Crítica | “…Baby One More Time” – Britney Spears

estrelas 3

Antes de iniciar a análise do álbum, um pouco de dados biográficos: antes de lançar as 12 faixas de seu primeiro trabalho, a princesa do pop negociou com o empresário Lou Pearlman para fazer parte da girl band Innosense. Na época uma fita demo com Britney cantando uma faixa de Whitney Houston fora enviada para vários nichos musicais. Um deles gostou, assinou contrato e revelou ao mundo a nova representante do pop para a juventude. É ela mesma, “It’s Britney, bitch!”, mas numa fase de mais calmaria e sem o tom sexual dos trabalhos seguintes.

Assim que foi lançado, a crítica especializada manifestou-se em polvorosa: “Britney Spears continua o arquétipo clássico da rainha adolescente, a boneca fofinha, o bebê anjo que só tem que fazer uma cena”, afirmou um veículo de comunicação, dando todo o crédito que a garota precisava para se estabelecer. Com esta citação, damos início às reflexões sobre o primeiro álbum da musa adolescente que já fez a sua história no âmbito da música pop e é uma referência musical contemporânea, mesmo que boa parte de seus trabalhos sejam questionáveis quando utilizamos o “sistema de medidas de qualidade de uma obra artística”. Independente dos problemas, altos e baixos, Britney Spears promoveu um acirrado movimento artístico no terreno da cultura pop, tornando um dos maiores fenômenos midiáticos da história recente.

Com 42 minutos e 20 segundos (versão estadunidense), o álbum gravado entre 1997 e 1998 foi lançado em janeiro de 1999, sob a produção de David Krueger, Kristian Lundin, Max Martin, Andreas Carlsson, Eric Foster White, etc. Carregado de estilos pop, sobressai-se o subgênero bubblegum pop, som criado e comercializado para o público adolescente, com músicas recheadas de coros infantilizados e inocência parcialmente artificial, com composições que anexam ao conjunto um punhado de conotações sexuais. Através de acordes simplificados, melodias cativantes, refrãos com vozes multiplicadas e ganchos repetitivos, as letras flertam com temas como amor, amizade, felicidade e curtição.

Para a realização do álbum, Britney Spears viajou para a Suécia com os produtores. Era preciso agir com bastante cautela, pois o terreno pop precisava de uma nova musa teen.  Madonna, artista constantemente comparada com a princesa do pop estava numa fase mais intimista e de ampla pesquisa por culturas mais distantes, além de ter trilhado um caminho mais maduro com a participação no musical Evita e o lançamento da sofisticada e calma coletânea Something to Remember, material que também trazia algumas canções inéditas.

Considerada a responsável pelo renascimento do teen pop, Spears trouxe em seu primeiro álbum instrumentos como piano, guitarras, sinos e em algumas faixas específicas, pratos, tambores e sintetizadores, este último, o companheiro número um das gravações lançadas pela artista ao longo dos oito álbuns entre 1999 e 2016.

A faixa título é uma das melhores coisas que a artista já fez. É pegajosa, repetitiva, mas contém uma energia quase nunca vista em outros trabalhos de Britney. Escrita e produzida por Max Martin, conforme aponta uma matéria da seleção crítica The Greatest Songs Since You Were Born, “a abertura emula um pouco de We Will Rock You, da banda Queen e tem elementos da trilha do filme Tubarão, de John Willians, pelo fato de fazer a sua presença ser reconhecida em apenas um segundo”.

É uma canção dançante que permite o alcance de duas oitavas pela cantora, num ritmo de 93 batidas por minuto e presença constante do baixo e linhas de sons de guitarra wah-wah, num segmento sonoro que a Rolling Stones apontou como “semelhança com sons de máquinas de eletrocardiograma”. O videoclipe, gravado por Nigel Dick apresentou Britney Spears vestida de roupas do período colegial, num misto de inocência e sensualidade, elementos básicos do estilo bubblegum pop.

Em Sometimes, escrita por Jorgen Elofsson e produzida por Per Magnusson e David Krueger, a mocinha canta sobre o coração partido em 96 batidas por minutos e sonoridade que nos remete ao estilo euro-dance. O lúdico videoclipe, também conduzido por Nigel Dick apresentou um ambiente de inocência com uso constante de roupas brancas, céu azulado e iluminação beirando o estourado. O videomaker Nigel Dick também assumiu a direção do videoclipe da terceira faixa single, You Drive Me Crazy, escrita e produzida por Max Martin.

Na canção, Spears fala sobre se apaixonar por alguém. Parte integrante da trilha sonora da comédia romântica adolescente Drive Me Crazy, a faixa é envolvente, fez bastante sucesso e ganhou uma versão remixada posteriormente. Como toda nova diva pop que se preza, o álbum ofertou duas faixas especificamente românticas: From the Bottom of My Broken Heart e Born To Make You Happy. A primeira, escrita por Eric Foster, nos mostrou uma versão mais madura de Britney, diferente do restante do álbum. Com letra acima da média, tendo como foco falar sobre a perda do primeiro amor, a faixa segue o seu ritmo em 76 batidas por minuto. O videoclipe, dirigido por Gregory Dark, consegue valorizar a canção, graças ao ótimo desempenho da direção de fotografia e da história de fundo, apresentada com Britney Spears mais inspirada para as câmeras que o habitual. A segunda, escrita por Kristian Lundin, em parceria com Andreas Carlsson, teve videoclipe dirigido por Bille Wooddruff e é um dos trabalhos menos expressivos dos singles deste álbum. A canção que tem arranjo em progressão harmônica (um acorde mais alto seguido de outro mais baixo) e 88 batidas por minuto revela uma letra adocicada, sobre uma garota que afirma “ter nascido para ser feliz”, com alcance vocal entre o intervalo de uma oitava e ganchos repetitivos.

Para compor o álbum os realizadores incluíram outras faixas pouco interessantes, tais como a melancólica e E-Mail My Heart; Thinkin’ About You, faixa carregada de elementos do blues anos 1980, sem muita conexão com a voz de Britney; I Will Be There, agradável canção de arranjo sofisticado e letra simples; Soda Pop, uma bobagem pegajosa com reminiscências do jazz; e The Beat Goes On, uma espécie de cover homônimo da experiente Cher, repetitiva e pouco ousada na releitura de Spears.

O primeiro trabalho da cantora é também considerado o de maior sucesso financeiro, promovido por meio de apresentações em emissoras de TV, entrevistas em revistas e rádios, bem como turnês curtas que ainda testavam o potencial da nova mania pop estadunidense, através dos espetáculos Hair Zone Tour, Baby One More Time Tour e Crazy 2K Tour. Segundo a artista, com “Baby One More Time, eu não consegui mostrar toda a minha voz (…), as músicas eram grandes, mas não eram desafiadoras”. Sobre desafios, concordo que muitos obstáculos e reconfigurações surgiram na carreira da cantora, o que coadunou com os álbuns de estilos que ora se aproximavam, ora se distanciavam estilisticamente, entretanto, no que diz respeito aos elementos vocais, não houve profecia que resolvesse o problema, pois a musa pop precisou investir em faixas cada vez mais carregadas de sintetizadores, gemidos e sussurros, além dos sedutores gritinhos, tendo em vista fazer os seus álbuns irem além do instrumental.

Aumenta: Baby, One More Time…
Diminui: Soda Pop.

Baby One More Time…
Artista: Britney Spears.
País: Estados Unidos.
Lançamento: 12 de janeiro de 1999.
Gravadora: Jive Records.
Artista: Bubblegum pop, dance-pop e teen pop.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.