência examina vidas que se passam em quatro países e três continentes diferentes. Iñarritu faz dessa empreitada o seu filme mais complexo e ousado. Em seu capítulo final, a Trilogia da Perda se debruçará não sobre aquilo que perdemos enquanto indivíduos, mas sobre o que perdemos enquanto humanidade no mundo contemporâneo. Um mundo regido pela velocidade, pela ruptura de barreiras territoriais e pela presença capilarizada do que Roosevelt enunciara – o medo.

Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett) são um casal norte-americano em crise que viaja ao Marrocos para tentar salvar o casamento. O ônibus turístico em que estão é alvejado por um tiro, que acaba atingindo a esposa. O disparo fora realizado por um menino marroquino, que brincava com seu irmão com o rifle que ganharam de seu pai. O rifle, por sua vez, fora dado de presente por um caçador japonês, cuja filha surda-muda – Chieko (Rinko Kikuchi) – não consegue se sentir pertencente a nenhum grupo à sua volta. A quarta história envolve Amélia (Adriana Barraza), empregada de Susan e Richard e imigrante mexicana ilegal, que cruza a fronteira para ir ao casamento de seu filho, levando os dois filhos dos patrões. Ligadas à distância, as quatro histórias de Babel aparecem conectadas desde o começo. A narrativa continua não linear, mas os saltos cronológicos vertiginosos de 21 Gramas estão ausentes.

Algumas questões de Babel são especialmente destacadas. A paranoia norte-americana com a segurança e com o terrorismo fica bem evidente. A imprensa noticia o incidente envolvendo Susan antes mesmo de ela receber os primeiros socorros e os noticiários continuam acompanhando as novas informações. Sem averiguar adequadamente o que se publica, é possível dizer que na verdade algumas informações são criadas, sem nenhum compromisso com o real. Fala-se precipitadamente em terrorismo, mesmo que saibamos de saída que não se trata de ato terrorista. A veracidade dos fatos é preterida em favor da velocidade com que são apresentados. Cria-se uma corrida em busca de novas informações e cada novo detalhe do caso aparece em noticiários cada vez mais atualizados.

O filme toca inevitavelmente no que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de paixão securitária. O mundo globalizado, que dissolveu fronteiras e colocou em contato pessoas de todo o mundo, acabou gerando sentimentos confusos, como insegurança, desconfiança mútua e medo de tudo o que é estranho. Tais sentimentos criaram um anseio jamais visto por segurança e, com ele, um fetichismo bizarro por tudo aquilo que promete conter o mal do lado de fora de nossos muros. Todo aparato de segurança privada e coletiva é posto em funcionamento e, quanto mais tentamos nos proteger, mais inseguros nos tornamos. Eis um círculo vicioso, que Bauman chama de autopropulsão do medo. A imprensa de Babel tenta oferecer exatamente isso – uma sensação de segurança a seu público, que se vê representado em Susan e, portanto, ameaçado.  A verdade jornalística dá lugar a uma sensação pretensiosa de onisciência, que localiza a ameaça e permite seu controle imediato.

O medo aparece em grande medida também na abordagem truculenta que os policiais fazem ao carro de Amélia e Santiago (Gael García Bernal). Eles assumem como culpados a priori os dois imigrantes mexicanos, que tentavam voltar aos EUA depois do casamento. Os atuais movimentos de refugiados sírios ao redor do mundo também encontram resistência especial nos EUA de Donald Trump, com apoio de grande parte da população. Todo esse fenômeno esconde em seu âmago um medo profundo, que domina a sociedade mais poderosa do mundo. Mas engana-se quem acusa Iñarritu de tratar os americanos em seu filme como vilões e os marroquinos como meras vítimas. A própria relação familiar entre os marroquinos é marcada pela violência. Tanto os meninos como sua irmã apanham no rosto de seu pai. Em uma sociedade tipicamente rural como essa, o próprio fato de crianças manejarem livremente um rifle já demonstra que ali também impera a cultura do medo, antes local e agora global.

A história de Chieko se desenvolve numa chave um pouco diferente, deixando mais clara a ideia de que vivemos em uma Babel. A adolescente, surda e muda, é o “tipo ideal” que Iñarritu escolhe para tratar da incomunicação do mundo contemporâneo. São extraordinárias as cenas que envolvem a personagem nipônica (em termos de cinema, acho que são as melhores do filme, junto com a sequência inicial situada no Marrocos). Brilhante trabalho de direção ao contrapor o mundo externo, extremamente sonoro (destaco especialmente a cena da boate), como antípoda do silêncio constante em que vive Chieko. Na realidade, todo o ruído presente no mundo dos jovens japoneses não passa de um grito igualmente sonoro por socorro. Um país avançadíssimo em tecnologia produz uma geração tão hiperconectada quanto solitária e insensível, que se comunica pouco e cria ilhas de isolamento. Chieko é só uma delas.

A montagem do filme é estupenda em alguns momentos. Quando os meninos marroquinos percebem que acertaram alguém no ônibus, eles correm. O plano seguinte se inicia com os filhos de Susan e Richard correndo pela casa e brincando.  Já quando percebem que o caso da turista baleada está sendo investigado, os meninos contam tudo à autoridade máxima que reconhecem – o pai, em uma atitude típica da criança. Nesses momentos, Babel apenas revela que crianças são apenas crianças, estejam onde estiverem. Elas correm, brincam e se amedrontam. A montagem é novamente perfeita quando mostra Chieko chorando nos braços do policial e, a seguir, o pai marroquino chorando com o filho Ahmed em seus braços. O filme nos diz algo como: observe nossas diferenças, mas não se esqueça de nossas semelhanças. Yussef e Ahmed brincam de braços abertos contra o vento – eis a lembrança que o primeiro guardará para sempre de seu irmão e a beleza dessa cena é certamente universal.

A trilogia de Alejandro González Iñarritu chega ao fim com Babel. Todos os personagens apresentados nos três filmes são espelhos de uma humanidade entrópica, em um mundo cheio de desordem e que será sempre assim, não importam quais esforços sejam empreendidos. “Caminhamos rumo ao abismo ou à metamorfose e, talvez, rumo a um dentro do outro” escreve o francês Edgar Morin. A trilogia se inicia com uma perseguição de carro e um cão à beira da morte e termina com um abraço entre pai e filha. Somos caóticos, mas também bastante competentes para produzir afeto, solidariedade e compreensão mesmo no mais caótico dos mundos e, talvez, principalmente nele.

Babel (Babel) – EUA / México / França, 2006
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Guillermo Arriaga
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Adriana Barraza, Gael García Bernal, Rinko Kikuchi, Köji Yakusho, Elle Fanning, Nathan Gamble, Michael Peña, Boubker Ait El Caid
Duração: 142 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.