Crítica | Bacalhau

estrelas 5,0

O mar nos assusta há tempos. Não é de hoje que tememos os seus mistérios, não é verdade? O cinema, modalidade artística relativamente recente, tratou de apresentar em várias oportunidades, este local desconhecido, espaço de criaturas misteriosas e mortais, tais como a Hidra de Lerna, Leviatã, Moby Dick e as mais variadas espécies de tubarões. Este último, por sua vez, talvez seja o exemplar com maior número de versões cinematográficas.

Inspiradas no filme de sucesso conhecido por todos, adaptado do romance homônimo de Peter Benchley, estas versões espalharam-se como um extenso rizoma pela indústria audiovisual. Uma dela é a sua sátira brasileira: Bacalhau, produção que eleva a sátira ao nível máximo, ao inflamar e subverter a fórmula do seu referente.

Os caminhos para a análise fílmica se bifurcam em várias direções. Se observado pelo ponto puramente estético, Bacalhau pode ser pensado como uma comédia erótica qualquer, parte integrante de um período em que o cinema brasileiro preocupava-se em produzir filmes cômicos de conotação sexual. Visto por outro lado, o da paródia, texto parricida que “mata” o pai para se estabelecer, a produção dirigida por Adriano Stuart, lançada apenas oito meses após a estreia de Tubarão, no natal de 1975, é um primoroso jogo de metalinguagem.

Oriundo do movimento que os manuais e livros de resgate da memória do cinema brasileiro chamam de Boca do Lixo, Bacalhau é da mesma família de O Exorcista de Mulheres, O Poderoso Garanhão, Um Homem Chamado Cavalo e A Menina e o Estuprador. O roteiro apresenta o seguinte argumento: numa cidade balneária do litoral de São Paulo um peixe de origem desconhecida começa a fazer vítimas, deixando um extenso rastro de mortes. Especialistas da fauna marinha são convidados para integrar a investigação e um oceanógrafo identifica os ataques como oriundos de um bacalhau da Guiné. Após intensa pesquisa, a criatura é capturada, mas uma reviravolta revela surpresas nada agradáveis para os caçadores.

Dentro deste padrão narrativo, Bacalhau subverte a estrutura do roteiro “original” e aposta no comportamento sexual do monstro, bem como em seu design cartunesco. Diferente das numerosas cópias que surgiram na esteira do então novo filme monstro da Universal, produções que fizeram parte do que a crítica chamou de jawsexplotation, Bacalhau é um monstro da pornochanchada que com a sua volúpia sexual, come as suas vítimas e as deixa tal como um esqueleto, como na imagem que abre esta crítica.

Para captura-lo, os envolvidos na investigação utilizam discos de Amália Rodrigues, famosa cantora e atriz portuguesa, numa alusão satírica às origens do animal. Por falar em produção musical, torna-se válido destacar o interessante trabalho de composição de Beto Strada, material que nos remete ao som do blaxploitation, movimento cinematográfico estadunidense dos anos 1970 dirigidos e protagonizados por artistas negros. Curtis Mayfield, James Brown e Barry White são alguns dos nomes que marcaram o estilo.

Diante do exposto, a constatação: ácido e muito, mas muito caricatural, adianto que Bacalhau só funciona para as pessoas que detém o código. É preciso relacionar-se com o referente (o filme de Spielberg) para entender cada estratégia narrativa da produção. Em seus 110 minutos, a trama que completou 40 anos em 2016 teve o seu irmão no ano seguinte: Costinha e o King Kong, outra produção que investiu em brincadeiras diante dos filmes de monstros estrangeiros.

Para os que conhecem a trajetória metalinguística de Adriano Stuart, a compreensão em torno dos elementos que gravitam ao redor de Bacalhau se tornam ainda mais claros. O cineasta, roteirista e ator também apresentou a sua versão cômica do clássico O Exorcista: Exorcismo Negro e Perversão sexual de uma garota. Falecido em 2012, cabe ressaltar que o realizador não viveu apenas de paródias ou filmes da franquia Os Trapalhões. Ao atuar em produções como Garotas do ABC, Os Matadores e Encarnação do Demônio, Adriano Stuart deu status de versatilidade para o seu currículo, tornando-se um membro importante para a “trajetória do cinema nacional”, uma indústria ainda em “subdesenvolvimento” na época.

Bacalhau – Brasil, 1976. 
Direção: Adriano Stuart.
Roteiro: Adriano Stuart.
Elenco: Maurício do Valle, Hélio Souto, Dionísio Azevedo, David Neto, Canarinho, Neusa Borges, Adriano Stuart, Helena Ramos.
Duração: 110 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.